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Terça, 23 de junho de 2009, 09h12 Atualizada às 09h17

Juca Kfouri lança "Por que não desisto" em SP

Claudio Leal

Os enlaces entre futebol e política marcam há mais de duas décadas os artigos do jornalista Juca Kfouri. Quase sempre ele perdeu as batalhas "a um só tempo inglórias e gloriosas", como definiu Janio de Freitas. Mas, desde as gazetas de Cipriano Barata, não há esporte nacional mais fino do que incomodar e vergastar os acartolados do momento. Esse embate diário de Kfouri pula agora para o livro "Por que não desisto" (Disal Editora), coletânea de crônicas que entrança "futebol, dinheiro e política". Além de expor um itinerário jornalístico, traz embutida uma história informal da consolidação dos temas extracampo nas editorias de esporte.

"Por que não desisto" será lançado nesta terça-feira, 23, das 18h30 às 21h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo (Avenida Paulista). O título, extraído de uma crônica publicada na Folha de S. Paulo, não esconde o lado desalentador do que se convencionou chamar de "jornalismo como missão". Juca Kfouri explica:

- A crônica é recente e expõe uma coisa um pouco quixotesca. Um dia, o presidente da República fez um discurso sobre o Estatuto do Torcedor, dizendo que nunca mais o jornalista Juca Kfouri iria dizer que o torcedor é tratado como gato no Brasil. E que essa menção era uma homenagem a todos os que combateram a cartolagem. Mas, quando você olha, esse mesmo presidente está cercado dessa cartolagem. Isso dá um certo desalento. Ao mesmo tempo, termino dizendo que as minhas netas não me permitem desistir. E cito profissionais que me estimulam a continuar.

A seleção dos textos ficou a cargo do jornalista Márcio Kroehn, atualmente repórter da Istoé Dinheiro. A ideia germinou durante alguns anos. Kroehn fez um garimpo consentido na coleção completa da revista Placar, no apartamento de Kfouri, para fundamentar seu trabalho de conclusão de curso, na universidade. "Fique à vontade, pesquise o que tiver de pesquisar, mas seja discreto", pediu o ex-diretor de redação da Placar. Depois de recolher o material, Kfouri notou a existência de marcadores nas páginas correspondentes a suas colunas. Sabedor das boas intenções do estudante, abortou a ideia de uma reunião dos artigos.

Anos depois, ele foi procurado pelo editor José Bantim, seu ex-professor no cursinho Objetivo. Queria um livro com suas melhores crônicas. Que jeito? Passou o telefone de Kroehn, que estendeu a pesquisa aos textos mais recentes e organizou o volume. Prefácio? Tostão. "Tive uma dificuldade na escolha: Juca escreve sobre os assuntos do dia, quentes. Apesar da importância, muitas colunas ficaram datadas. Me concentrei em artigos com relevância atemporal", conta o organizador. De uma seleção inicial de 100 artigos, fechou em 57.

- Quando se fala de política, você vai enfrentar alguém, quem está fazendo negociatas. Algumas pessoas se perguntam: uma coisa tão lúdica como o esporte, por que a gente vai ficar batendo? Quando se começa a olhar para o futebol como Juca - sobre as somas envolvidas todos os meses em transações -, o cara cobra mais transparência. Isso começa desde pequeno, o caderno de esporte às vezes é o primeiro contato que as crianças têm com um jornal, e assim vai se formando - analisa Kroehn.

Para Juca Kfouri, a opção pela abordagem política do futebol tem gerado processos e inimizades notórias (em alguns casos, notáveis). O autor de "Por que não desisto" traça um panorama do habitat:

- Na imprensa esportiva - não é só a esportiva -, uma parte investiga, não se conforma, mas a maior parte dela é conivente, é promíscua. Alguns até justificam editorialmente: isso aí já tá na página de política, o torcedor quer saber quem jogou bem, que não vai jogar... E aí você tem a profusão de jornalistas que são garotos-propaganda, empresários...

A Copa do Mundo de 2014, no Brasil, certamente recheará futuras colunas, quiçá um novo livro. De largada, Kfouri lista a mais sobressalente incoerência da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e dos governadores dos Estados. A julgar pelos últimos flertes e jogadas de políticos e dirigentes esportivos, a festança é "promissora" em campos pantanosos:

- O que ouvimos de cara? Que não seria gasto um tostão de dinheiro público. O que vemos hoje? Apenas três falam em não gastar: Porto Alegre, Curitiba e São Paulo, com o Morumbi. No caso do São Paulo, já se fala em dinheiro público, pra ter um estádio novo, por mais que o (José) Serra diga que não será assim. Os outros nove farão com dinheiro público e agora dizem o contrário, que tinham garantido apenas que não seria feito com dinheiro federal... É um absurdo se nos lembrarmos que, na Copa dos Estados Unidos (em 1994), não se fez um estádio novo, nem se usou dinheiro público - critica o jornalista.

 
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Novo livro de Juca Kfouri reúne artigos sobre "futebol, dinheiro e política"

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