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Quinta, 18 de junho de 2009, 09h32 Atualizada às 13h33

Priscila Ramos. A guerreira do Jardim Arpoador

Diego Salmen

Terra Magazine publica ao longo desta semana a série "Brasil: guerra urbana" para mostrar as faces ignoradas da violência. Em 30 anos, foram mais de 1 milhão de homicídios registrados. As reportagens contarão as vidas esquecidas de dez brasileiros que não tiveram a chance de concluir desejos ínfimos. O extraordinário cotidiano de homens e mulheres comuns. Nesta quinta-feira, 18, publicamos a quarta história. A de Priscila.

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Priscila nunca havia se apaixonado. Office-girl, atendente do Mc'Donalds, recepcionista, Priscila Tavares Ramos juntava grana para trabalhar nos Estados Unidos. Vez ou outra um amor serpenteava, com arrepios - mas, a sério, não. Em 2007, conseguiu entrar num programa de intercâmbio au-pair. A garota do Jardim Arpoador, olhos de mel, enganava o destino: tornou-se babá de três crianças em Chicago.

Um ano e dois meses depois, ela volta para casa, afiada no inglês, a língua que estuda desde os 14 anos. Aos 23, professora e secretária bilíngue. Queria sair da periferia, um sonho de pequena. Cursava o primeiro semestre de Direito, na Universidade São Judas.

Por excesso de trabalho, a professora de inglês nunca havia engatilhado um namoro além do portão. O agente penitenciário Carlos Eduardo da Silva Braga, 29 anos, dobrou a mina. Presença constante, galanteios, ensaio de romance maduro.

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O casal se conheceu em uma festa no ano passado. Priscila era amiga da irmã de Braga. A família não simpatizou com o pretendente da caçula. "O santo não bateu", relata a irmã, Alessandra Ramos. O amor pleno de desconfianças se completaria na noite de 6 de março. Após uma discussão, Carlos Eduardo matou Priscila com 28 facadas. O namorado assumiu o crime, sob o argumento de embriaguez.

A noite de março encerrou um conto de superação suburbana. "Era muito determinada e guerreira", conta Alessandra, 34. Exímia dançarina de forró, Priscila gostava de ir com as amigas ao Canto da Ema e ao KVA, além de bares na Vila Madalena e no Butantã. Tinha o "infeliz hábito" de fumar e beber cerveja - para ela, "breja era tudo", brinca Alessandra.

Musicalmente eclética. Fã da cantora Ana Carolina, suas preferências iam do rock à MPB, de Chico Buarque a The Doors, passando por Tim Maia e Nirvana. Na adolescência grunge, não saía de casa sem os trajes pretos. Mais recentemente, passou a acompanhar os seriados Friends e Smallville. Trouxe vários dos EUA.

Apesar das dificuldades financeiras, teve uma infância rósea no Jardim Arpoador, bairro da periferia oeste de São Paulo. Quem a conheceu resume: "Ela não precisava de muitos brinquedos pra se divertir."


A pequena Priscila

O colégio registra a passagem de uma aluna aplicada. Ariel Komatsu, 23, estudou com Priscila numa escola pública do bairro. "Ela brigava com a gente quando tirávamos notas baixas. Na faculdade, ligava todo dia cobrando, perguntando se eu estava tirando boas notas".

As duas amigas protagonizaram alguns bons momentos. E outros, digamos... Certo dia, foram a uma lanchonete na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Ao sair, um dos integrantes do grupo pisou num cocô. Os risos de Priscila, na viagem de volta, com a janela do carro aberta, ainda fazem eco. E "eca".

Noutra ocasião, Priscila foi recebida com uma festa supresa, no retorno dos Estados Unidos. Emocionou-se logo ao ver a lona preta na garagem da casa de Ariel. "Era uma pessoa muito engraçada, que ouvia e brigava sempre que precisava", lembra a amiga. "Era a mãe da turma".

Em casa, a relação não era menos carinhosa. Se houve uma 29ª facada, esta foi contra a família Ramos.

O irmão mais velho, Ricardo, 29, faz uma terapia para superar a morte de Priscila. E da própria mãe: "Dona Maria" sofreu um infarto em 9 de junho, pouco mais de dois meses após o assassinato da filha. "Morreu de tristeza", nas palavras da irmã. Luis Carlos, o pai, se recupera de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) desde 2008.


Nos Estados Unidos

A morte prematura de Priscila impediu a concretização do casamento com o próprio algoz. Pensavam em se casar no final do ano. O agente penitenciário está preso e aguarda julgamento.

"Ninguém gostava dele", afirma a amiga Ariel. "Ele era o galinha que a queria debaixo de suas asas".

Apesar dos inúmeros planos, a professora de inglês não queria ter filhos, por temer a ausência de tempo. "Vou curtir a Mariana como se fosse minha filha", disse uma vez. Intuição de Alessandra, a mãe de Mariana: "Não sei se, no íntimo, ela sabia que iria viver pouco. Mas não sabia esperar."




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Reprodução
Priscila Tavares Ramos: um sonho interrompido

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