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Quinta, 25 de junho de 2009, 10h12

Dez anos de metas de inflação

Antonio Corrêa de Lacerda
De São Paulo

Na próxima semana o Conselho Monetário Nacional (CMN) se reúne e deve fixar a meta de inflação para 2011. Defendo que o CMN deva manter a meta de inflação de 4,5%. Isso porque dada a combinação de políticas macroeconômicas em prática no Brasil, uma diminuição da meta só servirá de álibi para a manutenção de uma política monetária excessivamente conservadora.

Há de fato evidências no enfoque baseado na teoria econômica ortodoxa de que internacionalmente uma meta mais apertada tende a levar a uma inflação mais baixa, na medida em que faria convergir as expectativas para uma menor variação de preços e que tenderia a se consolidar na prática.

O sistema de metas de inflação (SMI) que está completando dez anos de implantação no Brasil tem suas virtudes, mas também debilidades. A virtude foi a de ganhar relativa credibilidade, o que proporcionou maior previsibilidade na política monetária e um horizonte mais transparente para o planejamento e decisões dos agentes econômicos.

No entanto, o SMI também apresenta grandes distorções. A primeira é que a meta é definida e acompanhada com base na inflação "cheia" (o IPCA). O ideal seria focar em uma inflação núcleo, mais liberta das influências conjunturais e também do grande impacto da indexação remanescente de preços ao IGP e IGP-M, como tarifas, aluguéis e outros.

Destaque-se que estes índices sofrem muita influência do comportamento dos preços no atacado e da taxa de câmbio. Ou seja, toda vez que há um choque de preços de commodities ou no câmbio, há um aperto na política monetária para derrubar os preços livres de forma a compensar os demais aumentos e fazer convergir a inflação média para a meta.

A segunda anomalia está no horizonte muito curto de foco do SMI, o que engessa demasiadamente a política monetária. O ideal seria flexibilizá-la considerando um horizonte mais amplo, de 24 ou 36 meses, por exemplo. Toda política econômica envolve escolhas; e o que deveria definir o conjunto das escolhas é relação custo-benefício de cada medida.

O terceiro ponto é o critério de captura das expectativas do mercado por meio do Boletim Focus, que tem se mostrado enviezado. Isso porque o boletim publicado semanalmente pelo Banco Central do Brasil (BCB), que expressa as expectativas do comportamento dos principais indicadores futuros, é excessivamente centrado no mercado financeiro. Seria oportuno captar também as expectativas do setor produtivo, da academia e outros segmentos importantes da sociedade.

A prática leva a uma situação em que as expectativas tendem a se auto-referendar. O "mercado", com forte repercussão na mídia, expressa o que acha que o Copom vai fazer em cada reunião. Este, por sua vez, invariavelmente, tende a atender às expectativas do mercado, gerando um pseudo-consenso.

Talvez esse viés de foco ajude a explicar alguns evidentes erros de diagnóstico do Copom, expressos na Ata das suas reuniões. Isso fica especialmente evidente quando a economia dá grandes viradas, o que só aparece nos indicadores com defasagem, como o que ocorreu no quarto trimestre do ano passado, com o agravamento da crise internacional. Ao olhar fundamentalmente para o retrovisor, o BCB procrastinou a redução da taxa de juros no Brasil e nos fez importar uma parcela maior da recessão dos países ricos.

Por último, mas não menos importante, é a debilidade de o SMI ser o único objetivo explícito do conjunto das políticas macroeconômicas. Ou seja, ao centrar o foco da calibragem dos juros exclusivamente no curto prazo e na inflação, desconsidera outros efeitos importantes sobre o nível de atividades, câmbio, investimentos, emprego e renda, além do custo de financiamento da dívida pública.

Assim, por todos esses motivos, o melhor mesmo é manter a meta, a despeito da possível vantagem que poderia trazer reduzi-la. Enquanto persistirem as distorções apontadas, na prática a meta de inflação acaba prevalecendo, fazendo com que todos os demais objetivos lhe sejam subordinados, o que não é desejável.

Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e autor, entre outros livros, de "Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil" (Saraiva). Foi presidente do Cofecon e da SOBEET.

Fale com Antonio Corrêa de Lacerda: alacerda@terra.com.br

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