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Quarta, 10 de junho de 2009, 08h07 Atualizada às 14h46

Hungria, os anos de ouro (3)

Fernando Eichenberg
De Paris

No final do ano passado, estive em Budapeste, a bela capital húngara. Era início de inverno, o termômetro registrava temperaturas em torno de -5°C graus e as calçadas estavam cobertas de neve. A viagem foi motivada pelos encontros previamente agendados com dois personagens da história do futebol mundial: Gyula Grosics e Jeno Buzánsky, hoje os únicos remanescentes da mítica seleção húngara que encantou o mundo na década de 1950. À parte as entrevistas com os dois ex-craques, também conversei com György Szepesi, narrador e comentarista de rádio que acompanhou as façanhas da Aranycsapat - literalmente, em húngaro, "equipe de ouro" -, e com o escritor Peter Esterhàzy, um habitué da relação de candidatos ao prêmio Nobel de Literatura e um fanático por futebol.

Como bônus, por uma feliz coincidência de datas, tive a chance de estar presente na comemoração dos 55 anos da célebre vitória da seleção magiar contra os ingleses, em 1963, relembrada anualmente em um emotivo e festivo encontro no Pub Puskas, em Budapeste. Minha breve aventura húngara resultou em uma série de reportagens publicadas no jornal O GLOBO, em três domingos consecutivos de janeiro de 2009 (11/01, 18/01 e 25/01). Apesar do generoso espaço dedicado pelo jornal - uma página inteira por semana -, muitas das histórias coletadas nas conversas com meus interlocutores ficaram de fora da série, que aproveito para republicar aqui, acrescida de material inédito.

Os craques da Aranycsapat no Brasil

Gyula Grosics, 84 anos, goleiro da mítica seleção húngara dos anos 1950, permaneceu alguns segundos em silêncio e suspirou, antes de confessar: "Às vezes ainda me arrependo de não ter ficado no Brasil". Quando esteve no Rio de Janeiro, em 1957, com o Honved, base da seleção da Hungria, o goleiro, conhecido como Pantera Negra, assinou um pré-contrato com o Flamengo. "Temos um provérbio que diz: 'É fácil tirar uma jovem para dançar'. E a direção do Flamengo veio falar comigo", conta, rindo.

A proposta era atraente, sobretudo, nota ele, se comparado ao que se ganhava na Hungria: U$ 120 mil por três anos, metade no primeiro ano e o restante depois. "Eles me mostraram meu futuro apartamento, com vista panorâmica para Copacabana. Teria direito a importar cinco carros com isenção de taxas, que na época eram de 100%. Poderia ter ganhado dinheiro se tivesse ficado no exterior, mas era uma luta interna dentro de mim. Apesar de tudo, queria retornar ao meu país. Sofria muito com as saudades", relembra o ex-goleiro.

A excursão do Honved ao Brasil está intimamente relacionada aos acontecimentos políticos da época na Hungria e ao ocaso da chamada Aranycsapat, a "equipe de ouro" do capitão Puskas. No dia 4 de novembro de 1956, tanques do Exército Vermelho da União Soviética invadiram Budapeste para reprimir a insurreição no país que pregava um "socialismo mais humano", democrático e nacional, livre do totalitarismo de Moscou e das imposições do Pacto de Varsóvia.

Durante a sangrenta invasão soviética, o Honved - que desde 1949, com as nacionalizações, se tornara o clube do exército húngaro - estava em Viena, na Áustria, a caminho da Espanha, onde jogaria três dias depois com o Athletic Bilbao pela Copa da Europa. Eliminada pelos espanhóis na partida de volta - disputada em campo neutro, em Bruxelas, na Bélgica -, a equipe se dispersou no exílio. Jogadores como Puskas, Sándor Kocsis e Zoltán Czibor se recusaram a retornar ao país, e o Honved passou a disputar partidas amistosas pela Europa.

