
Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)
"Era tarde da noite quando K. chegou. A aldeia jazia na neve profunda. Da encosta não se via nada, névoa e escuridão a cercavam, nem mesmo o clarão mais fraco indicava o grande castelo. K. permaneceu longo tempo sobre a ponte de madeira que levava da estrada à aldeia e ergueu o olhar para o aparente vazio".
Dessa forma supostamente simples, parecendo uma narrativa convencional, começa O Castelo, romance escrito por Kafka em cerca de seis meses, de fins de fevereiro a começo de setembro de 1922. Narrado em primeira pessoa nas quarenta e seis páginas iniciais, só a partir desse ponto passa para a terceira pessoa. Mais tarde o autor reescreverá o começo do livro também na terceira pessoa. Esse impasse tem que ver com o que anotou Modesto Carone: aquele que narra, em Kafka, não sabe nada, ou quase nada, sobre o que de fato acontece - do mesmo modo, portanto, que o personagem. O narrador, como o personagem K., não tem chances de explicar o que se passa no mundo claro que a neve recobre do lado de fora nem nos interiores escuros em que as formas se ocultam.
Após o olhar momentâneo sobre a paisagem, K. encontra um albergue e é recebido com extrema surpresa e perturbação pelo dono, que não tem quarto vago nem espera um hóspede àquela hora. Hans, como será identificado depois, propõe que ele durma na sala sobre um saco de palha, onde alguns camponeses retardatários ainda bebem cerveja. O cômodo está quente e K. não demora a adormecer. O descanso dura bem pouco, pois um jovem que se apresenta como filho do castelão o desperta. Ele se desculpa por acordá-lo, informa que a aldeia é propriedade do castelo e quem fica ou pernoita no albergue de certa forma fica ou pernoita no castelo. Portanto, isso só poderá ser feito com permissão do conde. O rapaz, descrito como tendo um rosto de ator, argumenta que K. não possui essa permissão ou pelo menos não a apresentou ainda. Sem preâmbulos, o romance se arma já nas primeiras páginas. E seu arcabouço é o de um texto teatral semelhante aos de Samuel Beckett, autor que certamente leu e foi marcado por Kafka. Para surpresa dos camponeses, K. se apresenta como o agrimensor que veio contratado pelo castelo. O malentendido se desfaz em parte, mas fica claro que a presença de K. não é desejada por nenhuma das pessoas com quem esbarra ao longo da trama absurda do romance e que todos preferem que ele não esteja ali, embora não revelem os motivos da recusa à sua presença.
Seguem-se investidas de K. para alcançar o castelo, que se delineia ao longe. Todos desdenham do intento impossível. Apenas a ignorância que o agrimensor possui da realidade explica o seu atrevimento. Após uma infrutífera viagem pela neve, sem conseguir aproximar-se do seu objetivo, exausto K. pede ajuda a um idoso desconhecido que o observa de uma janela. Este velho olha o estrangeiro sem hostilidade, interessado apenas que tudo esteja em ordem na rua em frente à sua casa, que nada de extraordinário altere a absurda normalidade do mundo que o circunda. O terror dos que vivem à sombra do castelo e o medo de sequer mencioná-lo, bem como a ausência de qualquer movimento para alcançá-lo, ficam patentes no diálogo entre K e o velho Gerstäcker:
"- Se quiser posso levá-lo no meu trenó.
- Faça-me esse favor - disse K. muito satisfeito. - Quanto quer por isso?
- Nada - disse o homem.
K. ficou muito admirado.
- O senhor é o agrimensor - explicou o homem - e pertence ao castelo. Aonde quer ir?
- Ao castelo - respondeu K. rápido.
- Então eu não vou - disse o homem imediatamente.
- Mas eu pertenço ao castelo - disse K. repetindo as próprias palavras do homem.
- Pode ser - disse o homem num tom de recusa.
- Então me leve até o albergue - disse K.
- Está bem - disse o homem. - Saio já com o trenó."
O agrimensor K. é teimoso, não desiste de transpor muralhas e chegar aonde ninguém parece ter estado antes. Em meio à neve branca que paralisa os movimentos de K., as sombras vistas de longe se revelam de perto um amontoado de casas de uma vila pobre e feia, pondo em dúvida a existência real do edifício sede do castelo, um mundo inexplicável que foge à compreensão e causa espanto.
No desenrolar do romance tomamos conhecimento da existência de duas hospedarias, o Albergue da Ponte e a Hospedaria dos Senhores, lugares onde o protagonista K. vive a absurda situação de ser recebido e repelido ao mesmo tempo, sem maiores explicações. Entre as inúmeras interpretações feitas de O Castelo existe uma que vê na história de K. a situação do judaísmo e o seu esforço objetivo de ser aceito pelo mundo não-judeu. Mas também há quem amplie esse ponto de vista para a condição humana em si mesma, em que os judeus seriam "como um traço de união com os problemas mais fundos e árduos do universo".
