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Quinta, 11 de junho de 2009, 08h13

A música tem gênero, mas não genitália

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Music is gendered. But it has no genitals. At least, if it were to be given a phallus it
would have to be constructed as a discourse.
Daniel Chua em Absolute Music

(Há gênero em música. Mas não há genitais. Pelo menos, se fosse o caso de receber um falo, teria que ser construído como um discurso)

Daniel Chua não economiza retórica nessa formulação bombástica. Na verdade está interessado nas construções de discurso que conferem atributos masculinos ou femininos à música. Talvez esse efeito bombástico seja apenas uma tentativa de dialogar sobre o assunto em seus próprios termos - fixando esse absurdo como limite e evidência de que o tema acontece no campo do imaginário. Sua provocação bem que mereceria um outro artigo.

Vale ressaltar que seu livro é um dos feitos discursivos mais densos e brilhantes dos últimos tempos, e tem como objetivo principal a desconstrução da tradicional idéia de que existiria uma "música pura", - lugar reservado ao discurso sublime das sinfonias e dos quartetos de cordas.

Quem é Daniel Chua? Professor do Departamento de Música do King's College - na Universidade de Londres,
com diversas publicações sobre a música do século XIX, especialmente Beethoven. Como classificar seu discurso musicológico? É algo que transita pela hermenêutica (que é o se diz quando ainda não se sabe classificar o sujeito de forma definitiva), dando atenção a uma incrível polifonia de discursos oriundos da ciência, da filosofia, da teoria e história da música.

Em sua rede de argumentações vai mostrando como foram necessárias diversas operações discursivas para criar a própria idéia de inefável, de região artística imune às palavras - uma aura que, especialmente a partir do romantismo, se associa à música instrumental. Num segundo sentido, a música pura exigiria uma teoria pura, uma teoria extraída das próprias sonoridades que se movem , sem vínculos estruturantes com o contexto e a sociedade.

O autor acompanha passo a passo o caminho que se inicia com a teoria dos afetos no Barroco: se o corpo deveria ter alguma significação para o ego pensante (o ego de Descartes), então isso deveria ocorrer na interface entre corpo e espírito, ou seja, no campo das paixões.

Mas entre o início e o final do Século 18 vai ocorrer uma transformação significativa. Enquanto no inicio, a música instrumental passeava livremente pelos sentidos do corpo sem nenhuma conexão palpável com a esfera da razão (Empfindsamkeit), e com isso tendia a ser percebida como de natureza mais feminina (de acordo com a concepção vigente) - com o avanço do século vai haver uma imposição de conceitos visando afirmar sua masculinidade.

O autor lembra Matheson e sua afirmação de que o "som puro" é perigoso: "não significa nada, mesmo que externamente mais bonito que Venus; acaba sendo simplesmente um corpo bonito sem um espírito racional". Quanto mais avançava a construção iluminista da razão, do espírito, mais a música era empurrada da esfera do corpo para a esfera da razão e da expressão do sublime.

Johann Hiller, por exemplo, advogava a retirada dos minuetos da sinfonia, visando um equilíbrio mais másculo. A música instrumental vai tender a ocupar esse lugar da expressão moral do sublime. E o sublime era masculino, produto do exercício e da ação.

Sendo assim, atributos como atividade, transição, modulação, contraste, tão característicos da sinfonia, passaram a ocupar posição de verdadeiros monumentos nessa nova ordem falocêntrica. Outra coisa: a música sublime além de masculina era moralmente superior!

Toda essa série de movimentos internos vai desaguar na importância do "herói" como signo desses novos tempos. A representação do "herói" e sua masculinidade sublime vai se aproximar da música instrumental, notadamente através da sinfonia. A "Eroica" de Beethoven representou o momento de quebrar as fronteiras da esfera privada (mais feminina) em direção à esfera pública, do heroísmo masculino, desafiador da morte, e motor da historicidade.

As estruturas "autônomas" da Sinfonia de Beethoven representam diretamente o herói da Revolução Francesa - como se fosse o ritual francês revivido pela abstração germânica. Um monumento à sua própria universalidade. Paralisa as reações de sensibilidade do corpo em favor da ação estrutural da história. Nesse sentido, exige controle estrutural, e crises contínuas, justamente como uma forma de reafirmar esse controle. Obviamente essas crises vão desembocar na música do Século XX.

Mas se a construção desse mundo musical sublime esteve associada à atribuição de uma masculinidade imaginária à música, o que dizer dos tempos atuais - que colocam em questão a saída histórica das ingerências desse discurso? Em plena época de "declínio do pai", para usar a expressão consagrada pelos psicanalistas, o que dizer de tantos que somos ainda, aderidos ao discurso da "música pura"?

Se o falo construído por discurso deu origem aos prazeres da referência paterna (heróica), à estruturação rigorosa do discurso, à ilusão de que o próprio herói se configura a si mesmo - quais seriam os novos prazeres? A desestruturação rigorosa da fragmentação? A incerteza?

Quem é que substitui o "herói" - será a celebridade? Enquanto o "herói" tem vinculação direta com o processo histórico, a celebridade nem tchum! E qual a sexualidade das celebridades? Trata-se de construção sexual polimorfa?

¹ Cambridge University Press, 1999
²Essa é a própria formulação de Hanslick.


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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