Flamengo e Botafogo se uniram para convidar o time de Budapeste, então itinerante, para uma série de jogos amistosos no Brasil. A Federação Húngara de Futebol negou autorização ao Honved para a viagem à América do Sul e a FIFA ameaçou o clube e seus adversários com sanções. "Os jornais publicaram que os times que jogassem contra nós, e também seus países, seriam desfiliados da FIFA. Só conseguimos disputar cinco partidas no Brasil", recorda, com tristeza, Grosics.

No jogo de estréia, na noite quente de 19 de janeiro de 1957, o Maracanã acolheu 113 mil curiosos torcedores - entre eles o presidente Juscelino Kubitschek e Dom Hélder Câmara - para assistir ao futebol dos "mágicos magiares". O público não se decepcionou: 10 gols nos 90 minutos (dois deles de Puskas) e vitória de 6 x 4 do rubro-negro de Evaristo, Dida e Moacir.

"Foi quase um milagre para mim ver o Brasil pela primeira vez, o Maracanã, o Cristo Redentor. Estávamos todos maravilhados", recorda o "Pantera Negra". Puskas marcou oito gols nos cinco amistosos (quatro jogos no Rio e um em São Paulo, no Pacaembu), dos quais o Honved venceu três e perdeu dois: 4 x 6 Flamengo, 4 x 2 Botafogo, 6 x 4 Flamengo, 3 x 2 Flamengo, 2 x 6 Flamengo/Botafogo (combinado com Garrincha e Didi, entre outros, pelo alvinegro).

No retorno à Europa, os jogadores rebeldes foram punidos. A FIFA considerou o Honved como ilegal, Puskas foi banido do futebol e suspenso por 18 meses. Refugiado com a família em Bordighera, na Riviera Italiana - sua mulher e a filha fugiram a pé da Hungria pela fronteira com a Áustria -, o Major Galopante passou a beber além da conta e chegou a engordar 18 quilos.

Em abril de 1958, quando o Real Madrid anunciou sua contratação, poucos acreditavam na ressurreição do craque, aos 31 anos, obeso e fora de forma. Mas, ao lado de talentos como o argentino Di Stéfano, o francês Kopa ou os espanhóis Gento e Rial, "Pancho" ou "Cañocito Pum" - como foi apelidado pela torcida do Santiago Bernabéu - voltou a brilhar nos gramados da Europa, arrebatou troféus e se tornou artilheiro em cinco temporadas. Um de seus maiores feitos ocorreu no 18 de maio de 1960, na final da Copa da Europa contra o Eintracht Frankfurt, no estádio Hampden Park, em Glasgow, na Escócia. Placar final: 7 x 3 para o Real, quatro gols de Puskas e três de Di Stéfano.

Proibido de retornar ao seu país, o craque húngaro se naturalizou e chegou a disputar a Copa do Mundo de 1962, no Chile, pela seleção da Espanha. Em 1966, aos 39 anos, o mito Puskas encerrou sua vitoriosa carreira de jogador. Os números confirmam: 83 gols em 84 jogos pela Aranycsapat.

Em 1976, o governo húngaro não o autorizou a assistir ao enterro de sua mãe. Foi somente em 1981 que conseguiu novamente ver a sua Budapeste. Em 17 de novembro de 2006, aos 79 anos, morreu vítima do Mal de Alzheimer, no hospital Kutvolgyi, na capital húngara.

O defensor Jeno Buzánsky, 83, o outro último sobrevivente da equipe ouro dos anos 1950, foi um dos fiéis amigos de Puskas até o final. Ele relembra com carinho de seu capitão: "Se eu não acertava um lançamento de 30 metros nos seus pés, ele dizia: 'Você vê o que estou vestindo, vê as cores do meu uniforme, sabe onde estou, então me envia a bola lá onde estou'", conta, às gargalhadas.

