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Segunda, 22 de junho de 2009, 08h17

Catherine Millet: a libertina ciumenta

Fernando Eichenberg
De Paris

Há oito anos, entrevistei aqui em Paris a francesa Catherine Millet. A conversa fora motivada pelo lançamento de seu livro que, para sua própria surpresa, se tornou um best-seller internacional. Em A Vida Sexual de Catherine M. (Ediouro, 2001), ela narra com uma linguagem explícita e detalhista, em tom neutro e lacônico, sua performática e agitada vida sexual, animada por infinitas aventuras libertinas.

A ousada autobiografia erótica, traduzida em 45 idiomas, vendeu mais de 1,4 milhão de exemplares no mundo. Na época, o livro chocou por seu conteúdo de contornos pornográficos e pelo fato de a autora ser uma intelectual e crítica de arte respeitada, fundadora em 1972 da prestigiada revista Art Press, que dirige até hoje.

Neste ano, Catherine Millet está de volta às estantes das livrarias com um novo relato autobiográfico: Jour de Souffrance (Dia de Sofrimento, lançamento previsto no Brasil pela mesma Ediouro). Desta vez, disseca com rara minúcia e uma prosa singular todas as nuances de um sentimento que a fez mergulhar em um período de agudo sofrimento: o ciúme. Em suas novas confidências, a ex-libertina surpreende novamente ao contar como viveu um incontrolável e violento ciúme por causa das relações extraconjugais do companheiro, o escritor e fotógrafo Jacques Henric.

Em Jour de Souffrance, a autora assume e expõe, mais uma vez sem censura, o ciúme que, apesar de sua filosofia sexual libertária, paralisou sua vida em uma paranóia onipresente durante três atormentados anos. Na França, o livro, ao contrário de seu primeiro best-seller, foi elogiado pela crítica por sua qualidade literária.

Recentemente, voltamos a nos encontrar aqui, em sua sala na redação da revista Art Press, desta vez para uma entrevista para a Revista da Cultura, publicação da Livraria Cultura. Catherine Millet - também autora de Arte Contemporânea na França (1987), Arte Contemporânea: História e Geografia (2006), e de ensaios sobre Salvador Dalí e Yves Klein - é umas das convidadas da edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 1° a 5 de julho. A entrevista foi publicada na edição 23 (junho 2009) da Revista da Cultura, mas como nossa conversa excedeu o generoso espaço impresso da revista, disponibilizo aqui a versão integral.

Seu livro mostra que mesmo uma moral libertária e o fato de assumir uma sexualidade livre não impedem que se caia na armadilha do ciúme. Segundo suas palavras, você viveu o ciúme como uma pulsão primária e devastadora. Como foi essa experiência?
Infelizmente, penso que se pode ter uma filosofia de vida e convicções que um dia entram em contradição com movimentos do inconsciente. É algo ainda mais primitivo no fundo da psique humana e pode ser da ordem do ciúme. Seguidamente me perguntam se penso que me enganei, se questiono a filosofia libertária, e minha resposta é negativa. Se vejo pessoas ao meu redor que seguem esse modo de vida e que não têm ciúme, eu digo que elas têm muita sorte e tanto melhor. Eu continuo convencida de que o amor e a sexualidade são coisas distintas, e que nessas condições é melhor preservar no seio do casal uma certa liberdade sexual. Não questiono isso. Uma das razões que me fizeram sofrer quando me descobri ciumenta é que ainda era suficientemente consciente para me dar conta de que estava em contradição com meus princípios. Eu me dava conta, meu companheiro também, ele era o primeiro a me dizer: "Como é que você, com a vida que leva, pode ser ciumenta assim?". Descobri nessa época que o ciúme é um dos sentimentos que controlamos mais dificilmente. Por isso que digo que é primitivo. Por vezes temos a impressão de sermos levados ao nível do animal que demarca seu território.

Você diz que, nessa época, a sua relação mais forte, inclusive física, era com o ciúme.
Por isso que falo de pulsão, era algo incontrolável. Quando fazia essa espionagem, obviamente logo depois tinha vergonha do que havia feito, prometia a mim mesma não recomeçar, conseguia me conter por alguns dias. Mas chegava um momento em que, sob a influência de um pequeno episódio qualquer, de uma hora para a outra ressurgia a vontade de voltar a espionar o meu marido. Tentava controlar essa vontade, essa pulsão, mas chegava uma hora em que submergia. É um pouco clichê dizer assim, mas por vezes se tem a impressão de se estar possuído, de não pertencer mais a você mesma. Sobretudo se você é alguém como eu, racional, uma intelectual, capaz de pensar o que faz, a sua vida.

