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Quinta, 25 de junho de 2009, 08h10

É ainda mais espantoso

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Pasquale está ameaçando seus leitores do Correio Popular, de Campinas, SP, com uma série de artigos sobre vírgula. No primeiro (19/06/2009), diz, entre outras coisas:

"... não custa (re)lembrar que é pura lorota a idéia de que é a respiração que determina quando e onde se emprega vírgula (...). Essa falsa tese decorre - provavelmente - da inversão do raciocínio: como a vírgula muitas vezes indica uma pausa, supõe-se (erroneamente) que a toda pausa corresponde uma vírgula. Quando o sujeito da oração é longo (...), é normal que, na leitura, haja uma pausa entre ele e o verbo, o que não significa que se deva colocar uma vírgula entre esses dois integrantes da oração" (as ênfases são minhas).

O trecho revela alguma falta de leitura e muitas imprecisões - em geral, piores do que os erros. Vamos por partes. Começo comentando as palavras grifadas, que revelam as imprecisões. Em qualquer texto que Pasquale porventura viesse a ler sobre o tema e que estabelecesse alguma relação entre vírgulas (ou pontuação em geral) e respiração ou pausa ou mudança de entonação, ele jamais encontraria nenhum dos três "raciocínios" que os itálicos identificam (ponho a palavra entre aspas porque não se trata, de fato, de raciocínios).

Uma respiração (que, para os estudiosos do ritmo, não coincide necessariamente com o ato fisiológico de respirar, embora tenha com ele uma sólida relação), nunca determina a colocação de uma vírgula. Mas muitos assinalam que ela tem alguma coisa a ver com sinais de pontuação, aí incluída a vírgula (darei exemplos oportunamente).

Nenhum desses estudiosos dirá que se trata de fazer ou não pausas na leitura, qualquer que seja o fenômeno envolvido (p. ex., sujeito longo). No entanto, os que estudam a história da escrita são unânimes em dizer que muitos sinais de pontuação são para orientar pausas (em sessões públicas, em peças teatrais), mas sempre assinalam que essas marcações incluem também outros sinais, que não fazem parte usualmente dos que as gramáticas listam, analisam e ensinam a usar. Por exemplo, duas barras.

Outra imprecisão diz respeito à ocorrência de "deva colocar": caso se demonstre alguma correlação entre sujeitos longos e ocorrência de vírgulas, o fato não tem nada a ver com obrigação de colocar vírgulas, pois não se trata de uma regra no sentido normativo. Repito: se houver vírgulas nessa posição, trata-se de um fato (se se quiser, considere-se até que é um erro a ser corrigido). O fato é que ocorrem muitas vírgulas depois de sujeitos longos (e algumas também depois de sujeitos curtos), o que precisa ser compreendido, e não apenas criticado. Compare-se o número de vírgulas que ocorrem após o sujeito e as que ocorrem antes de objetos - especialmente se ambos estiverem próximos do verbo. A enorme diferença deveria chamar a atenção de qualquer estudioso da língua (eu disse "estudioso").

Essas imprecisões mostram como o professor lê. Se é que lê, porque nunca cita suas fontes, especialmente as que critica. Pode ser que tenha apenas ouvido falar vagamente de teses semelhantes e que as tenha reduzido a esses pobres simulacros.

Trato, em seguida, rapidamente, de uma questão teórica e metodológica. Nada ilustra melhor a diferença entre os estudos que circulam entre nós como se fossem de gramática e os estudos dos fatos lingüísticos, sejam feitos por gramáticos de verdade, sejam feitos por lingüistas. Os gramáticos e os lingüistas descrevem fatos que observam. Os pseudo-estudiosos apenas dão ordens, baseados em seus resumos. Aqueles, com métodos diversos, analisam os dados que consideram importantes (escritos ou falados). Os resumidores, os diqueiros, os **gadores de regras esboçam esqueminhas e os aplicam às cegas.

Um bom exemplo é o que Pasquale chama de inversão de raciocínio: o que ele diz revela que acha que as línguas nasceram escritas. Deve ser, pois só assim ele pode falar do efeito de vírgulas na leitura, e dizer coisas como a seguinte: "como a vírgula muitas vezes indica uma pausa, supõe-se (erroneamente) que a toda a pausa corresponde uma vírgula".

É fácil ver que o raciocínio invertido é o dele. A verdadeira questão não é como deve falar quem está lendo uma frase. A verdadeira questão é o que deve fazer quem está escrevendo uma frase.

