Terra Magazine

› Terra Magazine › Política

Terça, 16 de junho de 2009, 07h53 Atualizada às 13h41

Rafael Gomes de Freitas. O príncipe Buiu

Rafael Sbarai/Reprodução
Chamado de pequeno príncipe na infância, Buiu tocava flauta e soltava lagostas nas noites insones
Chamado de "pequeno príncipe" na infância, Buiu tocava flauta e soltava lagostas nas noites insones

Claudio Leal

Terra Magazine publica ao longo desta semana a série "Brasil: guerra urbana" para mostrar as faces ignoradas da violência. Em 30 anos, foram mais de 1 milhão de homicídios registrados. As reportagens contarão as vidas esquecidas de dez brasileiros que não tiveram a chance de concluir desejos ínfimos. O extraordinário cotidiano de homens e mulheres comuns. Nesta terça-feira, 16, publicamos a segunda história. A de Rafael.

***

O meio-campista acarinha a bola, na postura de craque. Pequenucho, esse Rafael Gomes de Freitas chama o resto dos jogadores de "rapa". "Eu e Estrelinha contra a rapa", avisa. Cachos aloirados, o dono da bola tem as feições do "pequeno príncipe". Estrelinha, o chapa das divididas do futebol e da amizade, forma a tabelinha da primeira infância.

Aos dois anos, Rafael inventou de se apelidar de Buiu. Nome de jogador ofensivo? Sempre usava a camisa 9. Um dia a mecha do cabelo se assanhou e deram de rebatizá-lo: "Peninha". Ora, pois.

"Não sou Peninha. Eu sou o Buiu", resistiu.

Leia mais:
» Opine aqui sobre a situação da violência no Brasil
» Brasil: uma guerra urbana

Caçula de Cláudio Tadeu e Fátima, nasceu em 26 de dezembro de 1986. Criado em família com quedas musicais, do cancioneiro popular à ópera, Buiu aprendeu a tocar flauta, violão, baixo, guitarra, piano e cavaquinho. Numa apresentação escolar, vidrou no Quebra-nozes, de Tchaikovsky. Apreciava o rock menos pesado. "Rafael estava sempre com a bola no pé e o violão nas costas", relembra a mãe.

Em 2006, quando ainda mantinha um blog, anotou algumas músicas de sua trilha sonora: "With or Without You" (U2), "Desenho de Deus" (Armandinho), "Take Me Out" (Franz Ferdinand), "Boulevard of Broken Dreams" (Green Day), "How Peculiar" (Robbie Williams), "New York City Cops" (The Strokes).

Desde pequeno sofria de insônia. E levava as noites na flauta, depois de soltar no quarto as lagostas Pitty e Lilly. Isso antes da chegada do coelho Zacarias. Dureza era abrir os olhos na escola, ao cursar o turno matutino. De amargar o estudo do que lhe fosse imposto. Em casa, fazia a redação com o fone no ouvido e o caderno estabilizado pelas patas de uma cachorra.

As professoras não esquecerão de um hábito do aluno Rafael: possuía três pastas escolares para a segunda, a terça e a quarta. De uma só vez, arrumava os materiais destinados aos respectivos dias. Assim, driblava o fardo de ajeitar pela manhã o material escolar.

"Buiu, será que um dia você não vai trocar de mala?", interpelavam.

"Ah, aí, o que é que eu posso fazer?"

Bom paca era acompanhar o avô materno no sítio. Parceiros no videogame e no truco. Apreciava ouvir os mais velhos, calar enquanto as histórias antigas desfaziam o novelo de um mundo que não conheceu. Isso valia para os avós paternos e as tias-avós. Amava com intensidade os pais dos amigos. De lambujem passava o ar de "não cresci".


Foto tirada pelo amigo Rafael Sbarai, em 2003, no colégio Magno: "de pé: Vini, Saty, Farah, Andy, Turtles e Buiu; agachados: Lucas, Du e Celo

No colégio Magno, não seria mais o Buiu contra "a rapa". Adaptou-se à perfeição aos jogos coletivos. Companheiro de campeonatos de Futsal, o jornalista Rafael Sbarai rememora no blog "De repente" o xará "tranquilo, alegre e incentivador". Buiu aparece risonho no retrato que guardou de sua última partida.

Esse amor ao futebol determinou o passeio naquela madrugada de sábado, 30 de maio, no Jardim Marajoara, zona sul de São Paulo. Campeão de um torneio, ele saiu com os amigos Vinicius Mauri e Tiago Serpa para comemorar a vitória, num churrasco. Por volta das 4h, na rua Doutor Ferreira Lopes, foram abordados pelo motorista de um Corsa preto. Desejava saber se eles tinham visto o travesti que arrebentara o parabrisa do carro.

O desdobramento da abordagem noturna segue com uma nebulosa. Segundo testemunhas, o motorista deu a volta no quarteirão e jogou o carro contra os rapazes, que ensaiavam atravessar a rua. Rafael morreu na hora, aos 22 anos. Vinicius foi hospitalizado, com traumatismo craniano, em estado grave. Tiago ficou em choque depois de ter visto a morte do amigo. A polícia identificou como autor do atropelo o comerciante Paulo César Carneiro, de 19 anos. Câmeras de prédios filmaram a morte de Rafael. A tia, Elaine, viu e reviu as imagens do carro.

"A vida de Rafael era aquele pedaço, aquele bairro, aquela rua", relata a mãe de Buiu. "Quando você atropela uma pessoa, um cachorro, qualquer coisa, faz um tremendo de um barulho. Você para e vê o que aconteceu. Não contente, ele dá uma volta, olha para eles no chão e vai embora". A defesa de Paulo César, foragido da Justiça, alega que ele fugia de travestis no momento do atropelo. "Não sei o que passou pela cabeça desse rapaz", lamenta Fátima.

Mãe da namorada de Rafael, a decoradora Carla Melo soube da morte às 7h do sábado. Olhos carregados, transmitiu a notícia sem nada dizer. Assustada com a expressão da mãe, Karen começou a telefonar, em transe, para o namorado. Parou na sétima tentativa.

Mas a história renasce. No oitavo mês de gravidez, Karen terá um filho de Buiu. Os dois estudavam administração de empresas na universidade Anhembi Morumbi e namoravam havia dois anos. Nos últimos tempos, ele trabalhava numa editora de revista. Queriam morar juntos. Desde o princípio intuía que seria um garoto. "Mãe, você não me pôs numa escolinha de futebol, mas Luquinha agora vai ser um jogador", brincou o torcedor são-paulino, especulando o nome do rebento. Karen decidiu batizá-lo "Rafael". Reúne num álbum os retratos de Buiu.




Veja outras histórias:
» Edgar Soares de Paula. O segredo do ciclista
» Rafael Gomes de Freitas. O príncipe Buiu
» Rutbel Duenas Aranzabal. O estrangeiro
» Priscila Ramos. A guerreira do Jardim Arpoador
» José Francisco Fappi. A paixão do veterano
» Marcelo Barros. O garçom na noite fria
» Pablo Silva. Um coração simples
» Davi Damião. Os dengos do guarda civil

Terra Magazine

 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela