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Quinta, 2 de julho de 2009, 08h20

Arnaldo Batista - Lóki, o filme

Paquito
De Salvador (BA)

A gente assiste Lóki - Arnaldo Batista, documentário sobre sua vida e trajetória artística e não sai incólume da sala de cinema. O que dizer da história artístico-pessoal de Arnaldo que participou dos Mutantes, uma banda reconhecidamente importante, saiu do grupo, deu uma pirada, se jogou da janela do hospital onde fora internado, e hoje pinta quadros, além de ter voltado a excursionar por um breve tempo com os mesmos Mutantes?

Dito assim rápido, parece uma apreciação simplista de uma história com lances trágicos, mas, acreditem: dói perceber que, a despeito de tudo que é narrado no filme, as histórias de artistas esquecidos continuam a se repetir atualmente, e com intensidade. A sensibilidade do público só parece dar conta do valor de uma obra quando o tempo passou. Então começam os elogios desmedidos para que se tente recuperar o que se perdeu.

Lóki, o filme, também possui estas tentativas em alguns depoimentos, e é sobre o que vou me deter primeiramente, mais do que sobre Arnaldo em si, a quem considero um grande artista. Tárik de Souza, por exemplo, diz que Arnaldo é "pai do rock" nacional. Esse é um título que caberia mais a Roberto Carlos, anterior cronologicamente ao primeiro e aos Mutantes, mas a popularidade de um artista, para alguns críticos, deve ter um valor negativo.

Tárik chega a dizer que as músicas da Jovem Guarda eram versões do rock anglo-americano e italiano, o que enterra clássicos como Quero que vá tudo pro inferno, Eu sou terrível, Namoradinha de um amigo meu, todas da dupla Roberto & Erasmo, compositores incríveis desde a primeira parceria, Parei na contramão, de 1963.

O grande maestro Rogério Duprat, já falecido, aparece dizendo que os Mutantes foram a coisa mais importante do Tropicalismo. Os Mutantes eram uma banda criativa ao vestir uma canção, e o compacto duplo no qual acompanham Caetano em A voz do morto, Marcianita, Baby e Saudosismo, atesta isso, mas eles não têm canções como as de Caetano, Gil e os outros compositores do movimento. Aliás, a gravação mais representativa da banda na fase tropicalista é da música Panis et circences, de Caetano e Gil. O que dizer então da liderança e do conceito do movimento, algo que partiu da cabeça de Caetano?

Devendra Banhart, músico norte- americano, chega a dizer que os Mutantes eram melhores que os Beatles, por conta da quantidade de referências musicais utilizadas pelos primeiros em seus discos. Mais uma vez, é justo que se diga: os Mutantes tinham os Beatles como modelo, possuíam um humor anárquico, análogo ao dos rapazes de Liverpool, e trabalhavam até com um maestro, em muitos pontos, mais talentoso que George Martin. Porém, não tinham canções (matéria-prima de uma banda pop) como as de Lennon, McCartney e Harrison. Muitas músicas dos Mutantes, aliás, são hapennings que hoje soam datados, tais como Meu refrigerador não funciona, Jardim elétrico e a releitura escrachada de Chão de estrelas. O som dos discos também não é muito bom, há referências em demasia, o que torna as faixas confusas, com exceção das presentes no Technicolor, gravado em Paris, e sem a participação de Duprat.

Não tem a ver também ficar medindo o tamanho dos artistas pra ver quem é maior, e os Mutantes não precisam dos exageros listados pra terem seu lugar reconhecido na música brasileira. Em meio à ingenuidade da Jovem Guarda, eles fizeram a diferença e, por isso, se tornaram a banda da Tropicália. O seu pioneirismo, aliás, cobrou um preço caro: apesar de serem muito citados, eles não fizeram escola no Brasil, o mesmo se podendo dizer da obra de Arnaldo. Sei que o Pato Fu tem os Mutantes como influência seminal, mas é a exceção que confirma a regra.

Quanto a Arnaldo, seu disco Lóki, de 1974, é tão pessoal e forte que só pode ser comparado com o John Lennon/Plastic Ono Band, de 1970. Os dois discos tratam de um instante de crise, e são bem simples na concepção. Ao contrário dos trabalhos dos Mutantes e dos Beatles, plenos em cores, tem um som básico, apenas piano, baixo e bateria (mais a guitarra e o violão, no caso de John; mais arranjos de Duprat, no caso de Arnaldo) e a força está nas canções cruas e confessionais.

No entanto, enquanto Lennon canta o fim do sonho, Arnaldo, apesar de se perguntar se vai virar bolor, acredita que todos juntos podem ser uma pessoa só. A voz é lamentosa, mas carrega um humor diverso daquele que caracterizava os Mutantes, pois põe o ouvinte na incerteza quanto às intenções do artista. Em meio aos conflitos, a saída é "decolar toda manhã". Ouvir a faixa-título, Lóki, por isso mesmo causa incômodo hoje: "cê ta pensando que eu sou lóki, bicho?/ sou malandro velho/ não tenho nada com isso".

Lóki, o filme, expõe as fraturas resultantes do processo de corte, daí a tragicidade inerente ao filme e o motivo pelo qual não se sai incólume da sala do cinema, a despeito da satisfação que dá presenciarmos nas imagens o reconhecimento, ainda que tardio, da obra do artista.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

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