
Atualizada às 09h36 Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro
"Os Anéis de Saturno" é daquela rara espécie de livro onde imediatamente após se atravessar o indesejável limite de sua última página tem-se a impressão de se ter vivido, de modo semelhante ao torpor de emergir de um sonho que nos abarca com a presteza do real, uma experiência única, e logo se pensa que uma necessária releitura poderia nos explicar como foi possível que uma imaginação, dotada de uma voz tão persuasiva e encantatória, pudesse integrar numa mesma linha narrativa tantas estórias, personagens e reflexões sem que nenhuma dessas associações, por mais arbitrárias que possam parecer quando acompanhadas no índice dos capítulos, tenham sua lógica inalcançável minimamente decifrada pela razão. E o estupor só tende a aumentar a cada mínima releitura.
Partindo do condado de Suffolk, um narrador chamado W. G. Sebald (procedimento este que está presente em todas os livros do autor alemão), faz uma longa peregrinação pela costa leste da Inglaterra. Durante essa caminhada, que irá terminar com a internação do próprio Sebald em um hospital, ponto onde o livro começa, o narrador irá coletar estórias tanto recentes como incrivelmente ancestrais a partir e através de tudo que seus olhos alcançam, gerando associações das mais variadas e intrigantes possíveis, e misturando no mesmo texto diversos materiais para criar, assim, um fascinante híbrido de memórias, relato de viagem, crítica cultural, ensaio, história européia, citações de obras alheias de escritores e historiadores, paródias de textos clássicos e inúmeros diálogos com pessoas, reais e imaginárias, que Sebald por ventura encontrou durante sua peregrinação.
A curiosa proposta filosófica de Sebald é bastante simples: seus narradores buscam na natureza evidências de um passado esquecido, e a partir desses achados que ou geram um reconhecimento autobiográfico ou uma associação com algum relato alheio, uma obra literária ou um quadro ou fotografia, Sebald constrói uma narrativa onde, com um evidente esforço estético que de tão eficaz parece natural, consegue aglutinar tudo que surge proustianamente, no sentido de memória involuntária, ou sebaldianamente, no sentido de memória voluntária e ansiada, em um mesmo e cativante discurso. Porém, se é possível apontar o que há de proustiano em Sebald, também não é um absurdo apontar o que há de sebaldiano em Proust já que em literatura, e contrariando todos os prognósticos totalitários do tempo, cada passo para adiante é, justamente, um mergulho radical na tradição, e os grandes escritores, enquanto vislumbram inconscientes em suas obras os caminhos que serão trilhados pelas próximas gerações, direcionam suas imaginações retrospectivamente para o mais ancestral passado.
Talvez a maior conquista do livro certamente seja a sua total ausência de trama. Mesmo que a narrativa conte as aventuras de Sebald nas suas idas e vindas pela costa da Inglaterra, a memória pessoal e histórica e a sua reflexão ocupam os papéis centrais no livro. Dessa forma, o verdadeiro protagonista dessa narrativa em particular é a consciência perturbada e livre do narrador/autor.
Pode-se afirmar, muito superficialmente, que o romance é um dos mais concorridos espaços onde, seguindo uma série de regras e modalidades e uma gramática bastante delimitável e pouco plástica, corporifica-se determinado tipo específico de narratividade; também se pode afirmar que a inegável consolidação desse gênero, tão fortemente gravado no imaginário ocidental, foi ocasionada pela sua especificidade de gerar dentro de si, e num momento histórico propício, uma "aparência" de incontestável realidade em um momento onde a razão enquanto ideologia dominava o real, e destinava as trevas e as lendas aos abismos da irrealidade. Isso não significa, claro, que o fantástico não possa ser material para um romance, mas sim que é necessário que se crie um efeito de realidade que o justifique: não há romance fora do registro do real. Esse fenômeno de falsificação persuasiva é capital para o funcionamento do romance enquanto gênero.
Por outro lado, a morte do romance, tão insistentemente anunciada por certa crítica e por numerosos escritores, não implica o fim da necessidade de narratividades no mundo contemporâneo, mas sim o mais que necessário sepultamento de um gênero desgastado e que só se mantêm realmente capaz de gerar fascínio, com seus preceitos canônicos, em autores magistrais e muito contados. Sebald representa, mais em "Os Anéis de Saturno" que em qualquer outro de seus livros, o ponto culminante de um processo de modificação radical dos paradigmas dos livros de narrativa convencionais, tanto que em entrevistas sempre denominou suas obras como "prose fiction", ou prosa ficcional - nunca romance.
