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Sexta, 26 de junho de 2009, 14h29

A passagem ao ato (primeira parte)

Tony Monti
De São Paulo

Por anos, a dúvida tem sido um dos meus assuntos. A dúvida, antes de uma escolha ser feita, é uma das características da reflexão. Este momento é diferente dos fatos e das explicações do mundo. Me refiro à dúvida íntima, que está em um lugar que se opõe ao mundo objetivo exterior.

Tenho pensado sobre a dúvida de ângulos diferentes. Há momentos em que ela tende ao impasse. A paralisação vem de não se considerar satisfatória nenhuma das escolhas. As escolhas, neste caso, não são caminhos por onde ir. Há também outros casos em que não se anda, mas por indecisão. O impasse é às vezes produto de uma tendência ao perfeccionismo. Adia-se a ação por, de antemão, julgá-la imperfeita. Ou, no caso do indeciso, por não se ter certeza sobre o julgamento que se faz a priori das opções possíveis.

Esses quase sinônimos têm alma melancólica, acompanham os momentos em que não se consegue abrir mão de nada, em que se evita o risco do erro ativo ao mesmo tempo que se favorece a inação (que, quando é erro, tem as vantagens e desvantagens de ser discreta aos olhos dos outros).

Penso agora em mais uma ideia no mesmo campo semântico: polêmica. Apesar de admitir um sentido parcial neutro, a palavra carrega também uma inalienável característica belicista. Saímos então de uma dimensão íntima e partimos para uma disputa entre seres que se colocam em ação (guerra) para decidir sobre um fato concreto. A polêmica se dá entre mais de uma pessoa.

Eu usava (uso) a expressão "passagem ao ato" para definir essa fronteira em que a dúvida íntima passa a ter um objeto correspondente no mundo exterior, o instante entre refletir e agir. Mas descobri recentemente que, em psicanálise, esta expressão designa uma coisa bem específica: passagem ao ato é o momento em que alguém deixa de pensar coisas estranhas e começa a fazer coisas estranhas. Não é uma ação autêntica, é um ato irrefletido (ou alguma coisa que eu (ainda) não entendi).

Guardadas as diferenças, há semelhanças entre o limite que separa a dúvida da polêmica e o que separa a hesitação do ato. É uma transformação meio mágica do pensar em agir na qual o sujeito tem que arcar com as consequências de não ter certeza e de se apresentar para o embate com as coisas do mundo e com outros sujeitos.

Quando olho para a história da minha vida adulta, percebo que os momentos significativos se concentram em torno de fazer esta transição, que para mim costuma ser dolorosa. A dúvida agora é ajustar o modo como deixo de avaliar eternamente as possibilidades e me arrisco a marcar, no tempo, um instante humano, pela tomada de uma decisão, sempre sem os dados suficientes para a certeza antecipada.

Tony Monti é escritor, autor de eXato acidente (Hedra), o menino da rosa (Hedra) e O mentiroso (7Letras).


Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br

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