A foice e o martelo contra a bola

O clima político na Hungria comunista influenciou de forma determinante o destino dos jogadores da equipe de ouro. Já em 1951, o jogador Sandor Szűcs, do clube Újpest e da seleção, foi detido próximo à fronteira ao tentar fugir do país e, depois, executado. Quando Puskas e Bozsik souberam da prisão, procuraram as autoridades para impedir a execução. Foi em vão.

"Dias depois do enforcamento, o ministro da Defesa reuniu uns vinte jogadores da seleção e disse que se alguém de nós tentasse permanecer no exterior ou fugir do país teria o mesmo fim de Szűcs, e nossas famílias também. Ele nos aunciou isso como se tivesse dito 'vamos ver um filme essa tarde'. Szűcs foi vítima para dar o exemplo. Era um mundo assim na época", conta Grosics. Em 1990, Sandor Szűcs foi reabilitado pelo governo húngaro.

O goleador da Copa do Mundo de 1954, com 11 gols, Sándor Kocsis, conhecido como "Cabeça de Ouro", seguiu o caminho de Puskas: recusou-se a retornar para a Hungria após a excursão ao Brasil e, em 1958, foi jogar na Espanha, contratado pelo Barcelona. Seu fim ilustra a maldição daqueles tempos sombrios. Mergulhado no alcoolismo, sofria de delirium tremens. Em suas alucinações, enxergava tanques soviéticos no quarto do hotel. Diagnosticado com câncer, aos 49 anos se atirou da janela da clínica em que estava internado, em Barcelona.

Buzánsky diz que poderia também ter deixado o país, mas escolheu ficar. "Apesar do sistema político, nunca tive a força de partir. Quando estava fora, sempre sentia muitas saudades. Gostava de partir, mas mas ainda de voltar". Grosics, assim como Nándor Hidekguti, também fez parte do grupo que ficou e sentiu na pele a intimidação política. Em novembro de 1954 - poucos meses depois da derrota na final da Copa do Mundo na Suíça -, a ÁVH, a polícia secreta húngara (uma das mais severas do bloco comunista), abriu um processo contra ele por traição e espionagem. "Era um processo pré-fabricado, com denúncias vagas. Eram coisas normais no comunismo", diz.

O goleiro tem certeza de que foi um companheiro da seleção que o denunciou, mas como não pode provar, prefere não dar nomes. Por trás da falsa delação, havia, segundo ele, duas razões: suas manifestas opiniões contra o regime e a perda do Mundial em 1954, contra a Alemanha.

Proibido de jogar por 13 meses, o Pantera Negra acabou transferido, em dezembro de 1955, para a cidade mineira de Tatabánya, a 60 quilômetros de Budapeste, e lá pode atuar no time local. "Mas durante dois anos fui proibido na seleção húngara. Fiquei de fora de uns 30 jogos, entre novembro de 1954 e outubro de 1956.

Na volta do Brasil, Grosics se juntou a sua família em Viena. De lá, enviou um telegrama ao Flamengo informando que decidira retornar a Budapeste e, portanto, não poderia honrar seu pré-contrato com o clube. "No dia seguinte, fui à embaixada e me olharam como se eu fosse um extraterrestre quando disse que queria documentos para voltar para a Hungria. Era a primavera de 1957. Voltei para Tatabánya e a vida continuou como se nada tivesse acontecido".

Mas há lugar também para a tragicomédia nas memórias do goleiro sobre a ditadura comunista. Grosics conta como os jogadores procuravam se divertir com a onipresente vigilância de agentes da polícia secreta nas viagens da seleção ao exterior. Como em um almoço durante uma excursão ao Egito: "Naquela época, não se encontrava banana na Hungria. Como os espiões nos seguiam por todo o lado e observavam tudo o que fazíamos, combinamos entre nós que cada um fingiria que estava comendo a banana com a casca. Eles nos imitaram e comeram a casca! Não sei o que sentiram, mas nós caímos na gargalhada. Eles ficaram com tanta vergonha que foram dar um passeio", conta, rindo.

