
Atualizada às 13h16 Claudio Leal
Terra Magazine publica ao longo desta semana a série "Brasil: guerra urbana" para mostrar as faces ignoradas da violência. Em 30 anos, foram mais de 1 milhão de homicídios registrados. As reportagens contarão as vidas esquecidas de dez brasileiros que não tiveram a chance de concluir desejos ínfimos. O extraordinário cotidiano de homens e mulheres comuns. Nesta segunda-feira, 22, publicamos a sexta história. A de José Francisco.
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Nos jogos dos veteranos do basquete palmeirense. Nas planilhas com o desempenho das equipes. Nas viagens ao interior, em excursão. Nos corredores do Palmeiras, entre um café e um cumprimento. O executivo e dirigente esportivo José Francisco Fappi permanece suspenso na memória afetiva de amigos e colegas.
Em 25 de maio, depois de afastar-se por três jogos, Fappi retornaria ao grupo veterano alviverde, no campeonato paulista de basquete. Estava "de molho" por causa de uma dor crônica nos ombros. Às 18h, empolgado com a volta às quadras, ligou para o amigo Gérson Camilo Garcia: "E aí, meu, você vai?". "Ele era de uma dedicação total", conta Camilo, companheiro de trabalho enredado em grande amizade.
Às 20h daquela segunda-feira, ao estacionar nas proximidades do Tênis Clube Paulista, José Francisco foi surpreendido por dois assaltantes, que queriam roubar o carro. Recebeu um tiro na altura do peito. Conduzido ao Hospital do Servidor Público Municipal, não resistiu ao ferimento e morreu aos 47 anos.
O Palmeiras perdia, sobretudo, um sacerdote. A paixão de Fappi pelo esporte se manifestava no cotidiano do clube. Diretor-assistente do departamento de basquete, ele se envolvia em todo o cenário: sem excluir os sábados e os domingos, planejava a logística das viagens, organizava os horários de uso das quadras, criava planilhas no Excel com os dados estatísticos do campeonato. Nos minuciosos gráficos, a porcentagem de aproveitamento dos jogos.
Ninguém se admirou em vê-lo colaborar, um dia, com o conserto da tabela da quadra. "Acompanhava, dava a mão para os meninos de sete categorias", conta o ex-jogador argentino Gustavo Aguirre. "Ele deixou pronta a programação de basquete do ano todo, tal a capacidade de organização", complementa o diretor do departamento, Ronaldo Aguiar Faria.
Camilo se recorda da última viagem com Fappi. Em Assis, a 432km de São Paulo, um representante da Federação Paulista de Basquete os chamou, antes do início da partida:
"Infelizmente, não vamos ter um árbitro, pois o que vinha de São Paulo teve um problema no carro, não vai chegar a tempo. Nós queríamos conversar com vocês, pra saber se podemos colocar um rapaz local, que trabalha na mesa, na cronometragem, mas ele apita a liga da região..."
Alto, voz grave, José Francisco encostou nele e apontou para outro rapaz, em tom galhofeiro, mas aparentemente sério:
- Você conhece o Virgulino? Não? É um matador que o Palmeiras contrata, meu amigo... Se você fizer merda, vou te pôr na lista dele!
"Ele tinha força física e qualidade técnica. No basquete, a força física é importante", diz Hislandi, parceiro do time de veteranos. O envolvimento com o clube cresceu depois da entrada do filho, Marcel, numa das categorias do basquete. Casado, acompanhava os dois filhos com terna proximidade. "O Zé, pelo que sei, nunca jogou federado. Mas sempre foi um apaixonado pelo basquete. Basta ver que deu ao menino o nome de Marcel (o ex-craque da seleção brasileira). E se tivesse outro, creio que se chamaria Oscar", brinca Ronaldo Aguiar Faria.
Em convívio quase diário com Fappi durante os últimos cinco anos, Gérson Camilo Garcia recorre a uma cena para definir a personalidade do amigo: no momento em que o time infantil do Palmeiras se sagrava campeão paulista, no clube Pinheiros, ele correu os olhos e achou o grandalhão, chorando "feito uma criança". "Uma coisa indescritível. Quando vi aquilo... Era uma realização pessoal pra ele", define. "Nós meio que nos completávamos".
Esse grau de responsabilidade supreende aos que descobrem ter sido esta a segunda ocupação de José Francisco, ex-gerente regional de vendas da multinacional Barilla. Neste mês de junho, sua ausência é sentida até mesmo na quermesse do Palmeiras - por quatro anos ele cuidou da barraca de churrasco. Outras lembranças permanecem. O descontraído veterano dos "rachas" do basquete, nos sábados e domingos. O ala que se empenhava nos jogos mais aguerridos. Sequer deixava de se esforçar para ir às cidades mais distantes, horas avançadas da sexta-feira. Ainda há quem o escute ligar para um amigo: "Não quero perder esse jogo. Vou me apressar aqui. Vamos?".
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