
Atualizada às 13h42 Claudio Leal
Edgar, da hora, da zoeira. Nas horas ociosas, o entregador da lanchonete Habib's, na rua Augusta, circundava o quarteirão com a bicicleta, para desligar das ideias. Puxava um cigarro, encostado na porta lateral, o rei das entregas. Era "da zoeira", insiste Sandro, o colega de pedaladas nos domínios da Paulista. Edgar deitava pedal até a avenida Nove de Julho, se houvesse demanda. Aprendeu o equilíbrio da bicicleta aos dois anos, sozinho.
"Eu pedalo para não pensar. Cansado, não lembro de meu pai", Edgar Soares de Paula contou à mãe, Tânia. "Tenho que dormir quatro horas por dia. Mais que isso, eu penso nele".
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Com dez anos, destravou o carro paterno, uma carcaça de metal bivacada no trânsito de São Paulo. O pai, taxista, tinha sido assassinado na noite anterior, ao retornar do trabalho. Edgar era o único a conhecer o segredo do carro de praça: uma trava posta em algum ponto oculto, semanas antes do crime. Balançou o volante, deu a partida, mas desde esse dia não destravou a memória.
Ouviu da mãe, viúva aos 32 anos: "Edgar, dorme comigo..."
Grudava na bicicleta doze horas diárias, sem esquecer o tiro que não ouviu. Vanessa, quatro anos mais velha, de irmã fez-se mãe.

Em família: a irmã Vanessa, a prima Nicoly, Edgar e a mãe, Tânia.
Na internet, houve de garimpar uma vaga de entregador na "Bike Courrier". Encaminharam-no a um posto na rede Habib's - em média quinzenal, dava para tirar 600 reais, níqueis divididos em família. Edgar da hora: ei-lo em portarias, turvo nos olhos-mágicos e tímido nas lojas, naquele vaivém anônimo de pizzas e esfihas.
Saía de casa às 10h, em Osasco (Grande São Paulo), para só retornar às 1h30. Pedalava um trajeto heroico de 12km. De sexta a domingo, cerca de 25 viagens diárias no trabalho. À noite, de volta a Osasco, atalhava pelo campus da USP. Na geladeira, tinha de encontrar sucos e doces. Ria do mexicano Chaves. Ouvia Raul Seixas. Estudou Relações Internacionais, na Faculdade Rio Branco, mas trancou a matrícula. Roía as unhas. Malhava na academia. Rezava na igreja evangélica. Trancava-se no quarto, em dias de silêncio e depressão. Bacana falar de TV. Nasceu em 11 de março de 1984.

Edgar: anotações no quarto
Às 1h22 da madrugada seguinte, Tânia reconheceu o número do filho no celular; "Já estou indo para aí", antecipou-se. Mas não o encontrou no começo da avenida Vital Brasil. E esticou as avenidas Rebouças e Faria Lima, a ponte Eusébio Matoso... "Vanessa, aconteceu alguma coisa", avisou à filha.
Edgar agonizava.
Numa ação paralela, policiais perseguiam dez assaltantes dos caixas eletrônicos do Mercado Municipal de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. O resto a perícia da Polícia Civil deve comprovar ou desmentir: Edgar levou sete tiros nas costas, supostamente disparados pelos criminosos.
Na versão dos policiais militares, o entregador foi ferido para que a urgência do socorro abortasse a caçada. "Recebeu os tiros nas costas, mas a mochila não tinha nenhum furo. E ele não tirava a mochila das costas", relata Tania Paula, que aguarda o desfecho do inquérito, no final de junho. Dois PMs também saíram feridos da guerrilha noturna. Edgar morreu no hospital universitário, aos 25 anos.
"Duas vezes na família. Ele morreu igual ao pai, que era um ídolo. É uma tragédia sem fim. Eu preciso de ajuda, estou meio perdida. Quero entender o que aconteceu com meu filho, nem que eu viva mais cem anos", promete Tânia. Arrumando as gavetas de Edgar, ela encontrou anotações antigas e recentes, resguardadas dos olhos familiares. Iniciava num dos apontamentos: "Meu nome é Edgar. Tenho 24 anos". Deixou dinheiro para comprar patins.
Terra Magazine
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Edgar Soares de Paula pedalava doze horas diárias - para esquecer a morte do pai
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