Terra Magazine

 

Segunda, 15 de junho de 2009, 14h40

Um perdedor de cem anos

Tomás Eloy Martínez
Do The New York Times

Que o romancista uruguaio Juan Carlos Onetti faça 100 anos é uma redundância, porque já os tinha quando nasceu em Montevidéu no dia 1º de julho de 1909. Passava a maior parte do tempo na cama e a imobilidade centenária era a sua maneira de entender-se com o mundo.

Nos seus últimos anos recebeu todas as honras que de sobra havia merecido muito antes por uma obra narrativa áspera e desiludida como não há outra na América Latina. Era uma personalidade difícil de tratar, desdenhoso também com o que gostava, mal humorado e de uma timidez sem limites. Essas qualidades se refletem no "estilo crapuloso" que o escritor peruano Mario Vargas Llosa analisa no seu recente ensaio sobre Onetti, El viaje a la ficción (A viagem à ficção).

Vargas Llosa acha que essa escuridão, essa amálgama vertiginosa de histórias trágicas e excrescências do corpo, fracassos e humilhações, desesperados e exploradores é mais que uma veia narrativa.

"(É) um protesto contra a condição que, dentro da incomensurável diversidade humana, fazia dele uma pessoa particularmente para isso que, com metáfora feroz, se chama 'a luta pela vida"', comenta Vargas Llosa.

Ele próprio, Onetti, disse à escritora e jornalista uruguaia María Esther Gilio: "Todas as personagens e todas as pessoas nasceram para a derrota. A gente não pode deter a trajetória da personagem em um instante de triunfo mas, se continuarmos, o final é sempre Waterloo".

Talvez por isso chegou em segundo lugar em quase todos os prêmios aos quais concorreu. Mas o último, e o mais importante na língua espanhola, o prêmio Cervantes que recebeu em 1980, serviu-lhe como conjuro contra as rejeições.

Primeiro foi finalista do prêmio Farrar e Reinhart, de Nova Iorque, com o romance Tiempo de abrazar (Tempo de abraçar): Ganhou dele Ciro Alegría com El mundo es ancho y ajeno (O mundo é largo e alheio). Logo, o argentino Marco Denevi o derrotou no concurso Life em Espanhol: Seu conto Ceremonia secreta (Cerimônia secreta) se impôs sobre o extraordinário Jacob y el outro (Jacob e o outro), que inicialmente não havia ficado sequer entre os selecionados.

Algo curioso, dado que é fácil reconhecer ali a grandeza narrativa de Onetti: A história acontece na sua cidade mítica, Santa María, e várias marcas do seu estilo - a monotonia e a asfixia da vida cotidiana, a cruel exploração entre as pessoas - se sucedem. Aparentemente, sequer o notou o crítico uruguaio Emir Rodríguez Monegal, um dos jurados. Alguém deve ter advertido-o porque em uma decisão final Jacob y el outro foi acrescentado a uma lista de finalistas que o omitia na sua primeira versão.

Esse destino é uma ironia para alguém que, quando teve que julgar, o fez com uma arbitrariedade quase pueril. O vi castigar autores valiosos, entre eles o autor argentino Manuel Puig no concurso Primera Plana-Sudamericana, no qual foi jurado com a escritora argentina María Rosa Oliver e o escritor cubano Severo Sarduy. Havia consenso para premiar Boquitas pintadas (Boquinhas pintadas), que Puig apresentou com o título Tangos y boleros (Tangos e boleros), mas Onetti a rejeitou sem contemplações.

Em 1974, quando, junto com a escritora uruguaia Mercedes Rein e o crítico uruguaio Jorge Ruffinelli, concedeu o prêmio anual de narrativa da revista Marcha ao conto El guardaespaldas (O guarda-costas), do uruguaio Nelson Marra, exigiu que fosse esclarecida a decisão: "O jurado Juan Carlos Onetti faz constar que o conto ganhador, embora sendo inequivocamente o melhor, contém passagens de violência sexual desagradáveis e inúteis do ponto de vista literário".

