Terra Magazine

 

Quarta, 1 de julho de 2009, 08h15 Atualizada às 12h16

Edson Nery da Fonseca: memórias de um quase monge

Claudio Leal

"Fala, memória." O biblioteconomista e professor emérito da UnB, Edson Nery da Fonseca, 87 anos, não precisa recorrer ao apelo do escritor Vladimir Nabokov para fazer correr suas lembranças encantadoras e licenciosas da vida literária. De Gilberto Freyre a Otto Maria Carpeaux, oferece histórias de intelectuais brasileiros em papo cadenciado e, sem fazer força, irônico.

Edson Nery da Fonseca é uma das atrações da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que homenageia o poeta Manuel Bandeira. No domingo, 5, às 16h15, o professor dividirá suas memórias bandeirianas com Zuenir Ventura, ex-aluno do autor de "Libertinagem". A mesa terá mediação do jornalista Humberto Werneck.

De 1º a 5 de julho, a Flip vai reunir, entre outros escritores, Alex Ross, Gay Talese, António Lobo Antunes, Bernardo Carvalho, Chico Buarque, Milton Hatoum, Rodrigo Lacerda e Richard Dawkins.

Em entrevista por telefone a Terra Magazine, o ensaísta pernambucano rememora sua amizade epistolar e presencial com Manuel Bandeira, iniciada na década de 40. Não faltam brigas e inimizades. Descreve com precisão a troca de farpas e insultos entre o poeta de Pasárgada e o crítico Álvaro Lins, ex-chefe do gabinete civil de Juscelino Kubitschek (uma parte desse barraco histórico e histérico está contada no livro "Alumbramentos e perplexidades", de Edson Nery).

- Álvaro Lins ficou muito aborrecido (com um ataque de Bandeira no jornal) e telefonou pra ele: "Você é um filho da puta!". E o Bandeira respondeu: "Filho da puta é você, que é filho do padre Félix Barreto" - relata.

Para o professor, "Manuel Bandeira é um poeta a quem cabe o adjetivo de completo". Andou pelo romantismo, parnasianismo, simbolismo e modernismo, sem desprezar o epigrama. Estudioso das raízes recifences de Bandeira, Edson Nery da Fonseca organizou o livro "Poemas religiosos e alguns libertinos", publicado pela editora CosacNaify. E agora se prepara para lançar suas memórias, "Vão-se os dias e eu fico", título inspirado pelos versos do poeta francês Guillaume Apollinaire, no poema "Le pont Mirabeau".

Confessará um de seus arrependimentos: "Por que não me diz monge beneditino", embora não saiba se foi menos feliz por ter vivido fora da clausura. Outras confissões, segundo um amigo, são "nitroglicerina pura".

- Tenho 87 anos e meio, não vou lhe esconder, contarei no meu livro: não me casei porque sou homossexual. Agora, eu não sou de Parada Gay nem de coisas dessa canalhice.

Leia a entrevista de Edson Nery da Fonseca, também um dos maiores especialistas na obra de Gilberto Freyre, de quem foi amigo. Reside atualmente em Olinda (PE).

Terra Magazine - Como nasceu sua amizade com Manuel Bandeira?
Edson Nery da Fonseca - Comecei pedindo explicações sobre a passagem dele por Cabedelo (PB). Depois, em minha primeira viagem aos Estados Unidos, em 1951, fiz uma escala de alguns dias em Belém do Pará, e escrevi um artigo. Eu colaborava nessa época com o Diário de Pernambuco, o artigo foi "Pará, capital Belém", que é um verso de Manuel Bandeira: "Atirei um céu aberto/ Na janela do meu bem:/ Caí na Lapa - um deserto.../ - Pará, capital Belém!...". E depois tem um poema longo dele sobre o Pará, em que eu pude ver como ele sentiu bem aqueles aspectos turísticos de Belém - o cais, os navios de pesca, a história de chover todos os dias em Belém, marca-se encontros depois da chuva, etc. Quando fui morar e estudar no Rio, em 1946, eu fui várias vezes a um apartamentozinho dele, que ainda não era o último da Avenida Beira-Mar. Dava para um pátio interno. Era horrível, um apartamento muito pequeno.

