Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Paquito

Quinta, 18 de junho de 2009, 08h05

J. Velloso & Os Cavaleiros de Jorge em CD

Paquito
De Salvador (BA)

Conheço J. Velloso há mais de vinte anos. Roberto Mendes, com quem eu tinha feito uma canção, era seu parceiro, e nos apresentou. Como naquela época ele havia se mudado pro Garcia, bairro onde ainda moro, em Salvador, tornamo-nos vizinhos e amigos de bate-papo. De conversa em conversa, descobrimos uma afinidade: o amor pela canção popular do Brasil, mesmo sem nunca termos feito uma música juntos. Nossa maior parceria nasceu em função da amizade e não o oposto, pois mais tarde ele me chamou pra dividirmos a produção de um Cd de Batatinha (Diplomacia, 1999), após uma série de discussões sobre nova música baiana que rolaram na imprensa soteropolitana. Jota defendia Batatinha como símbolo da música da Bahia que existia, mas era pouco divulgada e (re)conhecida.

Aquele disco nos transformou em produtores e aprendemos o ofício juntos, tranquila e intuitivamente. O que eu não sabia, perguntava a Jota e vice-versa. Do disco de Batatinha, passamos para produzir o de Riachão (Humanenochum- 2001). Naqueles tempos andávamos colados, unha e carne. E me chamava atenção em Jota, ao contrário de muitos pós-tropicalistas, uma visão nada dogmática e pouco ligada às vanguardas da música, adequada à sua história de vida, e às lições reais da Tropicália. Uma vez, ao ouvir uma canção meio complicada que eu tinha feito, ele me disse: "por que você não busca um caminho mais simples?" Esta pergunta definiu, até então, o que aprendi ouvindo Roberto Carlos, Luís Gonzaga e Caymmi, sem que eu houvesse antes me dado conta.

Ainda nos vemos, episodicamente, é verdade, pois cada um seguiu seu caminho. Daí a minha surpresa ao ouvir seu segundo disco, J. Velloso e os cavaleiros de Jorge, lançado pelo selo Quintanda, (Biscoito Fino), que pertence à Maria Bethânia, sua tia. Da sua sensibilidade de produtor e letrista, eu já sabia. Canções gravadas por Bethânia, Gal, Jussara Silveira, Daniela Mercury e Bellô Velloso atestam isso. Jota ainda tem bons parceiros, como Roque Ferreira, Luciano Bahia e Roberto Mendes, mas já compõe sozinho bem e, o melhor, simples. Tão simples como são básicos os temas que elegeu pra cantar: a religiosidade, a sua terra, os amores e, claro, a música. Como ele mesmo já disse numa canção feita com Roberto Mendes, "eu sou fiel/ fiel ao meu coração".

Jota compõe canções celebratórias, verdadeiros hinos como Kirimurê- já gravada por Bethânia - que era o nome dado pelos índios à Baía de Todos os Santos - "Kirimurê, linda varanda/ de águas salgadas brancas/ que mergulham dentro de mim" - e Jorge Valente, pro seu santo protetor e orixá, São Jorge. Todos os santos estão com ele, pois o seu "Jota" vem de Joviniano José, seus dois nomes. O primeiro significa que está sob a proteção de Júpiter e o segundo homenageia São José. São também nomes dos seus avós. Assim é Jota, baianamente sincrético e mestiço. Família, religião, tradições, tudo diz respeito aos afetos e emoções, e está nas canções.

No entanto, este homem do interior, "48 num corpinho de 47", veterinário que tem amor aos bichos e às plantas, contaminou-se de urbanidade e respondeu bem em faixas como Medo, entre perplexo e indignado, sentimentos presentes desde sempre no seu canto de maneira discreta. Só que agora Jota canta melhor, resultado dos três últimos anos que passou realizando muitos shows em Salvador na Casa da Mãe, um lugar no bairro do Rio Vermelho, onde aprendeu a cantar convivendo com o burburinho do público. A voz, antes frágil, está segura, sem perder um quê de melancolia que sempre lhe conferiu especificidade.

Ao seu lado estão os Cavaleiros de Jorge, que são Luciano Bahia (violão, programação e direção musical), Alex Mesquita (guitarra, produção e técnico de gravação) Gustavo Caribé (baixo) e Dailha (percussão), a turma que o acompanha desde os tempos da Casa da Mãe. O disco tem participações de Jorge Mautner, Mário Ulhoa, Jorge Vercilo, Virgínia Rodrigues, Paulo Dáflin, Luizinho do Gêge, Jaime Além e ainda programações de Aldo Brizzi, mas ninguém se sobressai exageradamente. Tudo concorre para iluminar Jota e seus cavaleiros. Ele, que se auto-denominou o Camaleão Vaidoso (título de uma canção, a mais emblemática ao usar a metáfora do camaleão pra significar o compositor e produtor, geralmente escondidos), já não se confunde com os outros. Suas cores dão identidade ao disco e contagiam os que estão ao seu lado. Quando se acaba a audição, fica tudo pintado com as cores jovinianas, colorido como o planeta - Júpiter - que deu origem ao seu primeiro nome.

Sambas, xotes, baiões, reggaes - grande é a variedade dos ritmos das canções, mas onde eu encontro o meu parceiro com inteireza é em Moda de viola, composta a partir de um comentário de Bethânia: "quero moda de viola/pelo menos isso me comove". Jota me comove e comoverá a todos com sua música do coração da Bahia, pulsando entre dorida e admirada das coisas do mundo e de si mesma.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Paquito vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela