Terra Magazine

 

Quarta, 17 de junho de 2009, 08h25

Salvador e a máquina mercante

Emiliano José
De Salvador (BA)

A ti tocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado
A mim foi-me trocando, e tem trocado
Tanto negócio, e tanto negociante.

A fala de Gregório de Mattos, vinda da profundeza dos séculos, analisando a Salvador de então, cai como uma luva para a Cidade da Bahia de hoje. A mim foi-me trocando e tem trocado tanto negócio e tanto negociante...

Costumo dizer que a desordem tem método. Não comungo da idéia de que Salvador, neste momento, esteja fora de controle. Que as autoridades municipais, que o prefeito e seus auxiliares não sabem o que querem. Tenho certeza de que há plano em toda essa desordem, salvo um ou outro aspecto a revelar, também, muito descaso e incompetência. A evidenciar desprezo pela sorte do nosso povo.

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Às vezes, a chuva abunda, e o prefeito é internado. Salvador debaixo d'água e o alcaide com pressão alta. Natural. Dos acidentes da vida e da natureza. Pressão alta e chuvas.

Mas não se trata de acidente uma cidade tão despreparada para enfrentar chuvas. Ela encontra-se assim por conta de políticas públicas voltadas tão-somente para atender às classes endinheiradas, embora mesmo estas sejam prejudicadas por tais políticas. Triste Bahia! Oh quão dessemelhante...

Como parte da tragédia da Cidade da Bahia, todos falam do metrô. Uma década perdida. E o metrô não sai. Um festival de erros, alguns tragicômicos, largamente denunciados tornou o metrô de Salvador, metrô calça-curta como chamam alguns, uma espécie de espectro. Algo fantasmagórico, a denunciar gestões que se sucedem, incapazes de colocá-lo em funcionamento. Cimento armado apenas, um metrô fora dos trilhos. Um impressionante desperdício de dinheiro público.

Mas, este é apenas um dos aspectos da tragédia vivida por Salvador. O governante anterior e o atual não souberam captar as mudanças que a Cidade da Bahia começava a experimentar já havia algum tempo. O poder público haveria de compreender um movimento rápido que redundava na criação de um novo centro comercial, que levava a cidade para a Paralela, para o Litoral Norte, movimento que reclamava ações do poder público, que disciplinasse tudo isso.

E que olhasse para o miolo da cidade, para suas periferias, para onde vive a maioria, que reclama políticas públicas elementares - educação, saúde, saneamento, cultura, contenção de encostas. Para esse contingente humano, abandono, desprezo. E uma impressionante explosão habitacional na chamada área de expansão, a Paralela, com a conseqüente destruição de boa parte da área verde que ainda existia na região. Tanto negócio e tanto negociante...

Nem se diga, porque impróprio, que se pretenda demonizar os empresários do setor imobiliário. Eles não são os formuladores das políticas públicas. Não deveriam ser. Obedecem o que lhes determinam as autoridades. A questão está na política. Não há desordem em Salvador. Há uma ordem, uma diretriz - política - emanada do poder municipal. O prefeito e seus auxiliares sabem o que querem. Defendem uma política. Não há inocência. A ti tocou-te a máquina mercante, que em tua larga barra tem entrado...

Nos dias 28 e 29 de maio deste ano, um seminário promovido pelo Fórum A cidade Também é Nossa e pelo Movimento Vozes de Salvador apontou a "natureza inepta e perversa dos dispositivos do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) no tocante à Orla Atlântica": despreocupação com a defesa do patrimônio ambiental, paisagístico e histórico-cultural, atenção exclusiva das grandes imobiliárias, desconsideração com os aspectos sociais, omissão diante do severo impacto da verticalização, permitida sem maiores estudos. Triste, triste Bahia...

A atitude da Prefeitura de declarar de utilidade pública uma área de 324 mil metros quadrados da orla da Baía de Todos os Santos, entre o Forte de Mont Serrat e o Colégio Landulfo Alves, na Jequitaia, foi revelada por Terra Magazine, em maio deste ano, numa entrevista do secretário de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente de Salvador, Antonio Abreu. A faixa de terra da orla da Cidade Baixa de Salvador possui prédios tombados pelo patrimônio histórico e uma extensa faixa de casario, como lembravam Bob Fernandes e Claudio Leal. Triste Bahia! Oh quão dessemelhante...

A entrevista do secretário é reveladora não apenas pelo fato que anuncia, mas, sobretudo pela definição da política municipal, pela orientação, digamos, filosófica da atual administração. Se tal entrevista pode nos remeter a Gregório de Mattos, pode, também, nos levar a Walter Benjamin, que associava progresso e barbárie, tal e qual ocorre hoje em Salvador, e que também buscava no passado os elementos que podiam promover a redenção do presente, o avesso do que acontece hoje na Cidade da Bahia.

O secretário tem um mérito: não fez rodeios, não tergiversou. Desnudou qual a política para Salvador, que vem sendo aplicada com rigor pelo prefeito João Henrique: apagar os vestígios da história, sepultar as marcas do passado, sepultar a herança cultural acumulada ao longo dos séculos, acantonar os excluídos em áreas delimitadas, abrir espaço para os novos senhores da terra urbana.

Quando ele fala em demolir a fábrica do industrial Luiz Tarquínio (1844-1903), com tudo que ela representa, sintetiza a concepção que a atual administração tem em relação à cidade, passado, presente e futuro. Até o momento, não ficaram totalmente claras as razões da declaração de utilidade pública de tão extensa faixa de terra, mas, inegavelmente, a entrevista do secretário deixou o rei nu.

O secretário chega a dizer que um campo de futebol, em Mont Serrat, é mais importante que a fábrica histórica. Talvez a síntese do que o secretário quis dizer, com tudo que falou, esteja numa frase muito comum, senso comum, mas elucidativa. Ao se ver diante da crítica por não ter aberto o projeto de declaração de utilidade pública para uma discussão mais ampla com a sociedade civil, ele saiu-se com esta:

- Determinadas coisas são assim: corra na frente antes que alguém pegue.

É um pega-pega, um corre-corre, um salve-se quem puder. Quem tem força, pegue. Quem não tem, que se dane. E já se sabe, nesse jogo, quem perde: o povo, a população mais pobre.

Depois disso, só Gregório de Mattos: Triste Bahia! Ou a reação do povo. Ou o apelo de Bob Fernandes e Claudio Leal: Que Deus nos ajude...

Ou que Salvador se levante!


Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA). Site: www.emilianojose.com.br.

Fale com Emiliano José: dep.emilianojose@camara.gov.br

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Poemas satíricos de Gregório de Mattos continuam atuais na desordem e nos desmandos da prefeitura de Salvador, avalia deputado Emiliano José

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