
Atualizada às 13h32 Thais Bilenky
Terra Magazine publica ao longo desta semana a série "Brasil: guerra urbana" para mostrar as faces ignoradas da violência. Em 30 anos, foram mais de 1 milhão de homicídios registrados. As reportagens contarão as vidas esquecidas de dez brasileiros que não tiveram a chance de concluir desejos ínfimos. O extraordinário cotidiano de homens e mulheres comuns. Nesta quarta-feira, 17, publicamos a terceira história. A de Rutbel.
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A começar pelo nome, as lacunas rondam a história de um imigrante numa megalópole como São Paulo, com cerca de 20 milhões de habitantes. Comerciante de artesanato há dez anos, no Brasil, o peruano Rutbel Duenas Aranzabal, 44, foi morto a tiros em frente a sua casa na Barra Funda, zona oeste da capital paulista, em 28 de abril de 2009. Esse deveria ser o fim de um relato. Inconclusiva, a morte de Rutbel oferece vestígios de uma vida em que nem todas as peças se encaixam.
Dois de seus cinco irmãos moram em São Paulo, no mesmo ramo do comércio: Fred e Ramiro. Ambos são reticentes sobre Rutbel, a quem se referem como Roosevelt. Em comum, somente o "R" inicial. Rutbel é o nome registrado no Boletim de Ocorrência do 2º DP, na noite do crime.
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Fred e Ramiro afirmam desconhecer praticamente tudo sobre a vida do irmão morto. Ignoram o nome e as feições de sua mulher brasileira, com quem o peruano teve um filho, Felipe. Para Fred, Rutbel era separado, ao contrário do que diz o BO. A idade de Felipe, estimam em 3 anos.
"Estamos vivendo uma situação sentimental", relata Ramiro, com um português bem alinhavado. Mas recontar a história de Rutbel "não tem importância, já morreu, não tem interesse para ninguém. Ele não vai voltar à vida", argumenta.
Rutbel, ou Roosevelt, é um vago reflexo nos olhos da família.
O irmão Jaime mora em Lima, capital do Peru, desde os tempos em que, junto com o hermano, saiu de Cuzco, onde nasceram. Foi ele quem recebeu o corpo do irmão e o transferiu para a cidade natal. Enterrado sob a guarda da mãe.
De Lima, Jaime fala com cores mais carnais. "Personalidade séria", Rutbel - também para ele Roosevelt - ficou na memória como um homem correto, mas divertido; fechado, mas alegre; "uma pessoa muito inteligente".
Ex-policial, Rutbel trabalhou no serviço secreto do Peru. Em 1992, sofreu um atentado. Folgou um ano de repouso ao lado dos pais, em Cuzco, para se recuperar. Depois desse choque, não retomou a profissão.
Ser policial era um destino, um sacerdócio familiar. Queria seguir a tradição dos antepassados militares. Inquieto, deixou a casa materna aos 17 anos, para ingressar na polícia de Lima. Ainda era pouco para as aspirações do aluno que se destacava no colégio. Prestou vestibular e passou em Economia na Universidade Católica, segundo Fred.
Fred, dois anos mais novo que Rutbel, reconhece laconicamente que o irmão exercia autoridade. "Estava à frente dos pais, dos irmãos, dos tios, sempre que havia algum problema", garante. Ele não consegue se recordar de uma história capaz de iluminar a personalidade do irmão. Jaime e Ramiro afinam: Rutbel, mesmo quando vendedor da rua 25 de Março em São Paulo, preservava a disciplina militar do passado.
Atlético, o peruano gostava de correr. Era corintiano e frequentava o clube do time nos finais de semana. Apreciava a comida brasileira e, não apenas por isso, não pretendia retornar ao Peru. Desprezava o rock - música era para animar o corpo por inteiro: salsa, rumba, samba e canções do folclore peruano.
Além de Felipe, Rutbel deixou três filhos no país de origem. Os irmãos não se lembram dos nomes das duas meninas, apenas do garoto: Roosevelt, como o pai.
As investigações sobre a morte de Duenas Aranzabal estão em andamento no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Sabe-se, pelo registrado no BO, que a vítima recebeu um telefonema por volta das 22h em sua casa, em 28 de abril. Instantes depois, foi para a rua com o bolso repleto de dinheiro.
Um homem disparou cinco tiros contra Rutbel, que morreu no local. Entre os esmaecidos detalhes, consta que o assassino se aproximou do corpo, levou algum pertence e fugiu. Suspeita-se de latrocínio, mas a polícia trabalha com todas as hipóteses. Uma fotografia do comerciante foi solicitada à família, no Peru. Apesar das promessas, não veio nenhuma imagem de Rutbel, Roosevelt, um estrangeiro.
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