Era o apartamento que inspirou o poema do pátio?
(recita): "Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos..." Bom, eu fui várias vezes ali. Inclusive, nessa época, no fim da década de 50, Gilberto Freyre me incumbiu de organizar um livro sobre ele próprio. Uma obra coletiva. E Manuel Bandeira se prontificou a assinar as cartas aos colaboradores dessa obra. Fui muitas vezes ao apartamento dele porque Gilberto Freyre, vaidoso como era, sempre inventava novos colaboradores. Saiu pela (editora) José Olympio, em 1962, sem dizer quem organizou. Quem organizou foi o próprio Gilberto Freyre. Chama-se: "Gilberto Freyre: sua ciência, sua filosofia, sua arte - ensaios comemorativos do 25º aniversário da publicação de Casa Grande & Senzala". Tem uma colaboração de Manuel Bandeira sobre Gilberto Freyre poeta. Os dois se davam muito bem. Gilberto chegou a ser hóspede dele quando ele morou em Santa Teresa. Ele assinava prazerosamente, só se recusou a assinar uma carta a um colaborador, de quem era inimigo, o Astrojildo Pereira.

O que houve entre os dois?
Em 1945, no Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, houve um confronto entre esquerdistas e direitistas. Nesse congresso, Manuel Bandeira foi acusado pelos esquerdistas de ter composto com Villa-Lobos uma canção de boas-vindas... As canções de cordialidade de Manuel Bandeira e Villa-Lobos. Tem a de aniversário, a de boas-vindas, a de Natal e a de Ano Novo. Chamavam de "canções de cordialidade". A canção de boas-vindas dizia assim: "Amigo, seja bem-vindo/ A casa é sua/ Não faça cerimônia/ Vá pedindo/ Vá mandando/ Seja seu, tudo o que tenho de meu/ E mais a divina graça/ Amigo, seja bem-vindo". Pois bem. Os comunistas espalharam que Villa-Lobos e Manuel Bandeira tinham feito isso para saudar uma comissão americana que estava no Brasil para emprestar dinheiro. Aí ele rompeu com os esquerdistas, e Astrojildo era comunista. Aliás, uma pessoa muito decente, conheci pessoalmente. Ele colaborou na hora. Mas Manuel Bandeira disse: "Carta para esse patife eu não assino!". Pedi a meu amigo Odilon Ribeiro Coutinho, que conhecia ele. Era um usineiro paraibano, um homem de letras. Odilon, muito amigo, foi quem pagou a cabeça de Manuel Bandeira ao escultor Celso Antonio.

Que está na Rua da União?
É, Odilon Ribeiro Coutinho pagou para ser indenizado pelo Estado de Pernambuco, e nunca foi. Como ele era um homem muito generoso, coisa rara em gente rica... Já morreu, era um dos meus melhores amigos. Eu me lembro da inauguração da cabeça, no apartamento do escultor Celso Antonio, num edifício de esquina, ao lado da Academia Brasileira de Letras. E a inauguração foi lá. Odilon deu uísque para os convidados. Uma caixa de uísque. Tinha lá um brasilianista americano, não lembro o nome, era um professor de literatura que queria conhecer escritores brasileiros e foi levado lá, não sei se pelo próprio Manuel Bandeira. E Bandeira começou a apresentá-lo aos presentes: "Aqui é fulano de tal, autor de tal livro...". Quando chegou a hora de Odilon Ribeiro Coutinho, Manuel Bandeira disse: "Aqui é Odilon Ribeiro Coutinho, autor deste uísque que estamos bebendo". (risos)

