
Tony Monti
De São Paulo
Nunca entrei na Catedral da Sé. Eu moro em São Paulo, raramente me torno turista na cidade. Quando estive em Barcelona, há alguns anos, visitei algumas igrejas. Duas delas, em especial, me chamaram a uma reflexão: a Sagrada Família e a Catedral Gótica. É da primeira que se fala mais, mas foi a segunda que me impressionou. A Sagrada Família é um monumento sem vida, está permanentemente em obras. O que acontece lá é turismo. Gaudi, o arquiteto que a projetou, é famoso por diversas construções na cidade, quase todas atrações turísticas. A arquitetura, neste caso, perde seus vínculos mais íntimos com o dia-a-dia das coisas pequenas. As pessoas não vão lá para a missa e para celebrar valores da religião, mas para dar por feita mais uma das tarefas indicadas no guia turístico. De outro modo, na Catedral Gótica circulavam padres o tempo todo. Senti ali a imensidão do sentimento religioso, em torno de mim e, de algum modo, naquele momento, mesmo sem ser católico, também em mim.
Tenho a impressão de que, na maior parte do tempo, para o leigo, a face visível da arquitetura e do urbanismo é a apreciação destes monumentos. A arquitetura se torna o espetáculo do grandioso. Uma amiga arquiteta, Martha, na semana passada, escrevia um texto e me perguntou sobre os espaços de São Paulo que me agradam. Acho que o percurso da minha resposta se relaciona com a reflexão sobre as catedrais em Barcelona. Se os olhos do arquiteto têm sempre como foco os espaços, embora a periferia do olhar possa se ocupar com outros elementos que se relacionam com estes espaços, o centro das minhas preocupações são sempre as pessoas. Normalmente o espaço é o lugar onde eu me relaciono com os outros, na Catedral Gótica foi o lugar onde a história de muitas pessoas aconteceu e acontece, de maneira integrada a suas vidas, característica de que senti falta na Sagrada Família.
A usp
No dia em que a Martha me fez a pergunta, meu pensamento em relação à cidade de São Paulo era que estava sempre tudo cheio demais. Meu modelo de lugar público confortável era um cinema vazio, o que, em horário e local certos, ainda é possível encontrar. Sentar na sala escura, em frente à tela, e viver uma experiência sem o ruído da multidão nem a familiaridade da minha casa, como acordar bem cedo no domingo e tomar café na padaria. Foi então que lembrei da usp. Lá há espaço e vegetação. Os prédios são razoavelmente afastados uns dos outros (não gosto nada da ocupação recente que se tem feito da universidade: continuam a construir prédios. Pode chegar o dia em que aquele espaço mais vazio se integre no mar de prédios da cidade).
Na usp, gosto de sentar no chão e desviar os olhos um pouco do plano horizontal, onde eu encontraria os olhos das pessoas, para ver as árvores. Observo também os cachorros andando sós ou em grupos pequenos. Tenho a impressão de uma totalidade. É possível ver espaços amplos, seguir com os olhos o percurso de alguém, sem ser interrompido por carros, outras pessoas ou recortes da cidade provocados pela quantidade de prédios. A cidade cheia vive do fragmento, perde a continuidade.
Perde também a profundidade. A experiência é uma sucessão de flashes recortados pelos muros e pela pressa. Penso também nas relações pessoais. É possível passar anos em São Paulo sem que sua existência seja notada. Muitos dos encontros são baseados em desfazer um nó burocrático, em resolver um problema. Os envolvidos no evento nunca mais se encontrarão. Há um desbalanço entre os ideais de compromisso e de liberdade. É possível viver sem aprofundar relações e pensamentos se se cumpre bem, anonimamente, uma função na máquina. É possível também evitar intimidades, que exigem compromissos, em função dessa possibilidade de viver o fragmento, uma noite e nada mais. Há uma liberdade que é tradução, às vezes, da ausência de vontade de insistir. A possibilidade de ser inconsequente aumenta, neste ponto de vista, em espaços assim grandes e cheios de gente, porque você dobra uma ou duas esquinas e fica anônimo. Pode-se viver, então, sem raízes e sem história, desde que com uma aparência agradável, o que permite sua integração no novo fragmento-lugar.