Concedamos que Pasquale tem alguma razão: se estou lendo e não há sinais de pontuação, posso ter alguma dificuldade de compreensão (em geral, se resolve apelando para outros fatores ou para outros trechos do texto). Mas qualquer pessoa letrada (um revisor de textos, um professor que lê redações) sabe que, em casos assim, é relativamente fácil colocar os sinais de pontuação adequados. Isso só não funciona em pegadinhas, mas então estamos no reino do humor, não no da gramática (Ex: Folha não. Dá pra não ler). Enfim, a questão verdadeira é saber qual é o fenômeno que as vírgulas marcam (para ficar no tema do professor). Em outras palavras, a questão crucial é quando e por que se inclui uma vírgula em quais lugares.

Pasquale dá exemplos, que "analisa" (as aspas valem o mesmo que as acrescentadas em "raciocínio"). São eles: "Minha pequena dorme" e "Minha pequena, dorme".

Diz que a função sintática de "minha pequena" depende da presença ou da ausência de vírgula. Pois eu digo que é o contrário. É a vírgula que depende da função sintática. Se afirmo (falando) "Minha pequena dorme", faço isso com determinada entonação (nos livros que estudam essas coisas, a entonação típica das asserções é representada basicamente por uma curva descendente). Em frases curtas como essa, provavelmente não há nenhuma outra mudança de entonação relevante. Por isso, não há vírgula. Apenas um ponto final.

Mas, se me dirijo à minha pequena, tenha ela o tamanho que tiver, para pedir-lhe ou suplicar-lhe que durma (se se trata de um pedido, não uma asserção), faço isso com determinada entonação, que inclui certo destaque para "minha pequena", e que não inclui uma curva descendente final. Se falo nessa entonação, com ou sem pausa, cabe uma vírgula depois de "minha pequena". Ou seja, coloca-se vírgula ou não se coloca segundo se trate de um pedido ou de uma asserção. Com ou sem pausa, repito. A vírgula representa uma entonação, talvez uma pausa (e não contrário!).

Pasquale já expressou essa posição invertida em textos anteriores. Lembro um sobre as explicativas. Ele repetia o velho macete de ensinar que as adjetivas explicativas são aquelas que estão entre vírgulas. Pois insisto em dizer de novo que é o contrário: se há uma explicativa, então coloca-se uma vírgula. As gramáticas definem explicativas por critérios bem decentes: por exemplo, dizem que se trata de uma predicação necessária, como "(que é) animal" para "cão".

Em suma: o professor Pasquale encara a questão da vírgula como se se tratasse sempre e apenas de ler, nunca de escrever e muito menos de falar. Ora, língua falada também é língua, e é provavelmente anterior à escrita. E há relações (complexas) entre as duas modalidades. Os sinais de pontuação servem para representar na escrita alguns fenômenos típicos da fala.

Um bom teste para as teses de Pasquale (que, insisto, não se encontram como tais nas gramáticas de verdade) seria transcrever fitas, sejam escutas policiais, sejam entrevistas. Então fica bem claro que há alguma relação entre respiração, pausa, entonações etc. e sinais de pontuação. Inclusive vírgulas.

Diga-se, em seu favor, que progrediu muito na avaliação das variedades, pelo menos das regionais. Mas continua achando que elas só valem para a fala. Vejam o que diz sobre possíveis diferenças entre o que se ouviria em S. Paulo e no Ceará: "Como se vê, a língua oral tem normas que nem sempre são as que se observam no registro formal da língua (vê-se que identifica formalidade e escrita, como se não houvesse fala formal e escrita informal, pelo menos). É bom que se diga que isso não é nem bom nem ruim, nem certo nem errado. É como é e fim" (ênfase minha). É enorme progresso, embora um tanto mal assimilado. Minha aposta é que um dia compreenderá isso mais adequadamente. É uma questão de estudar.

(Na próxima semana, vou citar gramáticos que falam das relações entre língua falada e escrita no que se refere à pontuação. Com aperitivo, vai uma citação: Poças e Athanasio: "os sinais gráficos (...) têm por finalidade (...) facilitar a respiração na leitura". Outra, de Ribeiro: "indicar a proporção das pausas que faz quem fala ou lê ou atender à necessidade fisiológica de respirar". Outra, de Bueno: "serve para auxiliar a respiração...").

O leitor verá que tem muito mais!


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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