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Quarta, 24 de junho de 2009, 08h00 Atualizada às 10h43

Lacerda: "Projetos estéticos sempre envelhecem"

Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)


Rodrigo Lacerda, autor de Outra Vida que será lançado hoje à noite

Rodrigo Lacerda estreou com o pé direito. Sua novela O Mistério do Leão Rampante, de 1995, ganhou o Prêmio Jabuti e o Certas Palavras. Seguiram-se contos, romances, livros juvenis e vários outros prêmios, até a recente publicação de Outra Vida, pela Alfaguara. Desde muito jovem Rodrigo Lacerda trabalha com editoração, vivendo em meio aos livros. Outra Vida é uma lavoura proveitosa, um romance que tem lugar garantido na melhor literatura contemporânea brasileira. Na entrevista abaixo, conversamos sobre o ato da escrita, as dificuldades para finalizar um romance, sobre os personagens e seus dramas. Outra Vida será lançado hoje à noite, na Livraria da Vila da Fradique, em São Paulo.

Você tem uma história de sucesso com livros juvenis. Outra Vida é o seu segundo romance, que levou alguns anos para ser escrito. O que há de comum ou diferente nos dois processos de criação?
Rodrigo Lacerda - Tenho na verdade apenas um livro juvenil, O Fazedor de Velhos; pelo menos foi o único escrito pensando especificamente num público cuja idade iria dos 12 aos 17 anos. Não creio que haja uma diferença intrínseca ao processo de criação. No meu caso, especificamente, há uma diferença grande no processo desses dois livros porque o juvenil eu escrevi de uma forma muito solta, muito despretensiosa, sem maiores expectativas e cobranças internas. Enquanto que este novo romance, Outra Vida (Ed. Alfaguara), exigiu um longo e árduo desenvolvimento. Cada personagem teve seu tempo de maturação. Mas, assim como meus livros "adultos" já foram lidos por jovens, o meu livro "juvenil" foi muito apreciado pelo público com mais de 18 anos. Portanto, cada vez mais, vejo que essas fronteiras não se verificam na prática.

Você fez a opção de não dar nomes aos personagens, referindo-se a eles como a mulher, a filha, o homem, o amante, a mãe... Você desejou criar categorias humanas, perfis psicológicos com os quais os leitores possam se identificar mais facilmente?
O primeiro motivo de os personagens do Outra Vida não terem nome foi muito prosaico. Em geral, não importa o quão estrombótica seja a história dos meus livros anteriores, o quão degradados sejam os personagens, as pessoas sempre me dizem que acham meus livros muito autobiográficos. Então, ao escrever esse novo livro, não dei nome aos personagens por uma certa revolta: "Já que tudo sempre parece autobiográfico, então não vou nem mais me dar ao trabalho de batizar meus personagens!". Mas depois, sim, percebi que sem nome eles se tornavam territórios menos demarcados, e portanto, mais livres para que os leitores pudessem se projetar e se identificar.

O que chama atenção em Outra Vida é o esmero com que você constrói os personagens, indo a minúcias na análise psicológica, investigando o caráter, as pulsões, os medos, as qualidades e fraquezas de cada um e também seus aspectos físicos. É uma escrita proustiana. Você tem um método de escrita?
Eu não tenho um método, mas cada livro que escrevo me impõe um método para escrevê-lo. Nesse caso, o processo foi complicado porque os personagens não se encaixavam na história tal qual a formulei inicialmente. Aos poucos, ao longo de anos, eles foram mostrando para mim que rumo eu deveria dar a história e como eu deveria compor seus perfis psicológicos. Foi como se, em vez de ensinar os atores a interpretar os personagens de uma peça, eu tenha moldado os personagens a partir da personalidade dos atores.

Sua opção por contar uma história no ambiente de uma rodoviária, com um relógio marcando o tempo e dividindo os capítulos foi muito feliz. Há uma tensão crescente, que lembra a dos romances policiais. Como surgiu a idéia de trabalhar o romance dessa maneira?
O romance se estrutura a partir dessa longa cena na rodoviária, marcada pelo avanço do relógio, e por capítulos de flashbacks, que mostram como os personagens chegaram ao impasse que estão vivendo na cena principal. Sempre quis que esse livro iluminasse o suspense que existe por trás de uma história de amor; quem são os membros do casal?, de onde eles vêm?, qual o equilíbrio que mantém a relação?, por quanto tempo ainda ficarão juntos? São muitas as perguntas, e muitos os dramas, que uma história de amor abarca, e achei que isso poderia, além de uma narrativa calcada na "conversa sobre relação", ser também um thriller, ter o sabor e o suspense de um livro policial.

No seu romance anterior, Vista do Rio, você havia optado por uma narrativa fragmentária, mais experimental. Outra Vida é uma narrativa bem encadeada, fácil de acompanhar, sem obstáculos. Você levou em conta as dificuldades do leitor comum, aquele de quem Virgínia Woolf falava com respeito, ou não pensou no leitor?
Talvez tenha levado em conta o leitor comum, mas acho que, sobretudo, eu queria enfrentar o desafio de construir uma narrativa de estrutura mais linear (apesar dos flashbacks, que são fundamentais). No romance anterior, Vista do Rio (Ed. CosacNaify) sempre que eu tentava contar o passado dos meus personagens, eu me sentia escrevendo frases feitas, quase como se dissesse "Era uma vez...". Por isso, naquele livro, todo o passado dos dois protagonistas acabou sendo montado por meio de fragmentos aproveitados da fracassada narrativa linear. Depois vi que isso fazia muito sentido no caso, pois a nossa memória é na verdade fragmentada; não lembramos da nossa vida de forma tão linear assim, são mesmo alguns episódios que iluminam certas etapas. Mas no Vista do Rio o narrador era em primeira pessoa, então tudo bem que a narrativa espelhasse essa fragmentação. Como em Outra Vida a história é narrada em terceira pessoa, por um narrador externo à história, uma maior fluência narrativa me pareceu mais adequado.

Que personagem lhe custou mais trabalho desenvolver? Explique os motivos.
O mais difícil foi, sem dúvida, o personagem da mulher. Ela é uma mulher muito determinada, muito forte, muito ambiciosa. Então durante muito tempo ela foi um personagem estereotipado. Nas primeiras versões, por exemplo, além de ser tudo isso que já falei, ela era até ninfomaníaca. Com o tempo, porém, a personagem me mostrou que, se não fosse temperada com uma dose de afeto pelo marido e pela filha, não haveria drama. Se ela não sentisse nada por eles e só pensasse em si própria, na própria satisfação imediata, toda a força do romance ficaria comprometida. Então percebi que estava impondo ao personagem comportamentos totalmente alheios à sua própria natureza e à situação em que ele se encontrava. Foi quando eliminei esse exagero da ninfomania e "esquentei" um pouco a ligação dela com os outros membros da família. Mas esse foi um processo que levou anos de trabalho.

É intensamente arrebatador o clímax que você alcança, quando explodem todas as tensões acumuladas ao longo da narrativa e os personagens se enfrentam, indo aos tapas, na acepção pura da palavra. Como você se sentiu escrevendo esse capítulo?
Na primeira versão final do livro (depois ainda mexi, mas na época achei que era a final), essa cena era ainda mais aguda, com a mulher agredindo o marido inclusive de forma escatológica, narrando detalhes sórdidos das relações sexuais que mantinha com o amante. Para humilhar o marido até o fim. Nessa época, só de reler a cena eu ficava num incrível estado de excitação. Depois de trabalhar nessa passagem, eu nem conseguia continuar. Tinha de parar um tempo e retomar o trabalho horas depois. Mas como decidi abrandar a dureza da mulher, abrandei a dureza da cena, em comparação com a versão inicial. Mas, em certas horas, aquele ditado de que "menos é mais" é verdadeiro. Não sou do tipo que acha que o ditado é verdadeiro sempre, às vezes acho que menos é menos mesmo, mas nesse caso, ao eliminar a escatologia, ao trabalhar na essência acho que dei mais realismo ao descontrole dos dois personagens.

Embora você não cite nomes de cidades nem geografias, fica claro que as referências do romance são feitas ao Brasil. Por que a necessidade de tratar questões políticas atuais como a corrupção?
Bem, porque é muito fácil para nós reclamarmos dos políticos e dizer que eles não prestam. Mas o que vejo é uma sociedade na qual a corrupção é generalizada. Todos nós cometemos pequenas contravenções todo dia, ou pelo menos nos beneficiamos delas. E também seria muito fácil compor um personagem corrupto caricato, que não tivesse nenhum escrúpulo. Mas eu queria fazer com que nos víssemos no papel do corrupto, queria que nos identificássemos com ele, que pensássemos "nessa situação, talvez eu fizesse igual". Só assim esse assunto apareceria no livro sem se tornar uma intervenção externa político-ideológica, sendo, ao contrário, parte orgânica da história. Só assim realmente pensaríamos para pensar no que a corrupção significa. Mas acho que há outras questões contemporâneas tratadas no livro, como o novo papel da mulher na sociedade, e como esse papel ainda provoca reações, ou a nostalgia por uma vida mais próxima da natureza, sentido sobretudo por quem mora nessas metrópoles terceiro-mundistas em que vivemos.

Como você situa Outra Vida dentro do panorama da literatura brasileira contemporânea?
Difícil responder isso. Talvez esse seja mais o papel de um crítico. O que posso dizer é que, de um lado, o livro não está inserido na linha da denúncia social, tão comum em todas as áreas da arte brasileira. De outro, não sinto nele a nostalgia do impulso revolucionário das vanguardas, tão cobrado dos escritores por grande parte do mundo acadêmico. Acho que Outra Vida está mais próximo de romances que, sem maiores bandeiras sociais ou ideológicas, procuram um contato emocional com os leitores, falando sim dos assuntos sociais e políticos, mas colocando sempre o drama vivido pelos personagens em primeiro plano, de modo a não recair no proselitismo político ou na experimentação estética vazia. Para alguns críticos, essa atitude é a causa da "crise na produção literária brasileira". Para mim, é a nossa aposta numa longevidade maior das nossas obras, que não envelhecerão tão rápido quanto os projetos políticos e estéticos muito rígidos e impositivos sempre envelhecem.

Essa pergunta é habitual e ao mesmo tempo dolorosa para um escritor que acaba de publicar seu mais recente livro: o que você está escrevendo?
No momento, nada. Sempre gosto de ter um projeto em andamento quando lanço um livro, pois é um excelente mecanismo de defesa. Explico: se a crítica falar mal do livro novo, eu me consolo dizendo para mim mesmo, "o próximo está muito melhor". Dessa vez estou descoberto, vou ter que segurar "no dente", como se diz.

Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens e Galiléia.

Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br

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