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Quinta, 18 de junho de 2009, 08h04 Atualizada às 09h02

É espantoso

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Acho que o assunto que mais contribui para eu ser pouco ou nada original, ou o que mais faz com que eu me repita neste espaço é a ignorância dos intelectuais sobre questões mais ou menos elementares de língua. Suas idéias, se assim podem ser chamadas, reduzem-se a duas. Elas se desdobram em detalhes, mas, apertando bem, não passam de duas: a) há uma maneira certa e muitas erradas de falar e escrever; b) as palavras teriam tido algum dia um sentido preciso, e agora, na boca do povo, ou dos jovens ou de executivos metidos a besta, elas degeneram.

E como é que eles sabem o que é certo? Não é lendo gramáticas, como se poderia imaginar, mas lendo seus resumos, ou livrinhos de dicas, com nomes idiotas do tipo Não erre mais, com uma lista de 25 ou 100 ou 127 erros de português que eles tiram de sua pobre cartola, em geral sob a forma de cópia de obras anteriores do mesmo baixo calibre. E de um dicionário, que deve ser desses de bolso, bem miúdo, um "mini", porque tudo o que eles acham que um dicionário diz é desmentido pelo primeiro que se consulte.

Vejamos mais uma dessas manifestações. É de um dos meus cronistas favoritos, Ruy Castro, de quem já falei outras vezes, e por razões idênticas. É um dos meus cronistas favoritos porque tem um estilo delicioso e, parece, dá informações interessantíssimas e peculiares sobre música, comidinhas, a vida das ruas do Rio e de outros lugares por onde viajou ou viaja. Também li suas biografias de Nelson Rodrigues e de Garrincha (nesta, há um erro grave: ele disse que Videira, vizinha de minha Arroio Trinta, em Santa Catarina, fica no Paraná, mas isso é perdoável). Ou seja: eu o acho ótimo em tudo, menos quando fala de língua. Aí ele regride, recua nas quatro.

Vejamos o que disse em trecho de sua coluna de 13/06/2009, na Folha de S. Paulo. "E, sempre como Nei, não me conformo ao ver a música popular atrair palavras ingênuas para fora do dicionário e corrompê-las com inglórios novos sentidos". E cita uma estrofe desse Nei, cujo disco está festejando: "No meu dicionário, roqueiro é aquilo / Que fica lá em cima da rocha / E fanqueiro é o cara / Que vende tecido / De linho e algodão / Pra mim sertanejo / É, antes de tudo, um forte / E axé é força e boa sorte / No meu dicionário / Galera é apenas uma embarcação".

Dele, destaco duas passagens: a) "atrair palavras para fora do dicionário": é incrível, mas parece que ele acha mesmo que as palavras nascem num dicionário (como crianças nasciam de repolhos) e lá têm registrado um sentido preciso; parece desconhecer tudo o que de fato fazem os dicionaristas, que, bem ou mal, coletam em variadas fontes as palavras e seus sentidos, novos ou antigos, "literais" e figurados; b) "e corrompê-las com inglórios novos sentidos": parece que ele acredita mesmo que as palavras deveriam ter apenas os sentidos antigos, talvez os originais, talvez um só. Mas isso é tudo o que uma palavra não é! E o que seria um sentido inglório?

Que ele está completamente errado é fácil de ver, mesmo não fazendo grandes pesquisas. Basta olhar de perto a própria coluna de Ruy Castro. Por exemplo, ele escreve "atrair palavras para fora do dicionário". Em que sentido está empregada aí a palavra "atrair"? Certamente, não no da física newtoniana. Talvez esteja em um sentido novo e inglório (e é por isso que eu o leio). E o que seria "fora do dicionário". Dicionário tem um dentro? Considerando o sentido geral do que ele está dizendo, descobre-se que se trata de uma boa figura que quer dizer algo como "mudar o sentido que um dicionário registra" (o que ele lamenta, mas isso é outra coisa). Ora, isso é bem diferente de foras e dentros. Ou seja, ele mesmo é bem melhor no que faz do que no que pensa, porque pensa besteiras e faz coisas bem razoáveis!

E já que se escora no samba de Nei para emitir essa opinião, vejamos uma das palavras do dicionário do sambista (do que seria seu pobre dicionário, se ele estivesse mesmo defendendo que as palavras não devem ter outros sentidos; mas desconfio que não está fazendo isso; está apenas pegando no pé de roqueiros e fanqueiros, e não implicando com os nomes que os designam, e defendendo o samba contra outros gêneros de música). Mas ele diz que galera é só uma embarcação, no dicionário dele. Então, vejamos o que diz um dicionário de verdade, o Houaiss:

1 Rubrica: termo de marinha: antiga embarcação de guerra; galé

2 Rubrica: termo de marinha: navio de vela, ger. de três mastros redondos com dois mastaréus em cada um

3 (1986) Rubrica: futebol. Regionalismo: Brasil. Uso: informal: grupo de torcedores das gerais e arquibancadas

4 (1986) Derivação: por extensão de sentido. Regionalismo: Brasil. Uso: informal: qualquer grupo afim; o pessoal, o grupo, a roda de amigos Ex.:

5 forno de fundição

6 Diacronismo: obsoleto: carroça para transporte de bombeiros em serviço de incêndio

7 Rubrica: carcinologia. Regionalismo: Brasil. m.q. tamarutaca

Vê-se logo que "galera" não é apenas uma embarcação. São duas, e também outras coisas. Vejamos agora o rodapé etimológico:

"cat. galéra (sXIII) 'embarcação de guerra movida a remo ou vela', do cat. gálea (1120) com alt. do suf.; do Gr(ego). Biz(antino) galéa 'toninha, peixe marítimo', do Gr(ego) galé 'toninha', a acepção 'embarcação' surge p(or) Ana(logia) com os movimentos rápidos e ágeis do peixe; cp. fr. galère (1402) 'antiga embarcação de guerra a remos', de mesma orig., que passa ao ing. galère (1756), na acep(cão) 'grupo de pessoas que têm em comum uma qualidade marcada ou um relacionamento', já existente no fr. 'grupo de pessoas condenadas a remar nas galeras'; f.hist. sXV galera, sXV gualera".

De novo, um dicionário é bem diferente do imaginado por Rui e pelo sambista: destaquem-se duas enormes diferenças: a acepção "embarcação" deriva de outra anterior (um peixe); e a acepção de "grupo de pessoas" é do século XVI !

Ruy Castro, para escrever uma biografia, gasta dois ou três anos, durante os quais lê muito e entrevista centenas de pessoas. Por que não dá uma olhada mais cuidadosa pelo menos em um dicionário e em uma gramática de verdade, por mais que isso seja muito menos do que o necessário para falar sobre língua com a propriedade com que fala de seus biografados e de outros temas? Por que?

Viva a ignorância lingüística dos sábios!



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