O senhor relata em "Alumbramentos e perplexidades" (Ed. Arx) uma inimizade entre ele e o crítico Álvaro Lins. Como é que foi esse barraco histórico?
Olhe, o Álvaro Lins foi meu professor no colégio e foi meu amigo até morrer. O Álvaro Lins era um católico praticante, mas tinha recebido a mensagem católica de maneira muito superficial e errada, que é o que os jesuítas fazem, centralizando-se no inferno e nas penas eternas. Coisa de Inácio de Loyola. Por isso Álvaro Lins tinha uma fé... Ele chegava a se persignar antes de comer. No entanto, era uma fé superficial, prejudicada por uma mensagem infantil que os jesuítas transmitiam, falando sempre em inferno e penas eternas, de modo que ele perdeu a fé, cedo. Quando começou a crítica literária no Correio da Manhã, em 1941, ele apresentou-se como "crítico católico". E olha que ele foi expulso do Colégio Nóbrega, dos jesuítas, em 1939, por ter escrito "A história literária de Eça de Queiroz". Os jesuítas eram portugueses tão burros que a gente perguntava ao padre que ensinava literatura: "Padre, que tal Eça de Queiroz?". E ele: "É um patife! Igual a outro patife francês que ele imita, o Zola!". O padre Villas-Boas dizia isso. Era ridículo.

Uma "besta humana", pra citar Zola...
Então, Álvaro Lins fez uma amizade muito forte com Manuel Bandeira. No "Jornal da Crítica" tem várias notas, uma delas muito bonita, de quando Manuel Bandeira leu pra ele, pelo telefone, o poema "Última canção do beco". Tinha acabado de escrever o poema e disse pelo telefone a Álvaro Lins. Acontece que Álvaro Lins fez a campanha de Juscelino Kubitschek, e Bandeira torcia pela candidatura de Eduardo Gomes. Na obra dele tem quatro poemas chamados a "Lira do Brigadeiro". Era, portanto, não de partido, mas udenista.

Atacou Miguel Arraes noutro poema, no verso Recife "sem Arraes, e com arroz".
Porque Arraes era prefeito quando surgiu a ideia do busto, e Arraes não fez nada pela inauguração do busto. Só em outros governos... Busto, não! Era uma cabeça. Mas até Manuel Bandeira chamava de busto. Ele tinha quatro poemas inteiramente dedicados a Recife. O último deles é um diálogo com a cidade. Na estrofe final, ele diz assim: "Ah, Recife, Recife! non possidebis ossa mea!/ Nem os ossos nem o busto./ Que me adianta um busto depois de eu morto?/Depois de morto não me interessará senão, se possível,/Um cantinho no céu". O primeiro poema foi "Evocação do Recife", escrito por encomenda de Gilberto Freyre. O segundo é curtinho, "Recife", ele fala do desgosto que teve quando voltou ao Recife, depois de muitos anos de ausência, e viu que a cidade estava se modernizando no pior sentido. O terceiro é "Cotovia", o diálogo dele com uma ave. E o último é o diálogo dele com a cidade, o poema se chama só "Recife".

E diz que mandará o último pensamento pra Recife. Mas, estávamos na briga com Álvaro Lins...
A briga foi a seguinte: Álvaro Lins então empenhou-se, jogou todo o Correio da Manhã na campanha de Juscelino Kubitschek à presidência da República. Manuel Bandeira não gostou disso. Juscelino convida Álvaro Lins para ser chefe do seu gabinete civil. Aí o Manuel Bandeira ficou desgostoso. E ocorre o episódio da posse de Álvaro Lins na Academia Brasileira de Letras, que foi uma posse intempestiva.

