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Sábado, 20 de junho de 2009, 07h55

Resenha: Aventura Submarina

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Vinte Mil Léguas Submarinas (Vingt mille liegues sous lês mers), Júlio Verne. Barcelona: RBA Coleccionables, Biblioteca Júlio Verne, 2003, 528 páginas.

Como já temos anunciado nos drops desta coluna, a RBA distribui atualmente nas bancas dos principais centros do Brasil a sua coleção capa-dura das obras de Júlio Verne (1828-1905), a começar de Volta ao Mundo em Oitenta Dias (Cinq semaines en ballon), de 1863. Este Vinte Mil Léguas Submarinas foi o segundo a ser distribuído, e traz ótimas ilustrações - não creditadas no livro, mas que provavelmente são dos artistas franceses Alphonse de Neuville (1835-1885) e Édouard Riou (1833-1900). Infelizmente são reproduções fac-similares de algum original francês já desgastado pelo tempo, mas ainda assim enriquecem o volume.

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Com 528 páginas, esta é uma edição fiel à original de 1870, com texto integral. É provável que a maioria das edições circulantes no Brasil sejam editadas, o que torna este livro ainda mais interessante para os leitores e eventuais pesquisadores.

Vinte Mil Léguas é um clássico da FC do século 19. A história começa quando o Dr. Pierre Arronax é convidado pelo Secretário da Marinha dos Estados Unidos a participar de uma expedição de pesquisa naval a bordo do Abraham Lincoln, navio sob o comando do Comandante Farragut - provavelmente o próprio David G. Farragut (1801-1870), um veterano da Guerra da Secessão. O objetivo é encontrar um monstro marinho, avistado no Oceano Pacífico. Durante o confronto com a besta, Arronax, seu criado Conseil e o arpoador canadense Ned Land são lançados ao mar, para serem subseqüentemente resgatados pelo submarino Náutilus do Capitão Nemo, que os toma como prisioneiros.

Nemo vive incógnito, circunavegando o mundo seguidamente e resgatando os tesouros de navios naufragados, o que lhe permite manter a sua tecnologia superior. É claro que Verne não previu nem inventou o submarino, com este romance de aventuras; engenheiros franceses haviam construído um submarino que foi usado pelas forças da União, durante a guerra, e exemplos anteriores se estendem até fins do século 18. A diferença é que o Náutilus, que funcionaria com eletricidade, possui a desenvoltura de um dos submarinos nucleares da atualidade.

O livro, narrado por Arronax, é um vasto passeio pelos oceanos do mundo e suas maravilhas submarinas, descritas com certo fervor didático por Verne (o material normalmente extirpado em edições menos fiéis ao original). Não é apenas a tecnologia que o interessa, mas também a fauna e a geografia marítimas. Outros detalhes fantásticos são a visita à Atlântida submersa, imagem que ficou na consciência coletiva das pessoas por todo século 20, e a luta da tripulação do Náutilus contra uma lula gigante. Mas foi apenas com A Ilha Misteriosa (L'Île mystérieuse), de 1874, que Verne revelou que o misterioso Nemo (que significa "sem nome" em latim) é Dakkar, um príncipe indiano revoltado com o colonialismo europeu e com a estupidez humana, que presta serviços aos oprimidos do mundo.

Esse didatismo esconde um aspecto interessante para a FC do século 20: a ficção de Verne, que raramente escreveu sobre o futuro, estava ancorada fortemente no presente. Mesmo tendo tratado de temas do passado histórico e pré-histórico, Verne se referia ao agora, ao conhecimento atual do homem do século 10. Não importava que falasse de dinossauros ou da Atlântida, a sua ficção exsudava uma forte sensação de contemporaneidade, integrando-se ao contexto das publicações populares em que seus romances apareciam. Os interesses cotidianos das pessoas do século 19 - viagens, descobertas e feitos científico-aventurescos - eram incrementados e transformados pelo maravilhamento. Assim, a ciência e a tecnologia impregnavam a experiência do sujeito da época.

O Movimento Cyberpunk tem como ideólogo Bruce Sterling, fã declarado de Verne, que admite: "Compartilho a tendência verniana de escrever viagens fantásticos em que as pessoas aparecem rapidamente nos rincões mais estranhos do mundo. É uma boa maneira de incluir uma série de dados num texto, sem perder o interesse do leitor." Sterling define o cyberpunk como uma classe de FC hard, e o movimento já foi chamado de "FC hard radical". Como fazia Verne, o cyberpunk extrapola desenvolvimentos imediatos da tecnologia atual. E da mesma maneira em que o escritor francês utilizava muitos personagens norte-americanos ou ingleses - países na vanguarda da produção científica do século 20 - os autores globalistas do cyberpunk foram buscar a vanguarda das novas tecnologias e comportamentos no Japão e nos "tigres asiáticos".

A influência verniana está ainda mais presente no steampunk, subgênero que Sterling promoveu com o outro guru do cyberpunk, William Gibson, com a publicação do romance The Difference Engine (1992). É uma ficção científica retrô, que regressa às raízes do gênero no século 19. Segundo Sterling: "Nosso plano original apresentava um Verne como personagem em The Difference Engine. Por sorte, recuperamos o juízo e não o utilizamos. Desde então, já escrevi duas introduções para reedições de novelas de Verne..."

Sempre há uma boa razão para ler (ou reler) Júlio Verne.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Clássico da FC do século 19, livro de Verne em edição integral é raridade no Brasil

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