No período mais violento de seu ciúme, para tentar entender o que sentia, você leu testemunhos de estupradores em série. Qual a relação?
Devo ter ouvido uma ou duas vezes, talvez na televisão, testemunhos de estupradores. Essas pessoas contavam que sabiam que iam cometer um crime, fazer mal, entretanto não conseguiam se controlar, elas se sentiam submergidas pelo desejo de estupro. Eu tive um sentimento um pouco comparável. Graças a Deus, meus crimes são menos graves, mas senti uma certa solidariedade com essas pessoas que eram vítimas de sua pulsão e ao mesmo tempo capazes de julgar a gravidade de seus atos. Pesquisei e comprei livros sobre essa questão, sobre o estupro, testemunhos de criminosos. Todos dizem a mesma coisa: "Eu sentia chegar o momento, me dizia que não devia sucumbir, mas sucumbia".

Você compara seu ciúme ao trabalho de uma arqueóloga.
Muitas vezes o ciúme é uma forma de paranóia. A paranóia é o que faz você interpretar todos os detalhes de sua vida como sinais de um complô, de que alguém quer o seu mal, que algo se trama contra você. No caso do ciumento, todos esses pequenos detalhes da vida cotidiana se tornam provas de que seu companheiro ou companheira lhe traiu com alguém. Eu estava nessa situação, me tornei a arqueóloga nas coisas do meu marido, catava todos os pedaços de papel que ele pudesse ter deixado para trás, abria seu correio, lia seu diário. Eu me vi nessa situação de uma espiã. Se somos gentis, chamamos de "arqueóloga"; se somos menos gentis, dizemos "espiã" de seu marido. É uma situação bastante desconfortável, porque a moral condena esse tipo de comportamento.

Diz-se que o escritor James Joyce (1882-1941) sofria de ciúmes e ao mesmo tempo tinha uma fascinação incontrolável pela possibilidade de ser traído.
Joyce e também Georges Bataille (1897-1962), que induzia sua mulher a ter relações sexuais com amigos deles. Ela era um pouco reticente, mas no fim acabava cedendo, e quando isso ocorria Bataille entrava em momentos de raiva terríveis. Nesse caso, há uma grande proximidade entre o prazer e a dor, um alimenta o outro. É um prazer masoquista. Vi muito isso em amigos que eram libertinos e que percebi serem ciumentos. Meu caso não era único. A libertinagem implica um modo de sexualidade no qual a excitação vem também do prazer que se tem de estar com ciúmes, de ver o outro com outra pessoa.

Você acredita que possa haver ciúme benéfico e nocivo?
O ciúme é uma pimenta sexual que pode agir de diferentes formas. Há, por exemplo, o caso desses amigos libertinos, que têm prazer em ver suas mulheres com outros homens. Mas pode ser também o desejo de vencer o desafio de ver a tensão daquela pessoa que você ama atraída por outro, e nesse momento você tem vontade de reagir e de atrair novamente a atenção dela. Mas se isso toma uma forma patológica, aí é algo terrível. É um dos sentimentos mais horríveis que se pode experimentar.

Foi o seu caso.
Eu ainda tinha a capacidade de falar com Jacques, de refletir sobre isso, fiz análise, o que ajudou me livrar disso. Mas se você é realmente prisioneiro desse sentimento, acaba nas páginas policias dos jornais. Mata-se por ciúme.

O sexo, na sua opinião, não é um meio de comunicar, mas, paradoxalmente, um domínio no qual as pessoas experimentam as coisas da forma menos partilhada. Como é isso?
Há esse estereótipo de que quando duas pessoas se encontram, se amam muito e têm muito prazer juntos, querem experimentar o orgasmo ao mesmo tempo. Essa expectativa faz parte da ideia de que nesse momento se partilharia tudo, porque se goza ao mesmo tempo. Eu penso que nesse momento, quando o prazer é muito forte, na minha opinião ele se isola. Você se encerra em si mesmo em seu próprio prazer intenso. Nesse sentido, não acho que seja um momento de grande comunicação. As preliminares, os carinhos, os beijos, todas as estratégias de sedução, sim, isso é da ordem da comunicação, mas o prazer em si, o orgasmo, penso que não. Ao contrário, é o momento em que cada um é reconduzido a sua solidão.

Você não é partidária da ideia de que ter uma relação sexual com alguém que se ama é especial.
Depende da personalidade de cada um. Certas pessoas terão talvez mais prazer com alguém que não conhecem do que com quem conhecem e amam. Essa é a figura, pro exemplo, do homem casado, apaixonado por sua mulher, que frequenta prostitutas. Ele encontra um prazer com desconhecidas, mulheres que talvez ele não verá nunca mais, de intensidade tão grande senão maior do que o que experimenta com a mulher que ama.

Você não é guiada pelos sentimentos e nunca se apaixonou.
Eu não sou alguém muito sentimental. Não sei o que é amor à primeira vista, infelizmente. Deve ser algo formidável estar nas nuvens durante algum tempo porque se encontrou alguém especial. Mas nunca aconteceu comigo. Em francês, a palavra "sentimental", hoje, ganhou outro sentido. Não significa somente que você vive sentimentos, mas que eles se manifestam muito rápido, de uma maneira bastante intensa, e que você é bastante submisso aos seus sentimentos. Há um sentido de que você é dirigido na vida por seus sentimentos. Esse não é realmente o meu caso. Mas tenho sentimentos. Não sou um monstro (risos).

Você prega uma democratização da sexualidade para que cada um possoa revelar sua verdadeira natureza sem sofrer socialmente. Que tipo de democratização seria essa e em que estágio ela está hoje?
Há uma imagem do libertino, herdeira do Marquês de Sade, de pertencer a uma elite. Os personagens de Sade são aristocratas que se isolam do resto do mundo e que submetem aos seus desejos outras pessoas, que se tornam objetos. Ainda hoje há a ideia de que um certo modo de vida sexual seria reservada a um tipo de elite ao mesmo tempo sexual e intelectual, e que essa elite distinta do resto da população humana pode se permitir transgressões proibidas aos outros. Não aprecio essa ideia de uma elite para a qual seria reservada a possibilidade de transgredir certos tabus. Eu me dei conta disso depois da publicação de A Vida Sexual de Catherine M., porque, curiosamente, vi libertinos reagirem de forma negativa ao meu livro. Era curioso, porque, afinal, eu fazia parte do círculo deles. Mas compreendi que de uma certa forma eu traía um pouco essa confraria de libertinos. Eu não considerava a transgressão de tabus como um valor em si, enquanto que para essas pessoas se trata de um valor. Eu milito para que todo o mundo possa dispor dessa liberdade sexual, sem pertencer a nenhuma elite ou ter essa satisfação narcísea de dizer: "Eu fui capaz de transgredir um tabu".

E o que você pensa dos movimentos feministas de hoje?
Eu me sinto mais à vontade com jovens de hoje que tentam reinventar o feminismo, se apropriar de formas de expressão que permitem às mulheres exprimir suas visões da sexualidade, do que com mulheres que nos anos 1970 pensavam que todos os esquemas sexuais eram construídos pelos homens e que era necessário rejeitar isso em bloco. Eu me sinto mais próxima das mulheres que não estão nesse feminismo rígido, mas que estão no estado no qual as mulheres se apropriam das "ferramentas simbólicas". Elas filmam, fotografam, escrevem e falam de sua própria visão da sexualidade, em vez de rejeitar tudo.

Eu devolvo uma pergunta que você mesma formulou certa vez: "Existe para o ser humano prazer fora da obscenidade?"
(Silêncio). Acho que sim. Para mim, a obscenidade é um força erótica. Falar durante o ato sexual, falar palavras obscenas, olhar imagens obscenas, imaginar situações obscenas, são recursos que excitam muito minha libido. Mas também me ocorre ter muito prazer sem passar por essas representações obscenas. E todo o mundo não tem o espírito feito da mesma forma. Penso que quando há uma relação de desejo muito forte, pode-se abster de representações obscenas desse tipo. Por onde passa o desejo é algo muito sutil. Meus dois livros interrogam sobre isso, mas de forma alguma esgotei o tema. Veja os fetichistas, um fetichista do pé, do sapato, como se vê em Le Journal d'une femme de chambre (de Octave Mirbeau, 1900). Um par de sapatos, para você, para o comum dos mortais, não é uma imagem obscena. Talvez que essa imagem de sapatos vá suscitar em um fetichista um desejo louco pela mulher que calçá-los, algo que para você é algo misterioso. Os caminhos do desejo, de uma pessoa a outra, são tão inapreensíveis, tão difíceis de entender, não posso dar uma resposta categórica a essa questão.