Já existiram centenas de livros onde os estados de uma consciência foram seus protagonistas, mas Sebald prescindiu da necessidade asfixiante de gerar sempre uma associação racional e compreensível entre os inúmeros assuntos que essa consciência engendra, reflete e visita. Em Sebald, um assunto leva a outro totalmente inusitado a partir de relações e contatos de extrema sutileza, e o concreto armado da narrativa se torna, por um lado, o tom melancólico e desolado com que Sebald narra o que vê e pensa, e por outro, sua pessoalíssima visão total que parece estar sempre presente e misturada, embora de maneira indiscernível, na matéria mesma daquilo que é narrado. Não é pouco o que Sebald fez, e suas conquistas são tão inestimáveis e despertaram tanta curiosidade na crítica internacional que sua morte recente e prematura (para não dizer exageradamente desnecessária) foi sentida em praticamente todos os lugares onde se leva literatura a sério - Londres e o vasto interior da Inglaterra.
O livro acaba cruzando constantemente a história individual com a coletiva, tomando notas biográficas de escritores e aventureiros como uma maneira tangencial de se ter acesso à um passado somente alcançável nas entrelinhas de suas vidas, gerando uma idéia muito sebaldiana de sistema histórico onde tudo está relacionado e cujo funcionamento de uma parte atinge claramente o todo. Essa relação, porém, levanta um ponto interessante, embora não crucial, para o entendimento da proposta de W. G. Sebald, e duas perguntas podem ser feitas constantemente quando se lê suas narrativas: onde termina a ficção e começa a realidade? onde termina a realidade e começa a ficção?
A persuasão da voz narrativa de seus livros, tão imersa nas coisas que narra e debate, acaba afrouxando a razão do leitor; isso, aliado ao grande e mais evidente artifício técnico de Sebald - a utilização de fotografias em suas narrativas -, acabam por tornar aparentemente tudo que é narrado em um terreno de fulgurante realismo, mesmo que o que se narre seja fantasioso e tergiversado.
Ainda sobre as fotografias, pode-se afirmar que todas as narrativas literárias tratam, em menor ou maior grau, do tema da memória e de sua natureza; e assim como cada momento histórico teve suas características objetivas, também teve, por conseqüência, suas subjetivas.
A memória tem uma memória bastante difusa na consciência ocidental (que é a que interessa quando se lida com Sebald), e foi somente no século XX, com a popularização da fotografia, que ela passou a ter uma face cotidiana; nada mais natural que Sebald, um homem obsessivo pelo tempo, e tão contemporaneamente sensível ao seu momento histórico, utilize tantas fotografias nas suas narrativas.
Em uma entrevista o autor alemão afirmou que existe uma memória potencial nas fotografias que não deveria nunca ser subestimada. Assim, ao colocar fotografias em suas narrativas que já possuem uma eficiência verbal além do razoável, Sebald gera um efeito de persuasão tão radical e transbordante que o leitor se encontra numa encruzilhada inédita, e inteligentemente desiste de separar o joio do trigo, entregando-se agradecido à consciência de Sebald e à sua filosofia.
Porém, existe um porém. Como toda grande obra de arte, "Os Anéis de Saturno" parece convidar a intermináveis leituras, todas certamente possíveis desde que razoáveis. Não seria demais afirmar que todas as histórias narradas por Sebald formam, num plano geral, os componentes de uma desordenada (mas coerente) crônica sobre o império britânico: seu afortunado e acidental início, sua meteórica ascensão, seus séculos de hegemonia, sua inescapável decadência e o fim de sua influência no mundo.
Para onde quer que a narrativa siga, tirando raras exceções, observa-se a influência ou ação do império britânico ¿ as inúmeras colônias, a Irlanda separatista, Conrad e Casement no Congo, a Guerra do Ópio, a pista de pouso para aviões em Norffolk que funcionou durante a Primeira e Segunda Guerra, as intervenções na China, os exilados. Sendo assim, Sebald acaba transformando o livro em metáfora, demonstrando uma ascendência direta de Kafka ¿ tanto no controle da narrativa com em sua capacidade imagética ¿ e de Borges, na tentativa de buscar assuntos metafísicos mergulhados no cotidiano, na literatura como discussão de idéias e proposta ontológica.
Ler W. G. Sebald é algo tão efervescente e interminável quanto um dia foi ler Joyce ou Proust no momento de sua publicação, e, logicamente, talvez influenciado pela natural desconfiança com o que é contemporâneo, pode-se sair de "Os Anéis de Saturno" com a impressão de se ter experimentado apenas algo normal e meramente interessante; caso isso aconteça, não duvide: releia de coração aberto e razão enebriada. Porque, caro leitor, acredite: Sebald é tão clássico e imprescindível quanto Cervantes.
Terra Magazine
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Reprodução
Imagem do livro Os Anéis de Saturno
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