Uma carta de assinatura ilegível, mas com o impresso "Chefe da repartição X", chega às mãos de K. através de um mensageiro identificado com o nome Barnabás. O jovem possui feições diferenciadas, é gentil e alegre, contrasta com os camponeses feios e miseráveis, sempre curiosos e amontoados, bisbilhotando como se nada tivessem o que fazer, e que são tratados a chicote como a pior escória. Barnabás é um emissário de Klamm, um senhor do castelo, ou simplesmente um chefe da repartição X. A carta de assinatura duvidosa certifica que K. foi admitido nos serviços administrativos do conde e que seu superior imediato é o prefeito da aldeia. Mesmo estando sob as ordens do prefeito, Klamm informa que não perderá o agrimensor de vista e, por sua vez, poderá ser encontrado sempre que possível, o que se revelará mais um intento inalcançável no mundo kafkiano de O castelo.
Somente na entrevista com o prefeito revelam-se as circunstâncias que trouxeram K. até ali, embora a autoridade afirme não haver a menor necessidade de um agrimensor naquelas terras. Sofrendo de gota, o homem gordo que também nunca esteve no castelo, embora se ocupe de sua administração, recebe o perplexo K. num quarto escuro, de janelas pequenas, estranhando a demora em ter sido procurado. Tenta explicar como aconteceu uma contratação desnecessária e equivocada, numa administração tão grande como a do conde, em que às vezes uma repartição determina isto, a outra aquilo, nenhuma sabe da outra e sendo assim pode surgir uma pequena confusão. O prefeito fala da complexa trama de encaminhamentos de processos entre os departamentos do castelo, mesmo para uma questão simples, gerando erros nos envios de petições, atrasos, arquivamentos, até a solução absurda de contratar serviços sem a menor necessidade deles, apenas para ajustar os vários equívocos burocráticos do processo. O diálogo entre K. e o prefeito é uma síntese do universo kafkiano, reforça o ponto de vista de Günther Anders de que Kafka era um realista que enxergava "um mundo do poder total e totalitariamente institucionalizado". Ou seja, como um profeta visionário Kafka anteviu a automação humana e transformação do homem num joguete burocrático de sistemas como o fascismo, o comunismo e o capitalismo.
Um dos diálogos da entrevista entre K e o prefeito ilustram o absurdo desse mundo de que trata O castelo.
"- Mas essa história não o aborrece?
- Não - disse K. - Ela me entretém.
Ao que o prefeito replicou:
- Eu a conto ao senhor só para entretê-lo.
- Ela me entretém apenas pelo fato - disse K. - de que me oferece uma percepção da ridícula embrulhada que, conforme as circunstâncias, decide sobre a existência de uma pessoa."
Tais circunstâncias se repetem de forma obsessiva e absurda em todo o relato de O Castelo, da primeira à última página. Nada acontece segundo uma lógica habitual. No entanto, a lógica que se revela e que nos escapava até então, apesar de todos os seus absurdos, parece única, verdadeira e real. Como se Kafka descascasse as mentiras que nos cercam, deixando exposta uma realidade sem nenhum encantamento, nenhuma chance de romantismo ou afeto. As metáforas são abolidas, as descrições poéticas de cenários e objetos não existem, sentimentos de compaixão desaparecem. Tudo funciona nesse mundo de O Castelo dentro de uma ordem de poder esmagadora, uma burocracia paralisante que torna a ação individual impossível, não por conta de uma força trágica e divina, mas pela perversidade de sistemas inventados pelo próprio homem e que o impedem de algum dia alcançar a verdade.
Atravessamos com um frio no estômago as páginas do livro, angustiados com o esforço de K. em romper a ordem aceita por todos os que vivem em torno do castelo, que não a questionam nem tentam desfazê-la. K. argumenta com as pessoas, mas elas não o compreendem. Dizem-lhe que interpreta tudo erradamente, até mesmo o silêncio, mas que também não pode agir de outro modo porque lhe escapa o funcionamento do castelo.
Apesar de inúmeras tentativas, ele nunca consegue alcançar as altas esferas do Castelo. Isso se torna cada dia mais difícil, mais do que ele pensava: "Na verdade até agora não conversei diretamente com nenhum funcionário real. Isso parece ser mais difícil de alcançar do que eu acreditava" - confessa desiludido.
Mesmo já citada a carta do senhor Klamm possui um significado duvidoso. Ela nada atesta sobre a importância de K., sobre a necessidade de seus serviços. Ninguém valida sua existência, a não ser ele mesmo. Nada significa o seu trabalho de agrimensor num castelo em que não existem questões fundiárias. Ele chegou ali apenas porque algum dia, em alguma das incontáveis repartições do castelo, houve um despacho atestando ser necessária a contratação de um agrimensor. Apenas isso. Por um despacho involuntário criou-se a função para um homem. E ele passa a viver motivado por essa função. Ela é o seu meio de sobrevivência, o significado de sua vida.
Sobram equívocos nesse estranho mundo de O castelo. O romance finda como se não findasse, numa premonição de tempos futuros ruins, que se prolongarão eternamente, pairando sobre sociedades que aboliram a noção de sagrado e nas quais o homem se encontra sozinho... "era preciso se esforçar para entendê-la".
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