Você disse certa vez: "É no momento em que você mais tem razões para estar feliz que a falha que existe na vida de cada um aparece". Por quê?
É verdade. Mas é difícil de explicar. Disse isso quando foi lançado Jour de Souffrance, eu estava numa época de grande felicidade. Minha relação com Jacques hoje é bastante tranquila, publiquei livros bem aceitos pelos leitores, numa editora que aprecio e que incentiva meu trabalho, tenho prazer em editar a Art Press e adoro as pessoas que trabalham aqui comigo, enfim, não tenho muitas razões para me queixar. Ao mesmo tempo, acho que o ser humano é habitado por uma angústia, ainda mais sensível quando não há todas essas preocupações que atrapalham a sua vida. Vivi períodos em que brigava com a pessoa com a qual vivia, em que tinha dificuldades financeiras com a revista que me impediam de dormir à noite, em que não me sentia segura da qualidade do meu trabalho. Havia todas essas inquietudes cotidianas que fazem parte da vida de cada um. E quando se está inquieto por todas essas coisas, você não pensa nas questões metafísicas que habitam o ser humano. Eu vou morrer, pessoas que amei profundamente estão mortas... Essas questões metafísicas não existem quando estamos tomados por preocupações de dinheiro, de amor, de profissão. Na época em que disse isso, estava em um momento de grande felicidade e, ao mesmo tempo, de um grande desespero.

Recentemente, você trabalhou nos escritos de Simone de Beauvoir (1908-1986). Qual era o objetivo?
Trabalhei para o centenário de nascimento de Simone de Beauvoir, que foi celebrado no ano passado. Eu me interessei no trabalhos dela de diversas formas. Primeiro, porque uma grande parte de sua obra é constituída de relatos autobiográficos, de memórias. São relatos muito honestos, ela revela muitas coisas sobre suas relações sexuais, suas relações com Sartre, com Claude Lanzmann e outras pessoas. Mas também porque se descobre em seus escritos uma mulher apaixonada que não corresponde verdadeiramente à figura da feminista que foi construída depois. Há certamente esse célebre livro (O Segundo Sexo) que alimentou a reflexão sobre o feminismo, mas que talvez tenha encerrado Simone de Beauvoir numa imagem um pouco rígida, da feminista reivindicadora, enquanto ela era uma mulher e uma apaixonada bem mais clássica em seu comportamento.

De que maneira?
Há uma carta endereçada ao seu chamado amante americano (o escritor Nelson Algren) - com quem ela revelou uma paixão admirativa pelo homem que ama e um lado bastante ingênuo em relação a ele -, em que ela lhe pergunta: "Você conhece Casanova? Vou apresentá-lo a um homem que conhecia as mulheres". Se hoje você falar de Casanova a feministas, elas vão gritar de horror, porque é o estereótipo do conquistador, do homem que seduz as mulheres para depois abandoná-las, que só se interessa no prazer que o corpo delas pode lhe oferecer, etc. Ler que Simone de Beauvoir poderia admirar Casanova vai contra os clichês referentes a sua pessoa. Isso nuança o personagem, lhe confere complexidade, é algo realmente interessante.

Qual a sua opinião sobre a relação do casal Sartre-Simone de Beauvoir?
Eu me pergunto se não era mais uma "associação" do que verdadeiramente um casal. Eles viveram muito pouco tempo juntos. Ela talvez tenha partilhado mais tempo um apartamento com Claude Lanzmann do que com Sartre. Sartre não era exatamente um amante extraordinário, e logo ela procurou prazer em outras relações. Acredito que se tratava de uma relação mais da ordem de uma associação do que de um verdadeiro casal. Dito isso, eles fizeram coisas formidáveis juntos e se acompanharam na velhice, e acho isso bom. Um casal é feito para isso também, para envelhecer junto. Hoje, posso dizer isso (risos). Já estou com Jacques há uns trinta anos e acho que ainda vai durar muito.

Você recebeu um numeroso correio depois do lançamento de A Vida Sexual..., a maioria de homens, seja de um detento numa prisão perdida dos EUA ou de um condutor de trem inglês, como contou certa vez. Por que há mais cartas de homens do que de mulheres?
É um mistério. Talvez porque o que elas encontraram no livro não as incitou a escrever um carta. Elas se reconheciam ou não, mas deviam sentir comigo uma identificação mais direta do que no caso dos homens. Mas, nos encontros públicos, as mulheres se dirigem a mim muito mais do que os homens. Pela palavra, diretamente, num encontro público, as mulheres falavam mais facilmente. Havia uma certa cumplicidade entre mulheres. Acredito também que se muitos homens me escreveram é porque eles de pronto se colocavam numa situação de sedução. Muitas das cartas eram também convites. Terminavam por algumas frases gentis a minha pessoa, e muitos falavam da bela casa onde moravam e me convidavam para passar férias. Alguns escreviam: "Você pode vir com o seu marido". O que provocava risos em Jacques, que dizia: "É gentil da parte dele" (risos). Mas mesmo quando não eram convites diretos, havia algo de sedução nessas longas cartas tão bem escritas que recebi.

A literatura libertina não é algo novo. Já no século 18 imprimiu sua marca, tendo o Marquês de Sade como principal expoente. A que você credita o enorme sucesso, nesse início de século 21, de seu livro A Vida Sexual...?
Penso que os costumes na sociedade evoluíram bastante. Mesmo se ainda há associações que pedem a censura de obras licenciosas ou que condenam certos comportamentos, de uma forma geral o conjunto da população em nossas sociedades é muito mais aberto. Notei com o sucesso de A Vida Sexual... que mesmo se as pessoas não partilham do modo de vida e da filosofia libertária, estão prontas a aceitar que outros o façam. Há essa mínima tolerância. Muitas pessoas me disseram: "Jamais ousaria fazer o que você fez, mas compreendo muito bem que seja a sua escolha". Isso prova que há uma abertura de espírito, uma abertura aos outros bem maior do que havia antes. Além disso, eu tinha 20 anos em 1968, pertenço a uma geração que acreditou nessa utopia da liberação sexual, que a sociedade evoluiria de uma forma em que os corpos seriam trocados facilmente. Compreendemos que não era tão simples assim. Mas havia um pouco esse sonho.

Seu ensaio Dalí et moi (Dalí e eu, ed. Gallimard, 2008), que analisa mais o Dalí escritor do que o artista, sobretudo a forma como trata o onanismo, influenciou Jour de Souffrance. Como?
É verdade que a reflexão que empreendi para esse livro sobre Salvador Dalí me fez compreender um certo número de coisas em relação à masturbação. Principalmente a relação entre a masturbação e a imaginação visual, que depois me ajudou a descrever meu próprio comportamento em Jour de Souffrance. Eu me interessava pelo Salvador Dalí artista, mas sobretudo pelo escritor. Talvez em razão do fato de que o essencial de seus escritos são autobiográficos e que, apesar de sua exageração, é extremamente honesto em relação a sua sexualidade. Como é sabido de todos, porque pintou um quadro intitulado O grande masturbador, era ele mesmo um grande masturbador. As análises de seus escritos colocam em evidência essa sexualidade bastante dirigida ao onanismo que há em certas pessoas e a necessidade de alimentar esse onanismo com visões, numa mistura do real acrescentado de outras imagens. As representações sexuais que construímos em nossa mente nesse momento aumentam a excitação e ajudam o ato onanista. Eu compreendi esse tipo de mecanismo em detalhe lendo os escritos de Dalí.

No seu ciúme, você não tinha mais a sua vida sexual, só imaginava a de Jacques.
Sim. Enquanto estava encerrada nesse ciúme, passei meu tempo a representar Jacques no ato sexual com outras mulheres, nunca comigo, e eram essas imagens que vinham na minha mente quando me masturbava. Isso também teve a ver com aquela sensação de se sentir possuído. Não conseguia ter uma outra imaginação sexual do que essa, era como se estivesse colonizada.

Na crise de ciúmes, Jacques se tornou um mito para você? Como assim?
No livro, falo de Jacques como um mito a partir do momento em que comecei a fabular toda a sua vida sexual. Nas histórias que eu criava de sua vida sexual, inspiradas do real, eu imaginava outras histórias, com outras mulheres, que não tinham fundamento na realidade. Construí em torno dele todo um conjunto de relações, eu o fiz habitar um mundo distante, que o afastava de mim, como um mito, fascinante exatamente porque inatingível. Essa transformação de Jacques em mito foi de ordem erótica. Porque de uma hora para outra ele se tornava novamente um estrangeiro, eu me encontrava nesse estado de ciúme erótico, com o objetivo de recuperá-lo. Como esse ciúme hoje está em grande parte curado, Jacques Henric não é mais um mito para mim (risos).

Você diz ter sentido amor por Jacques quando se deu conta de que com ele vivia em uma grande paz.
Eu fui uma jovem muito inquieta, não muito segura de si, que por vezes tinha dificuldade nas suas relações com os outros, um pouco confusa. É verdade que minha relação com Jacques me deu muita paz interior, uma estabilidade, uma reconciliação com o mundo e com as pessoas em geral.

Como você explica a necessidade do conflito para a sobrevivência de muitos casais?
É verdade. Conheço muitas pessoas assim. Mas eu ainda prefiro estar em paz com Jacques. Sofri muito mesmo durante esses três anos de crise de ciúme. Isso não impediu nossas relações sexuais, ao contrário, por vezes isso lhe reavivava ainda mais. Mas era muito sofrimento. Você chega muito perto - e isso é muito doloroso - do fosso impossível de preencher que forçosamente há entre dois seres. Mesmo que eles se conheçam há trinta anos, que se adorem, que acreditem tudo saber um do outro, há ainda assim esse vazio. E quando se está em uma relação de repetidos conflitos, que duram, você sente essa lacuna. E você sente até que ponto, enquanto ser humano, se é prisioneiro de sua solidão. Isso é muito difícil. Viver isso cotidianamente é muito penoso. Mas é verdade, há pessoas que vivem assim. Tenho um casal de amigos próximo que vive assim, em conflito, há muito tempo, e na minha opinião continuarão até o fim assim.

Você tem medo da morte?
Penso na morte todo o tempo. Eu me preocupo muito com a morte. Mas acho que não sou a única.

Você parou de acreditar em Deus quando perdeu a virgindade, aos 18 anos. Qual a relação?
É inexplicável. Talvez um dia tenha de me dedicar para tentar entender isso. Tive uma infância e adolescência muito crente, e quando, no fim da adolescência, comecei a ter relações sexuais, sem nenhuma reflexão específica cessei de crer em Deus. Mas para isso não tenho explicação.

E esse crucifixo pendurado em seu pescoço?
Guardei essa pequena cruz. Adoro os crucifixos. Eu me interesso pela religião católica, na qual fui criada. Há reflexões sobre o homem e o indivíduo que são muito interessantes.

Em Jour de Souffrance, a crítica literária destacou seu lado escritora, o que não ocorreu para A Vida Sexual..., de sucesso creditado ao conteúdo.
Penso que o conteúdo do primeiro livro era tão surpreendente que varreu todo o resto. O fato de uma mulher contar praticamente tudo sobre sua vida sexual criou um efeito de sideração e as pessoas só mantiveram isso. Com o segundo livro, começaram a dizer que não somente eu contava coisas como também escrevia bem (risos). Talvez eu também tenha estado mais atenta na forma para esse segundo livro. Para mim foi mais difícil contar toda essa crise de ciúme do que contar as peregrinações sexuais. Se você tem dificuldade em dizer as coisas, dá ainda mais atenção à forma, às palavras. É possível que o segundo livro seja melhor escrito, mas não sou eu que vou julgar isso.

Você tem vontade de escrever ficção?
Não tenho de certeza de ser apta para isso. Acho que continuarei a escrever relatos autobiográficos ou livros como Dalí et moi, em que posso analisar a obra de um autor pelo meu viés, pelo que posso sentir em seu trabalho. Recentemente, li uma biografia D.H. Lawrence (1885-1930), escrita por Anthony Burgess (1917-1993). Gostei muito dessa leitura porque Burgess escreve muitas vezes na primeira pessoa para falar de Lawrence. Paradoxalmente, nos sentimos muito mais perto de Lawrence quando Burgess, o autor do livro, escreve "eu". Acredito nessa fórmula.

