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Quinta, 18 de junho de 2009, 08h05

A mesquita virtual

Thomas L. Friedman
Dos Estados Unidos

Assistir aos desdobramentos no Teerã me levou a três perguntas: Será que o Facebook foi para a Revolução Moderada do Irã o que a mesquita foi para a Revolução Islâmica iraniana? Seria o Twitter para os iranianos moderados o que os muezins eram para os mulás iranianos? E, finalmente, isso representa alguma coisa positiva para os judeus - especialmente para o primeiro-ministro de Israel, Bibi Netanyahu?

Eu pergunto isso pelo seguinte: nos últimos oito anos no Iraque, Líbano, nos territórios palestinos e, com menos intensidade, no Egito, houve mais espaço para eleições democráticas. O que é uma boa notícia. Infelizmente, os grupos que tiveram o apoio e a mobilização popular - e os defensores mais enérgicos - para tirar vantagem desse novo espaço foram os islamitas. Ou seja, o Hezbolah no Líbano, o Hamas em Gaza e na Cisjordânia e vários partidos sunni e xiitas no Iraque, além da Irmandade Muçulmana no Egito. A opinião centralizada não se encontrava em lugar algum.

Uma das maiores razões pelas quais os islamitas conseguiram se organizar, mobilizar e se preparar para quando suas sociedades se tornassem um pouco mais maleáveis, é porque eles tinham a mesquita - um lugar para se encontrar, educar e inspirar seus seguidores - totalmente à parte do estado.

Em quase todos esses casos, os islamitas foram longe demais. No Líbano, o Hezbolah levou o país a uma guerra desastrosa. O mesmo fez o Hamas em Gaza. Os islamitas sunni e xiitas no Iraque tentaram impor um modo de vida religioso às comunidades e os mulás do Irã censuraram os reformistas. No ano passado, no entanto, as autoridades linha-dura nesses países receberam o troco das maiorias centristas, que detestam grupos islamitas.

O Hezbolah foi derrotado nas eleições libanesas. O Hamas está tendo de encarar um Fatah fortalecido na Cisjordânia e perde cada vez mais popularidade em Gaza. Os sunnis iraquianos eliminaram os jihadistas graças ao movimento tribal Despertar, enquanto que o maior partido pró-iraniano no Iraque foi derrotado nas recentes eleições distritais.

E no Irã, milhões de iranianos sedentos por liberdade apoiaram publicamente o candidato Mir Hussein Moussavi, forçando o presidente Mahmoud Ahmadinejad a roubar as eleições. (Se ele realmente ganhou a eleição iraniana por uma margem de dois por um, como ele mesmo diz ter feito, será que ele não pediria uma recontagem de votos para se vangloriar ao mundo inteiro? Por que ele não fez isso?) O que é fascinante para mim é a quantidade de tecnologias utilizadas no Irã e no Líbano pelas forças mais seculares de moderação, como o Facebook, Flickr, Twitter, Blogger e as mensagens de texto, como sua mesquita virtual, como o lugar em que eles podem se reunir, se mobilizar, planejar, informar e fortalecer seus simpatizantes, fora do crivo do estado.

Pela primeira vez, os moderados - sempre perdidos entre os regimes autoritários, com plenos poderes sob o estado, e os islamitas, que tinham plenos poderes na mesquita - agora têm seu lugar para se encontrar e projetar seu poder: a internet. O New York Times relatou que o grupo de fãs de Moussavi só no Facebook chegou a 50.000 membros. Esse número certamente não caberia numa mesquita - uma das razões pelas quais o governo tenta bloquear esses sites.

Mas enquanto essas tecnologias colocam os moderados em pé de igualdade com os islamitas no que diz respeito à capacidade de comunicação, ainda não é hora de festejar. Primeiro porque "moderados" é um termo relativo. O primeiro-ministro do Iraque, Nouri Kamal al-Maliki, embora mais secular e nacionalista do que os islamitas iraquianos, quer centralizar o poder e solidificar seu grupo Dawa como o partido do governo.

Segundo, mesmo que sejam derrotados na eleição, os islamitas e seus regimes possuem um curinga: armas. As armas são mais poderosas que telefones celulares. Uma bala fere mais do que a mensagem postada no Twitter. O movimento sunni Despertar, do Iraque, teve sucesso porque os moderados lá são armados. Duvido que Ahmadinejad se renda pacificamente.

O que me leva a Netanyahu. Israel foi pego de surpresa pelos eventos no Líbano e no Irã. Os oficiais israelenses começaram a dizer que preferiam muito mais que Ahmadinejad ganhasse no Irã - não que os israelenses prefiram a ele, mas porque eles acreditam que ele e sua postura covarde e anti-semita refletem a personalidade imutável e verdadeira do regime iraniano. Os israelenses temem que os moderados tomem o poder e não causem verdadeiras mudanças no Irã, ou em suas ambições nucleares, mas apenas ajudem a disfarçá-las melhor.

Mas há sinais, ainda que fracos, de que outra tendência esteja se formando na região. O regime iraniano parece estar se dividindo no topo. Isso pode ameaçar o plano de segurança de Netanyahu. Israel não pode ser seduzida e nem ficar indiferente a esses sinais. A nação precisa estar aberta a eles e deve entender que sua relação com os palestinos e os assentamentos pode ajudar essas tendências - ainda que de forma indireta. Mas muito pode começar de forma indireta.

"A ascensão dessas forças moderadas, se forem reais e sustentadas, terão uma maior contribuição a longo prazo para a segurança nacional de Israel", disse Gidi Grinstein, presidente do Instituto Reut, um think tank. "Se algumas dessas forças moderadas começassem a convergir, então o panorama da segurança em Israel mudaria radicalmente." É muito cedo para saber, ele disse, "mas Israel precisa ser um organismo vivo neste processo e não simplesmente depender da sua estrutura antiga."

Thomas L. Friedman é colunista do jornal The New York Times desde 1981. Foi correspondente-chefe em Beirute, Jerusalém, Washington e na Casa Branca (EUA). Conquistou três vezes o Prêmio Pulitzer, até que em 2005 foi eleito membro da direção da instituição. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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