A ditadura que dominava o Uruguai não se importou: Achou que o conto debochava de um delegado morto anos antes pela guerrilha Tupamaros e prendeu Onetti (com 66 anos nesse momento), Rein (doente de câncer), o autor Marra e o diretor de Marcha Carlos Quijano.

Sem o complemento habitual de uísque e cigarros, Onetti leu romances policiais durante a sua reclusão em uma cela e sua posterior transferência a um centro neuropsiquiátrico, graças à pressão internacional. A prisão tirou do sério, mais de uma vez, este autor de tantas personagens suicidas e, quando chegou à Espanha, meses depois, achava que tinha perdido tudo e que seu futuro seria um marasmo.

"De fato, já não me interessava a minha vida como escritor", disse ao receber o prêmio Cervantes.

Havia passado muito tempo sem escrever e só um ano antes do prêmio, em 1979, voltou a publicar: Dejemos hablar al viento (Deixemos o vento falar). Até a sua morte, no dia 30 de maio de 1994, nunca retornou ao Uruguai. José María Sanguinetti, o primeiro presidente da recém-recuperada democracia, levou a Madri o seu Grande Prêmio Nacional de Literatura.

Não foi mais amável com as mulheres. Casou-se quatro vezes, as duas primeiras com primas que eram irmãs entre si: María Amalia Onetti e María Julia Onetti. Quando se separou da terceira esposa, a jornalista holandesa Elizabeth María Pekelharing, se casou para sempre - os 40 anos de vida que lhe restavam - com a violinista argentina Dorotea Muhr. A frase com que lhe dedicou, em 1960, La cara de la desgracia (A cara da desgraça), foi para o leitor tão cruel e misteriosa quanto o próprio relato: "Para Dorotea (Dolly) Muhr, esse ignorado cão da felicidade". A enigmática declaração de amor ou compaixão ou cólera resumia os seus tortuosos vínculos com a realidade.

Raras vezes as histórias pessoais de um escritor servem para iluminar a sua obra. No caso de Onetti, as formas ácidas dos seus amores são, no entanto, o preciso complemento das mulheres estéreis, mutiladas ou humilhadas pela vida que desfilam em suas ficções implacáveis. Certas frases rápidas como chicotes definem essas relações. O verso final de um célebre poema do uruguaio Idea Vilariño - com o qual Onetti teve uma infeliz e longa história sentimental - é o eco das infinitas amarguras que compartilharam.

"Não te verei morrer", profetiza Idea. Não há pior condenação que essa no amor: viver dando as costas para a morte de alguém a quem alguma vez se deu tudo.

Quando, em julho de 1967, o Instituto de Cultura e Belas Artes da Venezuela, que estava a ponto de conceder pela primeira vez o prêmio Rómulo Gallegos, reuniu em Caracas cerca de 20 escritores e críticos latino-americanos, Onetti chegou cedo e trancou-se em um quarto do hotel Tampa. Deitou-se, negou-se a sair e não fez outra coisa a não ser escrever, beber uísque, fumar e ler romances policiais.

Dolly o amou como era: com sua boemia, sua inquietação, seus excessos galantes. Garantiu a Vargas Llosa que foi feliz ao seu lado. Agora empolga-lhe o fato de que o leiam mais. "Estas homenagens o trazem à vista pública", disse há duas semanas, quando inaugurou o Ano Onetti no Uruguai com a leitura de fragmentos de El pozo (O poço), o primeiro romance.

Conseguiu, de algum modo, reconciliá-lo com as suas origens: na cúpula do legendário Teatro Solís, ele aparece em uma foto, gigante, olhando a Montevidéu de suas infinitas derrotas.


Tomás Eloy Martínez é escritor e tem livros traduzidos em mais de 30 idiomas. É diretor do programa de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Rutgers. Artigo distribuido pelo The New York Times Syndicate.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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