Numa comparação, fala-se que no Brasil, por exemplo, há uma certa sedução no ar, nas ruas, nos bares, ao contrário daqui na França, onde a sexualidade é mais escondida, em clubes de swing e espaços privados. Você concorda?
Tenho essa percepção, vejo essa diferença de comportamento entre as pessoas no Brasil e aqui. Gostaria que esse tipo de relação entre as pessoas no Brasil fosse a mesma aqui. Em A Vida Sexual... falo um pouco disso. Sonho que se pudesse ter em todas as atividades cotidianas algo da ordem de uma troca sexual, mesmo que, obviamente, não se vá até o fim, mas apenas um olhar, um gesto. Isso estimula de forma bastante agradável as relações entre as pessoas, ainda mais quando se tem consciência de que é algo sem consequência. Aqui, qualquer coisa assim, de pronto implica uma consequência. Se uma jovem nota que um homem a olha de uma forma um pouco mais intensa, receia que ele vá se aproximar e abordá-la, e ela imediatamente se retrai. Mas pode ser simplesmente um olhar en passant, sem consequência. Eu preferiria que na França fosse como no Brasil (risos). Aqui, em lugares reservados para o sexo, as regras estão estabelecidas e você está lá para isso. Temos talvez mais necessidade desses lugares reservados porque são trocas proibidas em outros locais.

Quais os principais escritores que lhe marcaram?
Há muitos escritores que foram importantes para mim. Sou uma grande leitora de Proust (Marcel, 1971-1922). Faço parte daqueles leitores que, permanentemente, retomam algumas páginas de Proust para reler certas passagens. Quando era muito jovem, estranhamente, li todo o teatro de Paul Claudel (1868-1955). Adorava seus personagens femininos, as figuras de santos. Sou também grande leitora de Georges Bernanos (1888-1948), pela forma como ele tentava imaginar como ter uma vida de santo hoje, nas sociedades modernas.

Que autores você está lendo atualmente?
Há pouco me encomendaram um texto sobre O Amante de Lady Chatterly e mergulhei na obra de D. H. Lawrence, que nunca havia lido. Leio tudo dele e sobre ele atualmente. Gosto de sua escrita, nada controlada, bastante espontânea, com uma fulgurância extraordinária. O que ele diz sobre a sexualidade de sua época, principalmente da sexualidade das mulheres, é absolutamente extraordinário. Esse homem tinha um conhecimento muito apurado da maneira como uma mulher podia viver sua sexualidade, e isso é muito interessante.

Como você definiria a arte contemporânea?
É difícil definir a arte contemporânea, porque se você entra hoje num museu de arte moderna ou contemporânea, tem a impressão de que tudo é possível: objetos, pintura, escultura, fotografia, instalações, vídeo. Você se pergunta quais são as formas da arte hoje. Na realidade, todas as formas são possíveis. Creio que um dos papéis fundamentais da arte contemporânea hoje é exatamente o de ser esse espaço de liberdade. Vivemos em sociedades com obrigações bastante duras, é preciso encontrar trabalho, ganhar dinheiro, manter sua família, respeitar tal e tal autoridade. Temos também obrigações morais. Acredito que a arte contemporânea inventou um espaço de liberdade, aberto a muitas coisas que não são possíveis na sociedade normal. É também um espaço de liberdade no qual pessoas que vêm de culturas, civilizações e continentes diferentes podem se encontrar e tentar dialogar. Isso também é muito importante hoje. Para mim, a melhor definição de arte contemporânea é "um ar de liberdade".

Está previsto que na Flip você participe de um debate sobre as transgressões possíveis no século 21. Quais seriam essas transgressões na sua opinião?
Acho que um dos tabus mais fortes de nossa sociedade hoje é a sexualidade com crianças. Há muitos casos de pedofilia, pessoas foram condenadas, há um receio obsessivo de nossas sociedades em relação a isso. A transgressão hoje não seria violar meninos e meninas, porque isso é algo obviamente mal e condenável, mas sim escrever um livro extremamente erótico que colocaria em cena seres muito jovens. Se você escrever um romance dessa natureza, se arriscaria verdadeiramente a afrontar a censura e a condenação moral geral. Na minha opinião, essa seria uma transgressão a tentar.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há doze anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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