
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Conforme prometido, apresento hoje alguns argumentos de autoridade (eles gostam!!) sobre a relação entre sinais de pontuação (especialmente a vírgula) e pausa.
Interessados na questão podem ler, por exemplo, Manobras da pontuação, de Veronique Dahlet, publicado pela editora Contexto (li em primeiríssima mão, porque fui membro da banca de livre-docência da professora; aprendi muito, especialmente que é grossa bobagem achar que os sinais de pontuação só têm a ver com gramática, especialmente com sintaxe).
Outro livro interessantíssimo sobre o tema é O ritmo da escrita (de Lourenço Chacón, editora Martins Fontes); a análise dos fenômenos de ritmo e sua associação com sinais de pontuação é excelente; além disso, o autor, conhecido pela minúcia com que analisa dados, faz uma extensa revisão bibliográfica, mostrando a seus leitores que todos os especialistas consideram a pontuação à luz de diversos fenômenos, entre os quais estão a pausa e a respiração.
As citações finais da coluna da semana passada, que reapresento, foram extraídas deste livro. (Poças e Athanasio: "os sinais gráficos (...) têm por finalidade (...) facilitar a respiração na leitura". Outra, de Ribeiro: "indicar a proporção das pausas que faz quem fala ou lê ou atender à necessidade fisiológica de respirar". Outra, de Bueno: "serve para auxiliar a respiração...").
Em homenagem a Pasquale, começo citando linhas da gramática de Cegalla, que pode ser lido a favor das "teses" do professor. Vejamos: "Tríplice é a finalidade dos sinais de pontuação: a) assinalar as pausas e inflexões de voz (da entoação) na leitura; b) separar palavras, expressões e orações que devem ser destacadas; c) esclarecer o sentido da frase, afastando qualquer ambigüidade". Ele acrescenta: "Não há uniformidade entre os escritores, quanto ao emprego dos sinais de pontuação. Não sendo possível traçar regras absolutas sobre a matéria, daremos aqui apenas as que o uso geral vem sancionado, na atual língua escrita".
Como se pode ver, Cegalla pode ser interpretado como se considerasse a língua escrita como ponto de partida; por isso escreve que os sinais de pontuação assinalam as pausas e inflexões. Mas o que seriam as pausas e inflexões, senão as "equivalências" entre o que se escreve com sinais de pontuação e fenômenos típicos da fala? Ou seja: é para que se leia (mais ou menos) como se fala que há sinais de pontuação. Logo, eles "representam" (mimetizam?) a fala.
De Bechara, destaco duas passagens: a) ele cita longamente, Nina Cattach, cujos textos sobre escrita são numerosos; alguns se encontram em livro da coleção da Ática sobre escrita; aliás, apesar de certos problemas, é notória a incorporação de estudos não "gramaticais" pela gramática de Bechara; b) diz que é provável que os sinais de pontuação respondam ao desejo do autor de levar ao texto algo mais de "expressividade, de contorno melódico, rítmico e entonação" (p. 605).
Rocha Lima começa assim seu capítulo sobre pontuação: "As pausas rítmicas - assinaladas na pronúncia por entoações características e na escrita por sinais especiais - , são de três espécies: pausa que não quebra continuidade do discurso; pausa que indica o termino do discurso...; pausa que serve para frisar uma intenção...". Vê-se claramente que a pontuação se destina a marcar fenômenos da fala; e a pausa é o mais citado.
Lendo as colunas de Pasquale, chego à conclusão (que pode ser incorreta, mas acho que não) de que, quando escreve sobre vírgulas (ou sobre pontos), ele o faz lendo as passagens das gramáticas que tratam do uso desses sinais, sem considerar o que essas mesmas gramáticas dizem sobre a questão da pontuação em geral. Nessas "introduções", ora mais, ora menos detalhadas, o tratamento que os gramáticos dão ao tema é sempre mais sofisticado do que parece ser quando se lê a enumeração dos casos em que tipicamente tais sinais são (ou devem ser) empregados.
Foi curioso ler a seguinte nota na coluna semanal de Ferreira Gullar do dia 28/06/2009, na Folha de S. Paulo: "Cismado que sou contra o mal (sic!) uso de nosso idioma, gostei de ouvir, por duas vezes um locutor de televisão dizer que alguém, acidentado, 'não corre risco de vida', em vez de 'não corre risco de morte', expressão forjada por algum redator obtuso. Naquela noite, fui dormir aliviado".
Também tive um bom domingo. Embora não entenda muito bem o que seja "mau uso" de um idioma, fiquei aliviado pelo fato de Ferreira Gullar não adotar a lógica fajuta da expressão "risco de morte", mas também por seu escorregão (ou será da revisão? nunca se sabe!) em "mal uso". É bom ver que coisas assim acontecem com todo mundo!
Terra Magazine