Substituindo Roquette-Pinto.
Álvaro Lins já estava cheio de problemas com amigos que ele levou para o gabinete civil - isso ele me disse pessoalmente -, que depois se voltaram contra ele. Não tinha tempo de escrever o discurso. No dia da posse, com o presidente da República na Academia, às 21h, o horário em que se realizam as solenidades de posse, Álvaro Lins não chegava... E o Josué Montello, que era um dos subchefes da casa civil, telefonou pra ele e ouviu: "Não vou mais tomar posse nesta merda!". O Josué Montello e o Peregrino Junior, que era médico, foram ao apartamento dele, na praia de Botafogo, vestiram à força o fardão, e deram-lhe um copo de uísque. Ele estava tomando comprimidos para não dormir e poder escrever o discurso. O uísque potencializou o efeito dos excitantes e, quando ele chegou à Academia, foi às dez horas da noite, imagine, com um atraso de uma hora. Um espetáculo. Lia cada página do discurso e jogava para o ar. Josué Montello apanhava no chão. Manuel Bandeira tinha uma coluna no Jornal do Brasil e, na mesma semana, escreveu uma espécie de ata dessa sessão. "O discurso de posse de Álvaro Lins na Academia Brasileira de Letras foi um escândalo...". E conta tudo. Álvaro Lins ficou muito aborrecido, nesse dia do artigo, e telefonou pra ele: "Você é um filho da puta!". E o Bandeira respondeu: "Filho da puta é você, que é filho do padre Félix Barreto".

O que é uma maldade, né?
É. Dizia-se isso aqui no Recife. Aqui no Recife se tem essa mania... Diziam que Gilberto Freyre não era filho de dr. Alfredo Freyre, era filho de Estácio Coimbra (advogado e político). Dizia-se que Otávio de Freitas Júnior não era filho do velho Otávio de Freitas, era filho de Ulysses Pernambucano. Essa mania... (risos)

No caso de Lins, era um clero muito atuante...
Álvaro Lins era muito ligado ao padre Félix Barreto. Ele chegou de Caruaru, estudante de Direito, pobre, morava de graça no colégio do padre Félix Barreto, o Ginásio do Recife. Teve esse apoio. Inventam essa história.

Só pra queimar.
Se é verdade ou mentira, isso eu não sei. Ninguém saberá.

Como o senhor vê a chegada da poesia de Manuel Bandeira ao nosso tempo? Muitos poetas perderam a força. E Bandeira?
O fato é que Manuel Bandeira é um poeta a quem cabe o adjetivo de completo. Por que eu digo isso? Porque ele alcançou o romantismo, o parnasianismo, o simbolismo, o modernismo (Mário de Andrade o chamava de "João Batista do Modernismo", porque o segundo livro de Manuel Bandeira, "Carnaval", já tem poemas modernistas antes da Semana de Arte Moderna)... Fez também poemas concretistas, de circunstância (que estão no livro "Mafuá do Malungo") e, agora, mandei um artigo pro Jornal do Brasil, que vai sair no dia da Flip: "Manuel Bandeira epigramista", pra completar essa qualificação que dou a ele de "poeta completo". Além do mais, Manuel Bandeira exprime na sua poesia as mais diferentes e contraditórias cosmovisões. Triste e alegre. Crença e descrença. Erotismo e misticismo. Uma série de contradições que ele conciliava. Tem poemas herméticos. Tem um poema em que ele descreve uma vagina em dia de regras, como é que se diz?

Em dia de menstruação.
É, menstruação. Esse poema se chama "Água forte". Lêdo Ivo também tem uma exegese só sobre esse poema.

O senhor lançará um livro de memórias?
Vai ser lançado pela Ateliê Editorial em outubro, aqui no Recife, quando há uma bienal do livro. Há muitos anos eu desejava escrever minhas memórias, não por vaidade, mas pelos muitos contatos que eu tive com gente importante como Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Murilo Mendes. Conheci também bem Carlos Drummond de Andrade. Fui amigo íntimo de um dos amores dele, a Lygia Nazareth Fernandes, que inspirou os poemas eróticos, sabia disso? Isso está contado num livro de um repórter aqui do Recife...

Genetton Moraes Neto.
Fui amigo íntimo de Lygia. Ela andava com Carlos Drummond de Andrade por todo o Rio de Janeiro. A Dolores, mulher de Drummond, sabendo disso, quis se separar e ele não admitiu. Lygia conseguiu comprar um apartamento, onde se encontravam.

