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Sexta, 26 de junho de 2009, 11h02 Atualizada às 11h08

Entre Bibi e Procópio e a chegada de um Mitterrand

Deolinda Vilhena
De Santos (SP)


Há 26 anos cantando Piaf
Foto Omar Freira/Imprensa MG

Meus caros ainda estou passada com o sucesso da coluna anterior, Basta de lero lero, na qual emitia a minha modestíssima opinião sobre a Lei Rouanet e suas deformações. Até então acreditava que essa coluna tinha no máximo 17 leitores. Os e-mails recebidos, tendo em muito ultrapassado esse número, foram um belo desmentido. Quero responder a todos com atenção e carinho, quero responder aos que me fizeram perguntas variadas e pertinentes. Entretanto, escrever sobre um assunto tão importante quanto polêmico exige cuidado, ou corremos o risco de cair exercer ilegalmente a leviandade. Deixo para a próxima coluna, falemos hoje de Bibi, de Procópio e de Frédéric.

BIBI CANTA E CONTA PIAF

Mesmo os que não morrem de amores por Bibi Ferreira - acreditem, eles existem - sabem que quando ela canta Piaf não sobra para ninguém. Brincávamos muito nas coxias dos inúmeros teatros pelos quais passamos com Piaf, Bibi 1, Bibi 2, Bibi canta e conta Piaf, dizendo que ela havia sido a maneira que Edith Piaf encontrou para continuar a cantar. No nosso dia a dia de mambembe, Piaf era quase um "encosto". Bibi que não acredita em nada, apenas no resultado da bilheteria, ria das minhas bobagens...

Afirmo que Piaf é seu maior sucesso, ela nega, costuma dizer que foi "Senhora" de José de Alencar que ficou oito anos em cartaz...Piaf está há muito mais tempo. Verdade que foi peça, virou concerto, foi pocket show, tem mil e uma versões, mas há quase três décadas Bibi canta e canta Piaf.

Costumo dizer que isso foi castigo. Para pagar a língua, porque na verdade, verdade mesmo ela gostava era da Judy Garland, em boa cinéfila e anglófona que sempre sonhou com os musicais hollywoodianos.

A saga Bibi-Piaf - idéia de Pedro Carlos Rovai, é bom sempre dar a César o que é de César - começou no Teatro Ginástico em maio de 1983 com a peça Piaf - A vida de uma estrela da canção. A necessidade de um subtítulo explica-se facilmente, Piaf era conhecida apenas pela elite intelectual brasileira, vinte anos após sua morte o grande público desconhecia sua existência.

Foram cinco anos em cena, mais de um milhão de espectadores - primeiro espetáculo brasileiro a alcançar essa marca - recorde de público em 55 cidades, seis meses de temporada em Portugal, no Cassino do Estoril, onde os recordes de bilheteria se sucediam noite após noite.

Na era dos concertos sinfônicos, Bibi 1 e Bibi 2, as canções de Piaf levavam o público ao delírio. Em 92, foi convidada pelo Consulado da França para reinaugurar a Praça Paris, no Rio de Janeiro, e para a ocasião criou Bibi canta e conta Piaf que reúne o principal do repertório de Piaf, e na época era alinhavado pela narrativa da vida da grande dama da canção francesa pela voz de Tadeu Aguiar.

Em fevereiro de 1995 convidada pelo Canecão para cobrir o buraco deixado na agenda por Roberto Carlos que trocava o palco de Botafogo pela Barra da Tijuca, Bibi convida Gracindo Júnior para duas semanas de temporada às vésperas do carnaval. Desta vez com direito a orquestra e produzido por essazinha que vos escreve.

Em 2003, ao completar 20 anos cantando Piaf, Bibi fez uma temporada no Teatro da Maison de France, onde gravou ao vivo para a Biscoito Fino um DVD.

Nada mais natural que em pleno Ano da França no Brasil ela volte ao palco do Maison de France para uma curtíssima temporada de Bibi canta e conta Piaf. Na minha modestíssima opinião, Bibi deveria ser oficialmente nomeada a Musa do Ano da França no Brasil, poucos nesse país fizeram e fazem tanto pela difusão da cultura francesa quanto ela. Ou vocês acham que foi por acaso que a convidaram para cantar La Marseillaise, o Hino Nacional da França, em Ouro Preto no dia 21 de abril data da abertura do Ano da França no Brasil?

