
Amilcar Bettega
De Paris
A casa ficou ainda mais fincada na minha memória depois que a vi assim, com aquela falha no meio.
Como se não bastasse o tempo decorrido e esses olhos de adulto dando outra dimensão às coisas que a infância guardara, havia aquele buraco no corpo da casa.
Tudo se recuperava numa integridade mais ou menos preservada, já sem nenhuma poesia, é claro, um pouco invadido pela grama e ervas daninhas que o abandono foi deixando entrar, mas ainda estava ali o seu corpo, as suas peças da frente, a despensa, o longo corredor, o quarto de costura e a sala de jantar.
Mas de repente, antes de se passar às peças dos fundos, a copa, o banheiro, a cozinha e a área que vinha logo após a cozinha e que se abria para o pátio e o pomar, aquele vazio. Ali, onde sempre soube ser o "quarto de hóspedes", havia agora um quadrilátero de grama alta e muita sujeira, a céu aberto. Das três paredes da peça, a externa não existia mais, apenas a sua lembrança sobre a linha do alicerce mais ou menos tomado pelo capim. Também o telhado e o assoalho tinham desaparecido, ainda que no restante da casa eles lá estivessem, danificados, maltratados como é normal em uma casa abandonada, mas continuavam lá.
Apenas aquele quarto tinha sido amputado, como que recortado com a tesoura num brinquedo infantil. E o que é estranho é que na lembrança dessa imagem da casa amputada, vejo-a sempre um pouco do alto, de uma perspectiva mais elevada, vejo-a de um lugar de onde nunca a vi.
Talvez o reencontro com cada peça daquela casa, inclusive com a que faltava, tenha se dado na ordem como descrevi agora. Da frente em direção aos fundos. Da despensa à cozinha. Mas o que é certo é que nunca a vi de cima como agora a vejo no momento em que a descrevo e a cada vez que fecho os olhos e relembro essa visita.
À ideia de um corpo a que tivessem amputado um membro, agrega-se a presença quase física da doença. Algo de muito grave havia atingido aquela parte da casa, a tal ponto que foi preciso apagar a peça, e com ela qualquer resquício da praga que porventura tivesse se incrustado nas paredes, na madeira do assoalho e do teto.
Esta casa foi uma das casas da minha infância. Foi a casa de minha avó. Os dois, avô e avó, sempre viveram lá naquele tempo. Mas lembro e a relembro como a casa da minha avó.
Depois, ela (a casa) foi outra coisa. Aí já é após a morte do meu avô. Minha avó foi para um apartamento na cidade. Ela (a casa) conviveu com outros hóspedes. É desse tempo a doença que lhe custou um membro, o completo abandono e, quem sabe, hoje, a fama de mal-assombrada.
Eu nunca deveria ter retornado lá. Poderia ter ficado com ela íntegra na minha memória doce daqueles anos sem doença. Os espaços da infância deveriam ser interditos ao retorno depois de muito tempo de ausência. Agora amargo a imagem daquela falha no meio, aquele vazio.
E como se não bastasse, vejo-a de cima, como se eu estivesse flutuando, sem peso, sem forma, sem nada.
Terra Magazine