Com seus craques dispersos, muitos deles no exterior e proibidos de voltar ao país, a Aranycsapat encerrou sua fase de ouro, mas entrou para história do futebol como uma das mais prodigiosas e fascinantes equipes de todos os tempos.

Um sacristão sob as traves e um mineiro na zaga

Gyula Grosics se tornou o Pantera Negra por acaso. Em Dorog, cidade a 38 quilômetros de Budapeste, onde nasceu e vivia, jogava peladas na escola e assistia às partidas dominicais no estádio ao lado do pai. Mas seu destino já estava traçado: a carreira religiosa. No entanto, em um domingo do outono de 1940, aos 14 anos, pelos desígnios de Deus ou pelos mistérios da bola, ocorreu o que ele diz ser "um milagre". Observava com outros garotos os jogadores do Dorog Atlétikai Club, time de segunda divisão, que partiam para um jogo na cidade vizinha de Komárom. Mas os dois goleiros da equipe, em serviço militar, não apareceram para o embarque. O jovem Grosics foi, então, convocado de improviso. "Lembro que o treinador disse, brincando: 'Se não veio o padre, vamos de sacristão', sem saber sequer quem eu era. Não me lembro desse jogo, porque joguei em estado de êxtase. Vencemos por 2 x 1 e desde aquele dia passei a integrar o time de adultos".

Ao chegar em casa às 23h, encontrou o pai o esperando no portão, furioso. "Ele me perguntou gentilmente onde estava, eu respondi que tinha ido a Komaróm, e ele me esbofeteou. Então me perguntou o que tinha ido fazer lá, eu disse que tinha jogado como goleiro no Dorog Atlétikai. Ele gritou: 'E ainda mente, meu filho!', e me deu outro tapa", conta, hoje rindo.

Em sua longa e sucedida trajetória nos gramados, seu maior arrependimento se deu em 1962, no dia da desclassificação da seleção na Copa do Mundo no Chile. Depois do Mundial, Grosics estava acertado para integrar a reputada equipe do Ferencvárosi - conhecido como "Fradi" -, de Budapeste. Após o jantar da derrota no Chile, o presidente da Federação Húngara de Futebol lhe deu um envelope fechado."Abri. Era uma carta curta anunciando que a federação não me autorizava a ir para o Fradi. Meu objetivo era o de jogar por mais quatro anos e disputar o Mundial na Inglaterra. Mas de pronto, indignado, decidi encerrar minha carreira. No dia seguinte me arrependi, mas permaneci fiel à minha decisão".

Jeno Buzánsky aprecia dizer que um genuíno jogador de futebol já começa a chutar no ventre de sua mãe. Acostumado na infância a jogar com bolas de meia ou de tênis, conta ter visto sua primeira bola de futebol aos 12 anos de idade. "Meu lugar nas peladas era garantido, porque a bola era minha", relembra, com bom-humor.

Os números de sua história na Aranycsapat ele sabe na ponta da chuteira: "Disputei 49 jogos pela seleção, entre 1950 e 1956. Perdi apenas três vezes. Aos 31 anos, deixei a equipe e, aos 36, os gramados".

O zagueiro treinava à tarde no Dorogi Bányász. Pela manhã, trabalhava para as minas da cidade de Dorog. "Eu era o responsável pelo recrutamento dos trabalhadores da mina. Fizemos futebol profissional à maneira dos amadores. Hoje fazemos o contrário, futebol amador à maneira profissional".

Nas ruas, os dois sobreviventes da célebre seleção são até hoje saudados e assediados por autógrafos e fotos. Segundo eles, são esse carinho e reconhecimento que os mantem vivos. Buzánsky diz conhecer uma jovem em Dorog que fez amizade com um jovem na Malásia, via internet. "No primeiro diálogo, ela perguntou o que ele sabia da Hungria. Ele respondeu: "É um pequeno país, comunista, e tem a equipe de ouro'".


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há doze anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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