Qual vai ser o formato de suas memórias?
Eu queria escrever meu livro de memórias, mas não sabia como começar. Não ia começar dizendo: "Nasci no dia 6 de dezembro de 1921, na Rua do Progresso, no Recife". Ridículo, né? Eu queria começar de modo diferente. Até que um dia eu estava organizando um livro meu, constituído por conferências que fiz sobre Gilberto Freyre, e numa dessas conferências - tinha esquecido -, eu citava o filósofo espanhol Julián Marías, que numa conferência no Recife, disse: "Para você entender bem uma pessoa, em vez de saber o que ela fez na vida, como está nos currículos, muito mais importante é saber o que ela deixou de fazer na vida". Eu dei um pulo, um grito: "É por aí que eu vou!" Porque eu só sei escrever partindo de um mote. E meu mote foi este. Quase todos os capítulos do meu livro de memórias começam assim: "Por que não me chamo Antonio", "Por que não me fiz monge beneditino", "Por que não completei o curso de Direito", "Por que deixei o meu Nordeste", até o último capítulo, que se intitula: "Por que não me casei". Um amigo meu disse: "Mas isso é nitroglicerina pura!". (risos)

Qual será o título do livro?
O título vai ser um verso de Guillaume Apollinaire, do poema "Le pont Mirabeau".

Belíssimo poema.
Lindo, né? Tenho num quadro que um amigo imprimiu numa tipografia francesa e me deu de presente. O meu livro é: "Vão-se os dias e eu fico". "Les jours s'en vont je demeure". (recita) "Sous le pont Mirabeau coule la Seine/ Et nos amours/ Faut-il qu'il m'en souvienne/ La joie venait toujours après la peine// Vienne la nuit sonne l'heure/ Les jours s'en vont je demeure". E tem a epígrafe, esses dois versos de Guillaume Apollinaire.

Em Paris, Vinicius de Moraes recitava esses versos de Apollinaire, quando passava sobre a ponte.
Quando fui a Paris, pela primeira vez, fiquei horas e horas ao pé da ponte Mirabeau... Tinha uma estação de metrô. Mas meu livro vai sair pela Ateliê Editorial, com o Plínio Martins. Completa o texto uma coleção de fotografias.

Vai ter histórias de Gilberto Freyre?
Tenho um capítulo sobre Gilberto Freyre, que foi uma pessoa que muito me influenciou. As maiores influências que eu recebi na minha vida: Álvaro Lins, porque fui aluno dele no colégio e comecei a pedir orientações de leitura; a segunda, Gilberto Freyre; a terceira, Otto Maria Carpeaux, com quem tive o privilégio de trabalhar na Fundação Getúlio Vargas. Ele era o diretor da biblioteca e eu fui fazer um estágio. Ficamos amigos. Ele enriqueceu minha vida.

Gaguejava bastante?
Era uma gagueira muito feia. Os lábios dele tremulavam. O Carlos Heitor Cony conta uma viagem que fez às cidades históricas de Minas Gerais, e Carpeaux começou a falar de Kierkegaard numa cidade... Kier... Kier... Kier... Kier... Só disse "Kegaard" quando chegou na outra cidade. É uma pena. Porque uma pessoa como aquela seria um excelente professor.

O senhor disse que um dos capítulos é "Por que não fui monge". Tem um arrependimento disso?
Olhe, eu explico na introdução de meu livro de memórias que esse esquema de "por que não fiz isso" não é uma queixa. Há coisas de que eu me orgulho porque não fiz. Por exemplo, quando eu deixei de estudar Direito, porque fui convocado pelo Exército (eu estava no segundo ano), o curso de Direito era muito ruim. Deixei de estudar. Minha mãe chorou uma semana, porque eu não quis continuar. Mas, se há uma coisa de que às vezes eu tenho uma mágoa, é porque não me fiz monge beneditino. Talvez eu não tivesse sido feliz lá, não. Sou vizinho deles, sou oblato beneditino. Eu não seria católico se não houvesse a ordem beneditina. Sou muito radical nessas coisas.

Iria se adaptar a uma hierarquia eclesiástica?
Ordem monástica não é propriamente eclesiástica, é uma coisa à parte. Como dizia o meu querido e saudoso amigo o abade Dom Basílio Penido, a ordem beneditina é uma Igreja dentro da Igreja.

Por que não se casou?
Começo esse capítulo reproduzindo uma quadra de Gonçalves Crespo, que diz assim: "Amar e ser amado, que ventura!/ Não amar, sendo amado, triste horror:/ Mas na vida há uma noite mais escura,/ É amar alguém que não nos tenha amor!". Digo eu: tive a ventura de experimentar a primeira parte, amei e fui amado na minha vida. Tive a amargura de experimentar a segunda condição de que fala Gonçalves Crespo: não amar, sendo amado. Porque houve três mulheres que se apaixonaram por mim e eu não me casei com elas. Foram muito infelizes por causa disso. Aí eu conto por que não me casei. Tenho 87 anos e meio, não vou lhe esconder, contarei no meu livro: não me casei porque sou homossexual. Agora, eu não sou de Parada Gay nem de coisas dessa canalhice.

Por que o senhor é contra?
Esse negócio de sair do armário, de se exibir como tal, isso não é comigo. Procurei sempre ser um homossexual à maneira de (André) Gide. Vou lhe contar um episódio curiosíssimo. No congresso de escritores que houve aqui no Recife, eu não compareci, estava no Rio de Janeiro. Vieram muitos críticos literários, Wilson Martins e um grande amigo meu, Roberto Alvim Corrêa. Pois bem. Roberto Alvim Corrêa estava num bar de intelectuais, falando da experiência dele na França. Porque ele nasceu na França e viveu a maior parte da vida lá. Só voltou para o Brasil, ele me contou, porque tinha um sotaque horrível. "Eu não quero que meus filhos fiquem com esse sotaque". Voltou a morar no Brasil quando os filhos estavam crescendo. Então, ele estava no Bar Savoy, dissertando sobre os contatos que ele teve com escritores franceses. Teve uma editora na França, Éditions Corrêa. Publicou Gide, Claudel, vários grandes escritores. Quando chegou a vez de falar de Gide, ele disse: "Gide filiava-se a uma corrente de moralistas franceses que vem desde Molière e Racine...". Aí havia aqui um poetinha que estava presente e disse: "O quê? O senhor está dizendo que Gide era moralista?". "Sim, era". "Mas eu ouvi dizer que ele era pederasta. Era mesmo?". Roberto Alvim Corrêa olhou pra ele e disse: "Era, mas com muita dignidade". Desde então Gilberto Freyre, que estava presente, passou a classificar os homossexuais em dois grupos: os acanalhados e os com muita dignidade. Pois eu, modéstia à parte, me incluo na segunda categoria.

E o que acha do "orgulho gay"?
Não, não, não! Não vejo porque ter orgulho de uma condição que é hostilizada pela sociedade. A homofobia está aí. Na mais recente Parada Gay de São Paulo mataram um pobre rapaz, porque era homossexual.

Gilberto Freyre teve experiências...
Era bissexual.

Ele relatou um caso na Europa.
Isso quem tratou muito bem, com muita elevação, foi Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, em "Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos". Ela descobriu um caso que Gilberto teve em Oxford com outro estudante, levantou toda a vida dele e anuncia até um livro sobre essa pessoa.

Freyre contou também numa entrevista ao repórter Ricardo Noblat, na revista Playboy.
Noblat perguntou e ele respondeu, se bem me lembro: "Você há de entender que uma pessoa como eu, que deseja entender tudo na vida, tinha que fazer essa experiência. E fiz. Infelizmente, não deu certo. Se tivesse dado certo, eu prosseguiria nessa linha". Muito bonito da parte dele. Mas aqui os homofóbicos ficaram indignados...

 
Condomínio dos proprietários dos direitos de imagem de Manuel Bandeira/Divulgação
"Manuel Bandeira é um poeta a quem cabe o adjetivo de completo", avalia Edson Nery da Fonseca

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