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Terça, 23 de junho de 2009, 10h07 Atualizada às 13h55

Marcelo Barros. O garçom na noite fria

Marcela Rocha

Terra Magazine publica ao longo desta semana a série "Brasil: guerra urbana" para mostrar as faces ignoradas da violência. Em 30 anos, foram mais de 1 milhão de homicídios registrados. As reportagens contarão as vidas esquecidas de dez brasileiros que não tiveram a chance de concluir desejos ínfimos. O extraordinário cotidiano de homens e mulheres comuns. Nesta terça-feira, 23, publicamos a sexta história. A de Marcelo Campos Barros.

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Filho da Vila Madalena, Marcelo Campos Barros cresceu no bairro da zona oeste de São Paulo. Seu destino não podia ser diferente, sempre trabalhou por lá, inclusive em um dos melhores restaurantes da boêmia Vila, o Le Petit Trou, de Edgard Scadurra, ex-guitarrista da finada banda Ira!.

Era apaixonado por culinária. Seu sonho era ser chefe de cozinha. "Mas tinha orgulho de ser garçom", conta Maria Tereza, que trabalhava com Marcelo no Petit. Um rapaz educado, boa postura, elegante. Aos 35 anos, ainda era considerado "um menino de família". Vivia com seus pais, idosos, católicos e com problemas de pressão. Marcelo fumava pouco.

Marcelo é o filho temporão, sua mãe o teve aos 45. Era o sétimo e tinha um apelido: Pan. O garçom do Petit adorava os chocolates deste fabricante desde muito pequeno. O apelido é resultado também da sua visível semelhança com o garoto propaganda da marca.

Ele não se omitia. Tinha opiniões sobre tudo. À primeira impressão, um homem sério, não carrancudo, sério. Segundo Giuliano, era extremamente companheiro, mesmo daqueles que conhecia pouco. "Ou quase nada", diz. Se relacionava de uma forma muito peculiar; era suave, natural, brando. Com certeza faria uma movimentação contra a violência, caso o assassinado tivesse sido um de seus amigos, diz Giuliano.

Agora que Marcelo está morto, seus amigos assumem essa missão. O drama do garçom durou três dias na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Marcelo foi agredido no domingo da Parada Gay, 14, e ainda resistiu até a quarta-feira, 17. Diferentemente do divulgado, ele não estava na Parada Gay, mas num churrasco. Fugia de "muvuca", costumava dizer. Na verdade, nunca foi a uma Parada sequer. "Se seus pais não sabiam de sua sexualidade, passaram a conhecer agora", diz a fotógrafa e amiga Luci Felippe, que menciona a comoção do movimento LGBT.

Perto das 22h, deixou o churrasco para encontrar um amigo na Rua Marquês de Itu, centro da cidade. A caminho do ponto de ônibus, 22h45, chutes na cabeça, traumatismo craniano. Adiante, uma UTI lotada. Depois de longa agonia, o projeto de ser chefe de cozinha foi sepultado na manhã da sexta-feira, 19.


Pan, em sua última fotografia. Domingo, às 19 horas. No churrasco.

Giuliano abre a última lembrança do amigo, no dia anterior ao espancamento, num gélido sábado paulistano, às 21 horas. Giu estava com uma crise de asma. Marcelo prontamente encomendou um xarope de guaco para sua mãe, receita caseira. Giu não chegou a tomar o xarope. Não deu tempo.

Marcelo era homossexual. Por reservado, era tido como circunspecto. Talvez nem mesmo seus pais soubessem de sua orientação sexual, mas Marcelo estava solteiro. De poucos namorados, discreto. No velório era como se todos reivindicassem uma orfandade.

Fotogênico, não somente por isso se tornou assistente de fotografia. Leonino, nasceu em 27 de julho. Terminou o ensino médio e não fez faculdade. Luci, a amiga de longas datas, lembra que um dia foi fotografar o Edgard Scadurra no Petit. Marcelo e ela subiram para fumar um "cigarrinho". Se quer saber, ele fumava Malboro Light. Ela, com a câmera na mão, fez dele seu modelo.

Entre amigos, era "o" cozinheiro. Todos acreditavam que ele chegaria, em breve, a ser chefe de cozinha. Sua especialidade era moqueca de peixe e bobó de camarão. Luci conta que se reuniam e "comiam de joelhos" os pratos feitos pelas mãos de Marcelo.

Os dois desfilavam na Pérola Negra. Ele sempre ia aos ensaios. Adorava samba de raiz e Música Popular Brasileira. "A gente gostava de cantar Paulinho Nogueira e da Viola", conta a fotógrafa.

À Luci, sempre dava algum presente de aniversário: um creme, um perfume. Marcelo nunca se esqueceu. Há três anos, ela ficou muito triste porque não pôde comemorar a data com os amigos. Foi quando Marcelo tocou sua campainha e disse que estaria lhe esperando na Feijoada da Lana, na Vila.

A fotógrafa conta que quando chegou, o viu "com um pacote na mão" (Luci interrompe sua fala. Voz trêmula, pede desculpas e volta a remontar suas lembranças do amigo). Ofertou um bonequinho negro, cópia fiel de si mesmo.

Sentado no sofá, o Panzinho é "mais um membro da família" de Luci. Tempos depois, encontrou a dona da loja e ela disse que Marcelo passava por lá todos os dias para ver se o bonequinho ficaria, realmente, igual a ele. "Aí eu tive a noção de como ele me amava. Todos me falavam, mas eu nunca tive a dimensão disto".

Para não restar dúvidas, Marcelo fez as apresentações antes de entregar o presente: "Luci, esse é o Panzinho. Assim, de alguma forma, eu estarei com você. Sempre".




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Luci Felipe/Reprodução
Marcelo "Pan" Campos Barros, o filho temporão

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