
Atualizada às 08h33 |
Reuters
Marcelo Carneiro: Em matéria de maldade, Irã é uma madrasta
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Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Em uma das muitas cenas perfeitas do filme "O Espelho", que se passa em Teerã, uma menininha, de uns sete anos, precisa pagar a sua passagem ao motorista, láaaaaaa na frente do ônibus, e então correr até láaaaaa atrás, (o ônibus é um bi-articulado, enorme) até o lugar reservado às mulheres, tão humilhante e segregado quanto um ônibus nos odiosos anos do racismo legalizado no Sul dos Estados Unidos.
Assim é a vida das mulheres na república islâmica do Irã, e agora que a eleição presidencial foi roubada e o representante do regime reeleito, elas, as iranianas, assim como muitos bons iranianos, chegaram à conclusão de que era demais. Outros tantos anos vivendo essa não-vida seria insuportável, melhor partir pra luta.
Não sei o que move vocês, estimados milhares de leitores, mas eu sou movido por algo que me faz querer estar com os injustiçados do momento, por sentir que ninguém é livre de verdade ou está bem de verdade quando sabe que, ao seu redor, muita gente está sendo privada da liberdade mais básica, ou sofrendo injustiça da feia, daquelas de madrasta contra a tadinha da Cinderela.
E, estimados leitores, em matéria de maldade, o regime do Irã me saiu uma madrasta de livro de assustar criança, e, portanto, ninguém é hoje menos livre e mais injustiçado do que os iranianos - e, sendo o lugar uma tal República Islâmica -, ninguém, mas ninguém mesmo, é menos livre e mais injustiçado do que as mulheres iranianas.
Talvez a Coreia do Norte seja pior, mas a Coréia do Norte não é exatamente um país, e sim um pesadelo, que vai terminar, logo, logo. O Irã está aí desde sempre, e vai continuar estando, a não ser que alguém realmente resolva dar um basta no programa nuclear deles e do maluco do presidente deles, ilegitima e recentemente eleito.
Na verdade, quem manda na banda são os aiatolás, os líderes religiosos que controlam o Irã desde que inventaram a tal Revolução Islâmica, sob o gentil comando do Aiatolá Khomeini, vocês lembram? O único sujeito do ramo das religiões organizadas que consegue ser mais assustador do que o Edir Macedo e o Papa Bento XVI? Esse.
Nenhum país criado sob aquelas sobrancelhas pode ser um lugar bacana, e disso sabem as mulheres de lá, como ninguém. Eles proíbem tudo, minha gente. Tudo não pode. Eles executam pessoas o tempo inteiro, adolescentes inclusive. O presidente deles diz que não houve Holocausto, que não há gays no Irá, e isso é o presidente do país!!
Agora, que a eleição foi mais manipulada do que a que reelegeu o Bush, o povo iraniano, ou a parte pensante e com alguma sensibilidade, resolveu que a coisa toda passou do limite, até mesmo para os limites iranianos. E essas pessoas viraram multidões e foram para as ruas.
Essas multidões são desarmadas, estimados leitores. Do outro lado, estão a polícia, e pior: os Basiji, um tipo particularmente maluco de gente, que defende cegamente o regime e que é utilizado por ele como os cachorros loucos do governo, que os arma, dá motocicletas, e solta para cima das milhares de pessoas que se manifestam democraticamente, tentando lutar pelos seus escassos direitos.
E as mulheres seguem ali mesmo, firmes. Elas sabem, estimados leitores, que é agora ou nunca. Que ou lutam, com o apoio dos homens de bem, ou voltam para a escuridão, por mais tempo, por mais anos ainda.
Uma delas foi morta em uma manifestação, dias atrás. Neda, uma jovem de 26 anos e que virou símbolo da luta contra a barbárie. Eu gostaria que todos lessem a respeito, e se sentissem um pouco Neda nessa dia de hoje.
Eu cresci no Brasil do regime militar, e lembro da nossa frustração, de nosso sentimento de impotência diante da repressão e da burrice a que éramos submetidos. Lembro da sensação de não agüentar aquilo, que me levou a passar um tempo fora do país, num exílio voluntário. Lembro de chegar de volta e dar de cara com o novo processo democrático, com a criação do PT, com o movimento das Diretas Já. Lembro do nosso desafogo, e olhem que não lutávamos contra nada minimamente comparável ao que vivem os iranianos em geral, as iranianas em particular.
Posso minimamente imaginar o que eles e elas vivem e sentem e, por isso, posso tanto me comover profundamente com o que eu vejo, quanto dizer a eles que por favor não cedam. Se eles insistirem, se apanharem mais um tempo, se sofrerem mais um tempo, se morrerem mais um tempo, o regime cai.
O custo é trágico, mas a vitória trará aquela coisa que ninguém sabe descrever ou explicar direito, mas que todos nós, desde os 300 espartanos da luta contra a opressão persa, 2500 anos atrás, sabemos. Existe algo, uma coisa sem explicação, mas que existe, e que vive no nosso peito, e que exige de nós tudo, para que possamos ter e essa coisa tão desgastada no discurso e tão presente na alma, que é a liberdade.
Hoje, quem morre por ela são as iranianas. E eu, do meu jeito nada militarizado, do jeito que eu puder, peço para que elas me deixem, daqui de longe, ser uma delas, ao menos por hoje.
Neda morreu por isso. Devemos nós, do nosso lado e em quanto pudermos, lutar pela mesma crença que levou Neda até a praça onde ela levou o tiro que a levou. Devemos afirmar que acreditamos num mundo de pessoas livres, que defendemos esses mesmos princípios e que eles valem para todos.
É importante lembrar que nós, brasileiros e brasileiras, com todos nossos problemas e carências, temos liberdade. Neda não tinha. Foi às ruas, morreu. Se ao menos o Irã se transformar, se o regime cair, ou ao menos tremer, não vai ter sido em vão. O sacrificio dela vai ter sido um investimento em um mundo melhor.
A cor verde se tornou o símbolo dessa luta. Por isso, se você tiver algo verde, qualquer algo, vista e use nessa sexta. É assim, nos detalhes, que a luta segue, as pessoas mostram a sua solidariedade e o mundo melhora.
Terra Magazine