
Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro
Por quase toda sua longa e prolífica carreira literária, Philip Roth atravessou décadas sem encontrar um tema adequado que amplificasse seu imenso talento verbal. Seus primeiros romances com os personagens Zuckerman e Kepesh, nas décadas de 1970-80, são todos fluentes e imaginativos, mas escritos com esmero numa prosa vibrante que passava uma incômoda impressão de ser desperdiçada com assuntos tão banais. Até mesmo o incensado Complexo de Portnoy (1969), quando lido sem fanatismo, revela-se pueril e superestimado. No entanto, em 1993, algo aconteceu: com Operação Shylock, Roth se reinventou como escritor e atingiu uma densa gramatura narrativa que parecia não estar mais ao seu alcance. Ocupou o proscênio e não mais o largou. A partir da obra-prima O Teatro de Sabbath (1995), Roth publica, incansável, um grande livro após o outro. É impreciso o motivo exato dessa virada. O que se pode afirmar, no entanto, é que esse renascimento, esse encontro de sua prosa com uma substância que lhe fizesse justiça, em parte é fruto do enamoramento de Roth com o potencial ficcional da história. O arco de narrativas que vem de Pastoral Americana (1997) ao agora editado no Brasil Indignação é um contra-relato da história estadunidense oficial.
Borges não disse nem afirmou, mas assim como lhe pareceu a Filosofia ser um tramo marginal da literatura fantástica, pode-se ver a História como filha metódica dos romances de aventura. Tanto a narrativa da História como a narrativa da Aventura possuem o mesmo nó: um homem perdido na voragem dos acontecimentos; instabilizado, no olho da tormenta. Seus atos são desencontrados; o texto organizado ao seu redor sabe mais que ele; e no final da narrativa, quase sempre, sua vida assume um sentido exemplar. Borges chamava atenção para uma aproximação de poéticas entre o metafísico, o fantástico e o sobrenatural, sugerindo que a diferença entre o filosófico e literário era de artifício. Buscavam a mesma coisa: apenas cerceavam-na de forma diferente. Romancistas e historiadores são irmãos de sangue, separados pelo método (ou gênero). E nesse contexto, não é absurdo afirmar que o historiador Carlos Ginzburg, por exemplo, com sua verve imaginativa e apurado senso de detalhes, é o melhor "romancista" europeu contemporâneo. Basta, para isso, ler de outro lugar.
Considerando que ficção é repetir em diferença, tanto o historiador como o romancista trabalham-na em chaves divergentes. Quanto mais próxima da materialidade dos fatos, quanto mais "exata" for essa repetição, melhor e mais persuasiva será a narrativa historiográfica. No entanto, para funcionar, o romance precisa ir pela direção contrária, muitas vezes. Trabalham com a mesma essência, mas o gênero romanesco funciona com convenções mais desarticuladas. Nem tão factual e lógica, com um método delirante em que ser exato pode levar ao erro. Philip Roth tornou-se um entusiasta tão grande do potencial ficcional da História que tem uma ótima narrativa dedicada não apenas em repetir em diferença como também em explorar a possibilidade histórica de outra versão dos acontecimentos: o romance O Complô Contra a América (2004), em que imagina o que seria dos EUA caso Lindbergh, um entusiasta do nazismo, tivesse se candidatado e ganhado a presidência e, assim, alinhando-se com as políticas anti-semitas durante a 2º Guerra Mundial. Em literatura, criar uma narrativa sobre acontecimentos que nunca aconteceram é iluminar e comentar, de outro lugar, aquilo que sucedeu de fato. E nenhum romancista escapa da História porque os sujeitos sociais são marcados por ela.
O fortíssimo Indignação se alinha com a Trilogia Americana - Pastoral Americana (1997), Casei com um comunista (1998) e A marca humana (2000) - como um romance que traça comentários ficcionais de determinado momento da História estadunidense. Narrado pelo protagonista Mascus Messner (estratégia diferente da Trilogia, narrada por Zuckerman), Indignação se debruça sobre um momento emblemático da cultura estadunidense: o impacto que o envolvimento americano com a Guerra da Coréia provocou no cotidiano das pessoas. Como em todos seus livros de maturidade, existe no romance tanto a contumaz e persuasiva riqueza de detalhes como a cinética força vernacular de sua prosa. Roth narra mais uma vida exemplar: um indivíduo devastado pela virulência de sua época. Seu personagem é centrado e consciente, estudioso e responsável, e em Roth é a consciência que acaba tornando as personagens vítimas das circunstâncias. Basta que abaixem a guarda uma única vez para serem arrebatadas na voragem dos acontecimentos. Como o reitor da faculdade onde Messner estuda afirma, após controlar uma baderna, num dos momentos mais eloqüentes do romance: "A História é o palco. E vocês estão no palco". Não há fuga.
O romance, dessa forma, é menos sobre a Guerra da Coréia e mais sobre como uma cultura jovem, alimentada por um sentimento de inadequação aos valores hegemônicos da década de 1950, é "castigada" pelos mais velhos com o envio a uma Guerra violenta para onde se vai para morrer. Há sempre esse elemento estrangeiro demolidor em todas as narrativas de maturidade de Roth: é o macarthismo em Casei com um comunista; o politicamente correto em A marca humana; a morte progressivamente materializada em doenças em Homem Comum; a impotência e velhice em O Teatro de Sabbath. Há uma mesma trajetória nas personagens de Roth - reconhecimento do perigo, rendição consciente ao risco, e vertigem destrutiva pelo meio social -, e o sofrimento infligido acaba, no sentido fechado da obra, por tornar essas vidas exemplares. São construídas como se fossem núcleos a partir dos quais se podem construir comentários ficcionais de determinado momento histórico assumindo o olhar de quem está dentro da tormenta. Indignação, no entanto, é um livro mais simples, já que Roth usa, com exceção do brevíssimo epílogo, a própria voz de Messner, que está macerado por feridas fatais, delirando pela ação da morfina. Ao ter Zuckerman narrando os livros da Trilogia Roth criava, de forma sofisticada, outra camada ficcional: sobre a voz da personagem relatando seus conflitos, existia a voz de Zuckerman deslocando para outro contexto os sentidos daquela narrativa que apropriava. Ao mesmo tempo em que narrava o mundo da personagem como ela o via, desmontava o que acabava de narrar trazendo os acontecimentos para sua perspectiva, amplificando assim as ambigüidades das interpretações. Em Indignação, resta ao leitor simpatizar ou não com a versão delirante de Messner dos fatos. Não é pouco, é um grande livro; e apesar de não ser tão impactante quanto a Trilogia, e mais uma cintilante pérola no colar maduro de suas recentes narrativas.
Terra Magazine
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AFP
Renascimento de Philip Roth está ligado ao enamoramento pelo potencial ficcional da história, avalia Jatobá
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