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Quinta, 11 de junho de 2009, 08h11 Atualizada às 20h48

É tão estranho

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Não lembro bem onde foi, mas li alguma coisa, recentemente, sobre a questão do valor de pinturas. O autor do texto dizia que, entre outras coisas, o valor de uma tela tem relação com a quantidade de trabalho que o pintor lhe dedica (raramente pintores improvisam; isso de desenhar em guarda-napos em mesa de bar para dar conta das despesas do restaurante é tipicamente anedótico - diz mais sobre os bobos que comprariam os esboços do que sobre os pintores).

Não conheço quase nada do campo, mas fiquei impressionado, quando li Eu fui Vermeer, com o tempo gasto por van Megeren para falsificar uma tela. Para que a obra pudesse enganar especialistas, o falsário não podia comprar tinta e tela na esquina e sair pintando figurinhas. Tinha que fazer com que a tela parecesse velha, que as misturas de tinta e as diversas camadas simulassem em todos os detalhes um quadro que deveria passar por antigo, entre outras coisas. De tudo o que ele deveria fazer, o mais fácil era desenhar e combinar cores como o teria feito o pintor imitado.

Falo disso apenas para dar uma ideia pálida do que um pintor deve conhecer para exercer seu ofício (talvez o trabalho do pintor-autor seja um pouco mais leve que o do falsário). E para acrescentar que, às vezes, parece que os escritores não precisam fazer algo análogo. Ou que mentem muito.

Não imagino o que signifique, em termos de trabalho, escrever um romance. Ou poemas, poemas em série, em número relevante para um livro, por exemplo. Sei, de ler alguma coisa sobre práticas de escrita, que muitos autores escreveram e reescreveram fanaticamente. Graciliano fazia isso quase doentiamente. Outros, provavelmente, não fazem a mesma coisa - o que, em geral, pode ser percebido pelo leitor mais arguto.

Mas, se pintores devem saber tudo também sobre telas e tintas, certos escritores dão a impressão de que não sabem nada - ou sabem muito pouco - sobre a língua na qual escrevem. João Ubaldo, por exemplo. Vejam o que ele escreveu no Estadão de 05/06/2009 (vou citar apenas alguns trechos e fazer rápidos comentários):

"Esta semana (ou, segundo a atual usança, 'nesta semana'), por exemplo, cheguei à conclusão de que estamos caminhando para a adoção de uma nova regra em relação às orações com o sujeito na terceira pessoa, tanto do singular quanto do plural. Assisti a muitos noticiários de televisão nos últimos dias, ouvi muitas entrevistas com todo tipo de gente e a conclusão dispensa maiores pesquisas. Dentro em breve vai ser errado dizer, por exemplo, 'o avião teve uma pane elétrica'. Imagino que, a continuar a tendência, as crianças nascidas hoje não compreenderão uma frase assim, porque jamais a ouvirão. Ouvirão 'o avião, ele teve uma pane elétrica'. E lerão numa gramática da norma culta que, na terceira pessoa, o sujeito precisa ser confirmado pelo pronome para o enunciado ficar claro. Para nós, velhos caturras, isso nos aproxima de nossos parentes de Neanderthal, mas que é que se vai fazer, só se fala assim, é impressionante".

Fico completamente espantado como fato - supondo que esteja dizendo a verdade - de que ele, um escritor consagrado, que escreve desde sempre, que ganha sua graninha fazendo isso, que, em seus livros (e mesmo em seus artigos de jornal) não se limita às regrinhas tacanhas dos manuais de redação (é até revolucionário, em certo sentido; em sua pontuação, por exemplo) nunca tenha lido nada sobre estruturas como essas que condena, que não saiba nada de nada sobre a organização sintática em Tópico - Comentário. Ou que a conheça pela condenação gramatiqueira (do anacoluto) e pense mesmo que seja um vício de linguagem. Eu não estranharia essa posição dos que **gam regras na TV, mas não aceito que João Ubaldo diga isso. É ignorância elementar sobre seu instrumento de trabalho! Afinal, ele vive disso, e merecidamente. Tenho direito de esperar que ele não ache que uma gramática escolar contenha toda a língua, que lhe sirva de "catálogo" total, ou que os falantes devam "respeitá-la". Pensar isso é ignorar quase tudo sobre o que é e como funciona uma língua. E sobre os diversos sistemas gramaticais que uma língua abriga.

Mas tem mais:

"Na mesma linha, embora costume poupar os mais velhos, enquanto ataca impiedosamente a flor de nossa juventude, está a extinção, por enquanto pouco notada, mas insidiosa, da flexão verbal do futuro, não só do indicativo, mas de outros modos. Não se diz mais, 'eu irei a São Paulo domingo' ou 'eu vou a São Paulo domingo', mas 'eu vou ir a São Paulo domingo'. Quando me dei conta desse fenômeno, achei que, além de caturra, estava ficando surdo para combinar. Em algumas flexões isso soa penoso, mas o pessoal persiste e já ouvi, como muitos de vocês devem ter ouvido, 'ela ia ir'. Soa um pouco como um cavalo relinchando e acredito que não será por acaso".

Por que ele imaginaria, ou foi levado a imaginar (e acreditou!) que o futuro tenha que ser para sempre o sintético, como o que lhe foi apresentado na escola? E se ele viesse a saber que esse futuro das gramáticas é o resultado histórico - de mudanças - de uma construção análoga a "vou dormir"? (Sim, porque em latim, por exemplo, o futuro sintétido era amabo, e amarei é resultado da perífrase hei de amar > amar hei > amarei (em latim houve também um amare habeo, com outros efeitos de sentido, em termos de aspecto. Aliás, será que ele sabe o que é aspecto?).

Seria muito bom, penso, que ele tivesse lido alguma coisa sobre as razões pelas quais o futuro atual, em português, é tipicamente vou amar, e que os estudiosos da língua explicam a forma pela passagem do verbo "ir" de seu sentido espacial para o temporal, e que essa mudança (metafórica) é comum nas línguas, e também em português: por isso dizemos, por exemplo, que o Império vai de 1822 a 1889"; e o advérbio "até", que marca um limite de espaço (até o muro) marca também limites de tempo (até ontem), e outros limites, nem tão claros assim (até o João Ubaldo acha isso!). E daí? Isso não é muito mais interessante do que tentar guardar uma regra pela regra?

Nem vou comentar o que marquei com negrito. Não vale a pena. Devia estar de mau humor por outras razões, e vingou-se nos leitores.

Quem é mesmo que está relinchando? Ah, João! Como a juventude é ignorante!!


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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