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Sexta, 12 de junho de 2009, 08h21

A tenda do beduíno

Reuters
O líder líbio Muammar Kadafi é recebido por Silvio Berlusconi na Itália
O líder líbio Muammar Kadafi é recebido por Silvio Berlusconi na Itália

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma

A primeira visita oficial à Itália do líder líbio Muammar Kadafi conseguiu transtornar, desde quarta-feira passada, a vida política italiana e a rotina cotidiana de Monteverde, um dos bairros mais tranquilos de Roma.

A repercussão política era de se esperar. Primeiro porque Kadafi veio para oficializar o acordo bilateral assinado por Itália e Líbia em agosto do ano passado, que define as indenizações por quase trinta anos de ocupação colonial italiana no país sahariano. Para desagravar a consciência, a Itália se compromete a financiar projetos que vão custar uns 200 milhões de dólares anuais, para cada ano de colonialismo fascista nas areias da Líbia. Quer dizer, por 25 anos os italianos vão pagar a sua aventura colonial muito mal sucedida.

O acordo assinado por Berlusconi e Kadafi foi noticiado com grande alarde na África, porque é a primeira iniciativa do gênero em todo o mundo. Já na Itália, o governo de direita tentou minimizar a coisa, bem sabendo que o seu eleitorado não gosta da idéia de dar dinheiro aos "beduinos" - para usar a expressão mais suave da longa lista de insultos racistas dedicados aos cidadãos norte-africanos por aqui.

A visita repercutiu também porque criou mais uma divisão na estraçalhada esquerda italiana. De um lado os realistas, chefiados pelo ex-primeiro ministro Massimo D'Alema, que defendem o direito de Kadafi de pronunciar um discurso no senado. Do outro, os defensores dos direitos humanos, que contam com a liderança de Walter Veltroni e Dario Franceschini, ex e atual chefes do Partido Democrata - de que D'Alema faz parte - que acham que o Kadafi não merece ser recebido com todas as honras no mais importante templo da democracia.

A esquerda da alta diplomacia internacional de um lado, e a esquerda das OnGs e da defesa dos imigrantes de outro. Porque Kadafi assinou outro acordo com os italianos, bem menos bacana do que o da indenização: o que prevê a repatriação dos imigrantes que zarpam em botes e barquinhos das praias líbias. Os repatriados são internados em campos que - segundo Anistia Internacional - nada ficam devendo ao modelo nazista.

Berlusconi - que se proclama amigão do Kadafi, mas que nunca se esquece da regra áurea do marketing político que manda não melindrar o eleitorado - não participou na recepção de chegada do líder líbio. Um torcicolo estratégico e oportuno resolveu o problema.

Enquanto escrevo, os céus de Monteverde estão repletos de helicópteros barulhentos. Porque além da repercussão política, tem também outro pequeno detalhe desta visita oficial: Kadafi, que não vive nem viaja sem a sua luxuosa tenda de beduino, plantou sua barraca nos jardins do parque da Villa Pamphili, bem aqui perto da minha casa. Por três dias, os residentes humanos e caninos de Monteverde não vão poder correr, passear, namorar e fazer xixi nos gramados e bosques da Villa, fechada ao público e cercada por francos-atiradores e pelo famoso time de mulheres guardas de corpo de Kadafi.

Hoje de manhã, nas feiras e ruas do bairro houve muito comício contra Kadafi. O mais indignado era o meu médico, que para quase todas as doenças - lombalgias, depressão, falta ou excesso de apetite, pressão baixa ou alta, etc. - recomenda um bom passeio na Villa Pamphili, às 7 horas da manhã. Mas a tenda do beduino, por três dias, vai atrapalhar a terapia.

Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br

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