Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Fernando Eichenberg

Segunda, 29 de junho de 2009, 08h14

Lavando as mãos: médico francês estuda a higiene

AP
Gripe suína muda comportamento social sobre higiene
Gripe suína muda comportamento social sobre higiene

Fernando Eichenberg
De Paris

A gripe suína fez algumas pessoas mudarem seu comportamento social. Por aqui, muitas delas, seja na brincadeira de sorriso amarelo ou por um real temor de contaminação, chegavam a recusar a mão para o cumprimento ou a afastar a face na hora dos dois beijinhos. Mas a paranóia de hoje já foi recentemente sustentada cientificamente pelo médico francês Frédéric Saldmann.

Você sabia, por exemplo, que ao cumprimentar alguém que saiu do toalete sem lavar as mãos corre o risco de, uma em cada três vezes, ser contaminado por germes fecais dessa pessoa em sua boca? A desagradável constatação não surgiu em nenhum papo de bar, mas é fruto de uma pesquisa científica. Em dezembro de 2006 e janeiro de 2007, Frédéric Saldmann fez dois estudos práticos para medir o número de germes presentes em pessoas que apertaram a mão de um indivíduo portador de bactérias fecais por não ter lavado suas mãos após ter utilizado o banheiro. Os resultados obtidos não foram nada higiênicos.

A primeira experiência revelou que 11 entre 15 pessoas (73%, equivalente a três em cada quatro) foram infectadas por bactérias em suas mãos. Dez pessoas contraíram a bactéria fecal Escherichia coli e, uma outra, a Tatumella ptyseos. No segundo teste, nove das 18 pessoas testadas (50%, uma em cada duas) tinham em suas mãos diferentes germes fecais. Duas horas depois do apertar de mãos foram feitas também análises nas bocas de cada um dos participantes da experiência. Nesse intervalo, foram oferecidos café e biscoitos. Todos tocaram a boca com as mãos, seja para comer os biscoitos, disfarçar um bocejo ou proteger uma tosse ou um espirro. No total, sete pessoas foram contaminadas por germes fecais (39%, uma em cada três).

Esse é apenas um dos alertas contidos no livro On s'en lave les mains (ed. Flammarion - Lavam-se as mãos, na tradução literal, ), do médico francês especialista em higiene alimentar e cardiologia, diretor da revista Nutrição Prática e autor do best-seller Os novos riscos alimentares (ed. Ramsay). "Testes revelaram que 50% das pessoas não lavam as mãos no toalete. É enorme! O índice cai para 9% se colocarmos alguém permanente no banheiro. As pessoas têm vergonha de não lavar as mãos se há alguém olhando", notou o médico, quando o entrevistei na época do lançamento de seu livro.

As mãos são vetores privilegiados de transmissão de germes originários das vias respiratórias - gripe, rinovírus - e do tubo digestivo - cólera, estafilococo, salmonela -, suscetíveis de provocar diarréias graves ou úlceras gástricas. Um outro estudo, feito com 400 estudantes residentes na Universidade do Colorado, nos EUA, divididos em dois grupos, provou a capacidade contaminadora das mãos. Ao primeiro grupo foi oferecido em todos os locais (cantina, quartos, banheiros) soluções para a lavagem das mãos. O segundo, instalado em outro prédio, foi privado de qualquer equipamento ou incentivo para a higiene das mãos. Em seis meses, na comparação, o primeiro grupo obteve melhores resultados: menos 20% casos de doenças, principalmente respiratórias, e menos 43% de ausência nas aulas motivada por enfermidades.

Os germes originados das vias respiratórias não resistem por muito tempo nas mãos, ao contrário daqueles saídos dos intestinos, que podem durar horas, exceto se as mãos forem lavadas corretamente. Sim, porque não basta lavá-las, mas saber como fazê-lo: secar é tão importante como bem enxaguar e esfregar com sabão. Testes provaram que mãos secas transmitem quinhentas vezes mais bactérias do que mãos úmidas. Segundo uma pesquisa feita pela European Association for the Promotion of Hand Hygiene com 7.700 usuários de sanitários coletivos na França, na Alemanha e na Holanda, 34% das pessoas observadas não secaram as mãos após a lavagem.

Frédéric Saldmann condena as toalhas coletivas e os secadores de ar quente. Um estudo divulgado na publicação Techniques hospitalières, em 1998, revelou que o número de germes presentes na pele de pessoas que secaram as mãos em aparelhos de ar quente é superior à quantidade que havia antes da lavagem. O fluxo de ar aspira os germes dos usuários e os multiplica pelo calor e a umidade. O teste verificou o número de germes nos 24cm2 de pele da superfície das mãos de dois grupos de pessoas. No grupo que secou as mãos na toalha rolante, havia, em média, 137 germes antes da lavagem e 47 depois da secagem. No grupo que usou o sistema de ar quente foram registrados 127 germes antes da lavagem e 206 depois da secagem.

A utilização da privada também requer certas regras de higiene, diz o médico. Um outro estudo mostrou que a descarga produz um efeito aerossol que pulveriza os germes no ambiente: a superfície dos azulejos, antes estéril, foi colonizada de bactérias e vírus provenientes das gotículas projetadas. Notou-se, inclusive, agentes patogênicos no papel higiênico à disposição do próximo usuário. Nos EUA, outra pesquisa revelou que um terço dos americanos puxa a descarga estando ainda sentado na privada, o que representa um risco de contaminação. A regra higiênica é simples, diz Saldmann: puxar a descarga com a tampa da privada fechada.

Na lavagem do corpo, o médico recomenda o chuveiro, mais higiênico do que o banho de banheira, um hábito francês. O ideal, diz, seria se lavar duas vezes ao dia, pela manhã e à noite. E sempre se lavar no sentido de alto para baixo, para que a água leve junto as sujeiras para o ralo. Em 1850, os franceses tomavam uma média de um banho por ano. Em 1960, apenas um em cada três francês dispunha de uma sala de banho no domicílio. "Mas faziam uma toalete minuciosa, da cabeça aos pés, na única pia da casa", contemporiza o médico.

Saldmann alerta também para a ameaça bacteriológica do telefone celular. Pesquisadores americanos constataram a presença, em média, de 20.900 micróbios por cm2 nos hoje incontornáveis aparelhos. O número elevado é explicado pelas microgotas constantemente projetadas no ato de falar e também pelo fato de que raramente se limpa o aparelho. O médico lamenta que os cursos de higiene nas escolas francesas tenham sido suprimidos a partir dos anos 1960: "Com o surgimento dos antibióticos, acharam que não precisava mais. Foi um erro, porque hoje há cada vez mais germes resistentes aos antibióticos", nota.

Para aqueles que acham que suas recomendações valem apenas para franceses desleixados, previne. "Vou seguidamente ao Brasil, país que adoro. E tudo que digo para a França é 100% verdadeiro para o Brasil. Os problemas são os mesmos, e ainda agravados por causa do calor e da umidade do país".

Sem menosprezar a competência do médico - nem ironizar o histórico francês em relação à higiene -, para seguir à risca todos os seus conselhos, melhor talvez sair à rua com luvas de borracha e viver isolado em uma bolha de plástico.

Epidemias de gripe à parte, um pouco de convívio com bactérias será que não faria bem para os anticorpos, tão necessários a nossa sobrevivência?


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há doze anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Fernando Eichenberg vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela