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Quarta, 1 de julho de 2009, 08h08

Quero ir para o Supremo

Eduardo Tessler
De Porto Alegre (RS)

O Supremo Tribunal Federal é o supra-sumo da lisura. Ali só sobrevive a verdade absoluta. Se o Presidente da República escorregar em seus atos - e o Legislativo não prestar muita atenção - é o STF quem vai avaliar o tamanho do tombo e suas consequências. Ou seja, nada paira acima do STF. Só o bom senso. E quem decide o que é bom senso é o STF. Ou melhor, os 11 ministros do STF.

Diz a regra do jogo que qualquer brasileiro pode ir para o Supremo, basta ter "notável saber jurídico e reputação ilibada". Mas quem escolhe os iluminados que dão as cartas é o Presidente da República. Da composição de hoje sete são opções de Luiz Inácio Lula da Silva, um de José Sarney, um de Fernando Collor e dois de Fernando Henrique Cardoso.

O mais jovem do grupo que recebe oficialmente o teto entre os salários do Brasil (R$ 24.800) é o mato-grossense Gilmar Mendes, 54 anos, presidente do STF. Mendes é aquele mesmo que protagonizou um bate-boca com seu colega Joaquim Barbosa em abril, onde até os jagunços de sua fazenda no Mato Grosso foram citados. Triste momento do mais alto órgão da sociedade brasileira.

Mas agora o ministro Mendes se superou. Para justificar seu voto pela derrubada da obrigatoriedade do diploma para a prática do jornalismo, o presidente do STF comparou a atividade do jornalista a outras profissões, como a de cozinheiro. "Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área", disse. Para o presidente do STF, "é diferente de um motorista, que coloca em risco a coletividade. A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à sociedade".

Em uma tacada só, Gilmar Mendes, dono de "notável saber jurídico e reputação ilibada", chamuscou sua toga por todos os lados. Esquece o nobre presidente do STF que só a imprensa livre, comprometida unicamente com a sociedade, serve de garantia a uma coletividade. As burocracias do Judiciário, esse mesmo Judiciário que Mendes representa, impedem que o cidadão comum tenha agilidade e apoio em busca de Justiça. E que esse suporte ele acaba encontrando na imprensa, nos jornalistas que sabem o que significa ética, objetividade e exibem da mesma forma "reputação ilibada e notável saber jornalístico".

A grosseria de Gilmar Mendes tocou dessa vez não apenas um colega ministro do STF, mas uma classe profissional inteira, que em geral recebe mensalmente bem menos que os R$ 24.800 dele. Mendes não estudou a raiz do problema: o lobby para o fim do diploma não pretende prioritariamente acabar com a reserva de mercado que o diploma criou, mas permitir que empresas pouco sérias contratem um motorista, um cozinheiro ou qualquer profissional de outra área, até mesmo um jurista, pague menos que o piso salarial e economize em qualidade.

Quem perde com isso? A sociedade.

Talvez Gilmar Mendes com essa decisão esteja apenas querendo ganhar um emprego de jornalista quando se aposentar do STF. Mas aí o presidente terá que se aperfeiçoar nas noções básicas da profissão. É preciso, antes de mais nada, ser direto e objetivo, não ficar utilizando palavras rebuscadas de difícil compreensão e frases enormes, comparações supérfluas.

Também deve-se ser ágil, rápido, afinal a linguagem dos microformatos tem muito mais leitura que os grandes textos. Mas basta observar as 80 páginas do currículo de Mendes no site do STF para que se entenda que o poder da síntese não está entre as qualidades do presidente. Também é preciso atualizar a foto do ministro, a que está no seu CV é do tempo em que o Mato Grosso não era dividido.

Se agora todo mundo tem direito de ser jornalista, e as exigências do STF são tão singelas, quero uma vaguinha no Supremo também. Afinal a profissão de pedreiro, essa sim apresenta um risco à sociedade. Já pensou uma parede de casa cair durante o sono? Mas ministro do STF não, qualquer brasileiro tem direito de ser um.

Eu também quero!

Eduardo Tessler é jornalista e consultor de empresas de comunicação.


Fale com Eduardo Tessler: edutessler@terra.com.br

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Juliana Michela/Especial para Terra
Gilmar Mendes não estudou a raiz do problema do diploma para jornalistas, diz Tessler

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