Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Claudio Martini

Quinta, 2 de julho de 2009, 08h23

Na trilha da Linha Clara 4: Benoît

Claudio Martini
De Campinas (SP)

Junto com Swarte, Floc'h e Chaland, o francês Ted Benoît, nascido em 1947, é o quarto mestre da Linha Clara contemporânea - estilo dos desenhos de Hergé, Jacobs e seus vários seguidores. Estudou cinema no IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos), mas em seguida abandonou seu trabalho como diretor na TV para se tornar desenhista de quadrinhos e, em seu primeiro livro, Hôpital (Hospital, de 1979), já ganhou um prêmio de roteiro no Festival International de Bande Dessinée de Angoulême, de 1979.

Nessa primeira obra, ele ainda experimentava e buscava um estilo próprio. Em Histoires Vraies (Histórias Verdadeiras, de 1982), seu livro seguinte, com roteiro de Yves Chéraqui, uma história de ficção-científica que se desenrola na nave espacial Eden-A, podemos acompanhar sua evolução gráfica através dos vários pequenos contos interligados que formam o álbum: a partir da metade do livro o autor se rende à Linha Clara, com alguma influência de Moebius e George Herriman.


Mas é a partir de Berceuse Électrique (Cantiga de Ninar Elétrica, de 1982) que Benoît estabelece seu estilo e fixa também seu personagem mais famoso: Ray Banana. Ray já havia feito uma pequena aparição em Vers la Ligne Claire (Rumo À Linha Clara, de 1980), que reunia histórias esparsas. Como as HQs do holandês Joost Swarte, Benoît também ambienta as suas em um cenário "moderno", dos anos 1950, com predominância da arquitetura Art Deco, em uma Los Angeles retro-futurista decadente e com os carrões da época.

Berceuse Électrique é um verdadeiro filme noir: toda a história é realizada em tons de cinza, e conta com femmes fatales, tramas misteriosas e personagens perigosos. No meio de tudo isso transita o detetive particular Ray Banana, sempre com seus óculos escuros (origem de seu nome) e sua empregada doméstica Thelma Ritter.


A próxima aventura de Ray, Cité Lumière (Cidade Luz, de 1986) aproxima mais o autor do estilo de Hergé, pois é uma HQ colorida que utiliza uma paleta de cores que lembra a das páginas de Tintim.

Outras obras que Benoît realizou nos anos 1980/1990 incluem:

- Dans les Griffes de L'Ombre Rouge (Nas Garras da Sombra Vermelha, de 1981) - uma edição especial da revista Cahiers du Cinéma, que une o roteiro do filme de Jean-Louis Comolli, fotos do filme e de documentação, e desenhos de Benoît.


- La Peau du Léopard (A Pele do Leopardo, de 1985) - uma edição de luxo com o trabalho gráfico do autor em ilustrações, quadrinhos, serigrafias e para a publicidade.


- C'Était dans le Journal (Deu no Jornal, de 1986) - belíssimo livro onde o autor selecionou pequenas notícias de assassinato que saem diariamente no jornal e criou grandes ilustrações onde predomina o preto e o cinza escuro, com alguns detalhes em branco e também o vermelho, reservado para o sangue. Depois de uma dúzia de cenas sangrentas, o livro conclui com uma família reunida em todo da mesa para o café da manhã, onde um adolescente proclama em voz alta a manchete do jornal: "Ontem, nenhum assassinato no Rio!".

- Bingo Bongo et son Congo Congolais (Bingo Bongo e seu Congo Congolês, de 1987) - coletânea das histórias de Bingo Bongo, realizadas para a revista Métal Hurlant.

- L'Homme de Nulle Part (O Homem de Lugar Nenhum, de 1989) - HQ de Ray Banana que traz apenas o roteiro assinado por Benoît, com desenhos de Pierre Nedjar.

Por seu domínio do estilo Linha Clara, Benoît foi convidado a continuar a série de aventuras de Blake e Mortimer, após a morte do criador, Edgar P. Jacobs. Desde então ele abandonou seu trabalho autoral para se dedicar aos álbuns da dupla. Até o momento, ele desenhou dois episódios da série, com roteiros de Jean Van Hamme:

- L'Affaire Francis Blake (O Caso Francis Blake, de 1996).
- L'Étrange Rendez-Vous (O Estranho Encontro, de 2001).

Embora essa escolha mantenha o artista afastado de um trabalho mais pessoal, pois os álbuns de Blake e Mortimer demandam muito trabalho de pesquisa e, por Benoît ser perfeccionista e detalhista, levam anos para serem concluídos, não podemos reprovar essa escolha do autor, visto que a tiragem inicial de um livro da série pode chegar a 500.000 mil exemplares. E com certeza os livros não deixam a desejar se comparados com os criados por Jacobs e afirmam também a vitalidade do estilo Linha Clara.


Para quem quiser saber mais, há poucos dias, entrou no ar um blog que traz a atualidade sobre a obra de Benoît: metropolisjournal.blogspot.com, e o site www.tedbenoit.com traz alguns exemplos do trabalho do artista.

Claudio Roberto Martini é designer gráfico e publisher da editora de HQs Zarabatana Books

Fale com Claudio Martini: claudio.martini@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Claudio Martini vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela