
Atualizada às 15h27 Rui Daher
De São Paulo
Por certo o leitor sabe do que se trata. Cultivo de crustáceos através de técnicas específicas. Entre eles, o camarão.
Embora a fonética possa confundir, nada a ver com cultura da carnificina, aquilo que, influenciados por entidades de classe do agronegócio, o Congresso e o Governo Federal estão promovendo com as leis que nos garantem proteção ambiental e futuro de potência.
No que diz respeito à Amazônia, a estupidez é inaudita. São quase 60% do território nacional que, depois de mais de 500 anos, ainda não foram entendidos. Ouve-se a todos, menos a quem entende do assunto: técnicos capazes de formular programas racionais de convivência entre produção e preservação.
De nada adiantará martelar o assunto. A Presidência já escolheu seus heróis. Assim, voltemos aos camarões antes que se tornem escassos, como foi denunciado, em 1974, pelos Originais do Samba, na graciosa letra de "Assassinaram o Camarão".
Está aí um crustáceo que o mundo gosta de comer. Sua produção cresceu, entre 1998 e 2007, a uma taxa anual de 6,5%. Os cultivados em fazendas marítimas, até aqui menos representativos (47%) do que os capturados, estão crescendo mais rapidamente, a 13% ao ano, e em poucos anos deverão ultrapassá-los.
Se quase 85% das importações se concentram em União Europeia, EUA e Japão, um mercado de US$ 14,5 bilhões em 2006, na produção, o mesmo índice é formado por países asiáticos, como China, Tailândia, Vietnã e Índia.
Até 2003, quando chegou a produzir 90.000 toneladas de camarões cultivados, destinados principalmente à exportação, o Brasil teve um crescimento significativo. A partir de 2004, no entanto, depois de uma ação antidumping dos EUA e da desvalorização do dólar, perdeu competitividade, e a produção teve queda próxima de 20%.
É pena, pois para fazer crescer o cultivo, tecnologias foram importadas e adaptadas às nossas condições, num intenso trabalho de pesquisa até que fossem validadas por resultados positivos de produtividade.
Mais: a carcinicultura é uma atividade com forte viés de inclusão social. Micro e pequenos empreendedores, atuando no meio rural litorâneo, de pequenas possibilidades fora do turismo, empregam mão-de-obra local, constituída por 90% de pessoas pobres e sem opção no mercado de trabalho.
Conduta clássica na economia, a dificuldade de exportar sempre leva o setor produtivo a lembrar-se do mercado interno que até recentemente consumia apenas camarões frescos, in natura, portanto, distantes do poder aquisitivo do consumidor brasileiro médio.
Em 2006, o consumo per capita de camarões no Brasil foi de 250 gramas, enquanto a média mundial foi três vezes maior. Não são apenas esses desejados crustáceos que ficam fora dos pratos brasileiros. Pescados em geral são pouco votados por aqui, numa relação com as carnes vermelha e branca de baixa proporção: 1: 5: 8.
Com a continuidade da situação cambial e da proteção norte-americana, nos últimos três anos o mercado interno está passando de secundário a principal, incentivado pela oferta de diferenciação em produtos de maior valor agregado.
Claro que isso ajuda, ainda que camarões enlatados, congelados ou na forma de pastas não se constituam em sonho gastronômico.
Nada disso, porém, ajuda a desvendar o mistério que faz um quilo de camarões grandes, frescos, que depois de limpos se apresentaram como 28 lindas peças, e pelos quais paguei R$ 40,00 (R$ 1,43/unidade), no CEAGESP (São Paulo), serem oferecidos, em quintetos, por R$ 80,00 em restaurantes dos guetos paulistanos do luxo.
Terra Magazine
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Bandnews
A partir de 2004, a produção de camarão teve queda próxima de 20% no Brasil, observa Daher
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