Aliás, dia 14 de julho, quando se comemoram os 220 anos da Queda da Bastilha, data nacional da República Francesa, Bibi Ferreira do alto dos 87 anos estará em cena no Maison de France cantando Piaf e La Marseillaise, além do Chant des partisans...A França não encontrará melhor oportunidade para condecorá-la com a Légion d'honneur.

M. Ovtchinnikoff, M. Goisbault, M. Pouillieute, M. Mitterrand, M. Sarkozy, ainda está em tempo, é só um de vocês querer. C'est à vous!

Juro que vou fazer esse artigo chegar a cada um deles, e quem achar que eu tenho razão pode enviar uma mensagem para meu email no pé da página, juntos talvez consigamos sensibilizá-los.

Os que estão no Rio de Janeiro, ou os que escolheram o Rio como destino nas férias de julho, comprem imediatamente seus ingressos. Acompanho o sucesso de Bibi/Piaf desde maio de 1983, sou especialista no assunto, e se os deuses não resolverem me contrariar daqui a pouco não terá mais um único ingresso à venda.

SERVIÇO BIBI CANTA E CONTA PIAF


ONDE? TEATRO MAISON DE FRANCE PSA PEUGEOT CITROËN
Avenida Presidente Antônio Carlos, 58. Rio de Janeiro
INFORMAÇÕES: (21) 2544 2533
BILHETERIA: De terça a domingo das 14 às 19h
PREÇO: PLATÉIA: R$ 70,00 / BALCÃO: RS 60,00
QUANDO? de 7 a 29 de julho - apenas terças e quartas-feiras - às 20h00

30 ANOS SEM PROCÓPIO


O maior ator cômico do Brasil
Foto de Augusto Galante

Telefono para Bibi querendo confirmar a data da morte de Procópio, estava em dúvida se era 18 ou 19 de junho, mas certa de que o ano era 1979...

Bibi responde assim: "18, porque com papai tudo era 8. Nasceu a 8 de julho de 1898, e morreu a 18 de junho de 1978".

Acho que ela se enganou. Insisto um pouco dizendo que estão comemorando os 30 anos da morte dele e, estamos em 2009. Ela afirma que foi em 1978. E agora José?

30 ou 31 anos que diferença faz? Importante é lembrar que num tempo onde não existia a televisão ele se fez conhecer e admirar por um país inteiro, transformando-se, como costuma dizer Bibi, num "misto de Xuxa e novela das 8" em termos de popularidade.

Segundo Getúlio Vargas, Procópio colocou muito mais cidades no mapa do Brasil do que muito cartógrafo. Foi um grande mambembeiro. Homem culto, refinado, amava a vida, teve diversas fortunas e perdeu todas. O que ganhava numa peça perdia em outra, e quando a bolsa estava cheia se mandava e passava seis meses em Paris no Hotel Georges V, querem prova maior de bom gosto e requinte?

Como se não bastasse nos deixou Bibi, "através dela viverei duas vezes", escreveu na dedicatória de um livro com o qual presenteou a filha. Só lamento não ter tido tempo de vê-lo em cena.

Passeando pela internet descobri um blog do Maurício Arruda de Mendonça (Clique aqui) e nele uma foto e uma das muitas histórias que fazem de Procópio uma lenda do teatro brasileiro, contada por Roberto Koln ao próprio Maurício.

A história se passa em 1959, há exatos 50 anos, na primeira visita de Procópio a Londrina: "Na época em que o Grupo Permanente de Teatro estava apresentando o 'O Rapto das Cebolinhas', foi que me aparece um dia Procópio Ferreira. Ouviu falar que havia um teatrinho muito bonito em Londrina, e que havia um grupo de teatro fazendo um trabalho sério. Eu disse: 'Por favor', tapete vermelho, Procópio Ferreira! Ele ia fazer só um fim de semana o monólogo 'Esta Noite Choveu Prata', do Pedro Bloch, em que ele fazia os três personagens. Conclusão: ficou quinze dias com casas lotadas. Ficou morando em Londrina por quinze dias e se apresentou no nosso palco do GPT na Rua Goiás. Eu levei o Procópio até lá pra conhecer, e levei mais alguém comigo. Não tinha refletor oculto por bambolina. A operação da luz era na chave direta. Sei que eu estou ao lado do Procópio Ferreira, e alguém vai acendendo as luzes, e foi-se iluminando o cenário de 'O Rapto das Cebolinhas' que estava lá montado: a árvore iluminada por trás, a cerquinha toda iluminada por trás, e as luzes foram acendendo, e, quando eu olho, o Procópio Ferreira estava chorando... É! O cenário era do Hans Müther".

UM MITTERRAND NA CULTURA


Mitterrand na chegada ao Palácio do Eliseu
Foto: Serviço foto Elysée/L.Blevennec

A maior surpresa na renovação do ministério de Nicolas Sarkozy após dois anos de mandato presidencial foi a nomeação de Frédéric Mitterrand, 61 anos, como ministro da Cultura e das Comunicações da França, substituindo Christine Albanel.

Sobrinho do ex-presidente socialista François Mitterrand, Frédéric é um cinéfilo apaixonado, especialista das cabeças coroadas da Europa, formado em Letras pela Universidade de Paris X - Nanterre, Mestre e Doutor em História e geografia, com um diploma do Instituto de Estudos Políticos de Paris, mais conhecido como Sciences Po Paris, berço da nata da inteligência francesa. Nos anos 70 troca a profissão de professor pela de gerente das salas de cinema de arte mais importantes da Cidade Luz. Nos anos 80, se lança na produção, realização e apresentação de programas de televisão dedicados ao cinema, entre os quais Étoiles et toiles (Estrelas e telas).

Escritor premiado, tendo recebido o prêmio Oscar Wilde 2000 pelo livro Un jour dans le siècle, e os prêmios Roland Dorgelès (2003) e Vaudeville (2005) por sua autobiografia La Mauvaise vie, que atingiu a considerável marca de 180.000 exemplares vendidos e na qual narra com pormenores sua já decantada homossexualidade.

Desde junho do ano passado dirigia a Villa Médicis em Roma. Para quem não sabe a Villa Médicis é um palácio romano cujos jardins, contíguos aos grandes jardins da Villa Borghese, abrigam a sede da Academia Francesa em Roma desde 1803. De considerável importância por sua forte presença e contribuição aos intercâmbios culturais e artísticos, sendo responsável pela organização de grandes exposições, concertos, colóquios e seminários nas áreas das artes, das letras e de suas respectivas histórias.

Currículo e experiência na área de atuação do cargo que ocupa não lhe faltam. Competência só o tempo dirá. Pois não há ciência que comprove que talento e competência sejam geneticamente transmissíveis.

Mas para uma apaixonada pela figura de estadista - produto em falta no mercado atual - de François Mitterrand, um dos últimos que conhecemos no século XX, é estranho, muito estranho ver chegar ao Palais de l'Elysée um outro Mitterrand, pelas portas do governo Sarkozy, de moto e com uma mochila na costas confirmando o estilo "dandy old-fashioned" que os coleguinhas franceses desprezam.

Convém lembrar, para não alimentar maiores expectativas que, embora digam que ele pertence a "gauche caviar" - versão francesa da nossa esquerda festiva -, em 1995 ele apoiou Jacques Chirac contra Lionel Jospin, candidato socialista indicado pelo tio François Mitterrand.

Entretanto, em matéria de cultura, o nome Mitterrand é forte em meu imaginário o suficiente para que eu torça pelo sucesso de Frédéric. Custo a crer que Sarkozy vá oferecer-lhe condições de trabalho semelhantes às oferecidas por François Mitterrand - primeiro e único - a Jack Lang, pois só assim ele poderá, talvez, quem sabe ser um digno herdeiro de André Malraux e do próprio Jack Lang, a quem - dizem as más línguas - ele detesta...

A nomeação de Frédéric Mitterrand acabou despertando uma vontade de entrevistá-lo na minha próxima temporada parisiense, vamos ver se consigo... Vou já, já tratar de agendar.


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos teatrais pela Sorbonne, pós-doutoranda em Teatro na ECA/USP com bolsa da FAPESP.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

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