A Rua Augusta
Mas a usp não é exatamente a cidade, me disse a Martha. Não acho que a usp esteja mais fora da cidade que a Daslu ou o prédio do Banco Safra, na Paulista, ou o Zoológico, mas entendo a restrição. Passei então a procurar um lugar que me fosse agradável e que não fosse simplesmente a negação da cidade cheia, fragmentada e com pressa.
Na Rua Augusta, a poucas quadras da Paulista, para o lado do centro, saio de um bar e entro em outro, vou ao cinema para usar o banheiro, à Lan House para olhar os e-mails e matar uns minutos de ansiedade, volto ao cinema, ao bar, passo pela livraria. A imensidão de São Paulo parece às vezes uma pracinha. Com frequencia, ali, encontro conhecidos. Estar em trânsito me serve de desculpa, caso necessite, para deixá-los. A conversa pode ser desculpa para ficar. Paradoxalmente, lá sou eu querendo o anonimato, mais a liberdade que o compromisso. A liberdade parece agradável quando você é quem discorda, quando quem é abandonado é o outro e não você.
Muitos dos meus amigos estão indo para a Europa, passar meses ou anos, alguns foram e voltaram, alguns não voltaram mais. Com um pouco de dinheiro, mudar de bairro em São Paulo para se tornar anônimo, fazer um curso de idiomas para conhecer gente, não é muito diferente de fazer um mestrado em Paris. O anonimato da cidade, a facilidade de zerar e viver um personagem novo uma noite, se você quiser, tem parentesco com a vontade que tantas pessoas próximas têm de ir embora. Eles foram e eu fiquei. A sensação, nos momentos em que o pensamento corre cínico, é que não há diferença entre estas amizades, a intimidade, o companheirismo duradouro e o vizinho no balcão do bar. Não consigo entender a motivação de quem deixa um país para ser anônimo em outro, embora entenda o que leva alguém a ir, anônimo, dançar ou beber ou caminhar no meio da multidão, na Rua Augusta. Deve ser às vezes vontade de fugir.
Um agradecimento aos amigos que ficam, ao chão firme criado pela permanência.
A ponte estaiada
A Augusta é São Paulo vivendo, sem monumentos, sem o espetáculo monolítico. A Augusta vive as tensões das relações humanas em vez de as apaziguar em um símbolo. Gosto às vezes do grandioso, mas acho horrível a ponte estaiada na Marginal Pinheiros. Ela pede demais para ser olhada, não deixa que se olhe para outro lugar, faz esquecer o resto da cidade. E das pessoas. Embaça o horizonte. Quem gosta dela, gosta porque é enorme e porque ela esconde a dificuldade de conviver. Ela não convive com a cidade, ela não vê a cidade.
Quem gosta dela, gosta do espetáculo devidamente dedetizado, quer o incomensurável porque não suporta os interstícios da delicadeza e das tensões cotidianas. Ela é a versão asséptica dos aviões batendo nas torres em Nova Iorque (as imagens dos aviões já eram a visão higienizada da morte em carne, sangue e carvão de três mil pessoas). O prazer do grandioso vem de uma (muitas vezes interessante) possibilidade de comunhão com os demônios. Mas a ponte é a comunhão fake, é como ir ao cinema para ver filme da Globo Filmes, passa no cinema mas parece televisão. É tomar o apêndice pelas vísceras.
Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br
Terra Magazine
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Santiago Escobar Jaramillo/Flickr/Reprodução
Monti: Na USP, tenho a impressão de uma totalidade, é possível ver espaços amplos
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