
Atualizada às 15h15 Pablo Calvi
De Nova Iorque
Aproximam-se dias complicados e de trabalhar contra o relógio para o governo do presidente de Honduras, Manuel Zelaya. Depois de ter adiado sua volta a Tegucigalpa, capital do país, de quinta-feira para sábado, e respaldado pelo ultimato emitido pela Organização dos Estados Americanos (OEA) na madrugada de quarta-feira para que o presidente eleito volte a ocupar seu cargo em até 72 horas, o futuro ainda é incerto para o presidente deposto.
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Jorge Arturo Reina, máxima autoridade diplomática de Honduras nos Estados Unidos, após a renúncia do embaixador Roberto Flores Bermúdez na quarta-feira, afirmou a Terra Magazine que o governo militar está com os minutos contados e que o presidente Zelaya evitará ao máximo recorrer a soluções violentas.
Depois de se reunir com Zelaya em Nova Iorque, Reina deu detalhes de como será integrada a comitiva que acompanhará ao presidente hondurenho na sua volta a Tegucigalpa no sábado e não descartou a possibilidade de que Thomas Shannon, subsecretário de Estado americano para o hemisfério ocidental ou a própria Secretária de Estado norte-americana Hilary Clinton integrem a missão.
Em sua opinião, como o governo interino de Honduras reagirá ao ultimato da OEA para a restituição do presidente eleito Zelaya ao seu cargo?
Não sei se os dirigentes do governo interino estão conscientes do que significa o ultimato da OEA respaldado pela ONU, aprovado por unanimidade e aclamação, e também apoiado pelo SICA (Sistema de Integração Centro-Americana). As três organizações, a mundial, a regional e a centro-americana, estão na mesma linha e rejeitam o governo de fato. Penso que deveriam acatar a ordem de forma imediata, porque do contrário terão sérios problemas.
Temos poucas informações sobre o estado da população em Honduras, por enquanto só se fala de uma morte como consequência do golpe. O governo tem outros dados?
A população passou por duas etapas. A primeira fase foi de completa confusão e de diversas reações. Mas, à medida que foi ficando claro que se tratava apenas de um golpe de estado, a população reagiu em favor do governo legítimo do presidente Zelaya. Há tempos que os hondurenhos têm uma posição absolutamente oposta aos golpes de estado, devido à nossa amarga história. Justamente por isso e superando diferenças partidárias, a população começou a se unir contra o golpe de estado e em favor do presidente Zelaya Rosales. Mesmo algumas pessoas que não concordavam com a proposta do presidente de colocar uma quarta urna, mesmo essas pessoas, sabendo o significado que tem um golpe de estado, estão apoiando o presidente eleito democraticamente.
Que tipo de apoio estão recebendo por parte dos Estados Unidos? Já se fala em represálias comerciais contra o governo interino de Roberto Micheletti?
Bem, por enquanto o governo dos Estados Unidos está respaldando a moção apresentada pela ONU exigindo a imediata devolução do governo ao presidente Zelaya Rosales e determinando que nenhum outro governo que não seja o do presidente José Manuel Zelaya Rosales será aceito. E foi dado aos militares um prazo de 72 horas, que vence no sábado, para abandonar o governo. A decisão agora cabe à cúpula militar de Honduras. Eles terão que decidir se acatam o ultimato ou não. Claro que se não o fizerem vão desencadear a reação correspondente para obrigá-los a devolver o poder ao legítimo presidente eleito.
Então a viagem de Zelaya a Tegucigalpa está confirmada para este sábado?
Sim. Foi adiada para o sábado para que os militares tivessem tempo de acatar o que a OEA resolveu. Também será coordenada uma comitiva integrada, além do presidente Zelaya, pela presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, pelo Secretário Geral da OEA, José Miguel Insulza, pelo presidente da Assembleia Geral da ONU, o padre Miguel d'Escoto Brockmann, e também pelo presidente do Equador, Rafael Correa, junto a outros presidentes da América Latina. Será um exemplo, o mundo todo estará ali para restabelecer no poder o legítimo representante que foi deposto.
Pelo que sei, o embaixador de Honduras nos Estados Unidos, Roberto Flores Bermúdez, renunciou e voltou a Tegucigalpa. Isso significa um rompimento na representação diplomática hondurenha no exterior?
Não. Essa foi a única baixa. Os outros estão cada um nas suas posições.
Insisto na pergunta anterior: O senhor tem conhecimento do número de vítimas nas ruas de Honduras em consequência do golpe?
Não. Mas sabemos que são dezenas, centenas de feridos e pessoas machucadas. Não posso precisar o número, mas a população de Honduras está em uma crescente expressão massiva de repúdio, e os golpistas não poderão contê-la. Vou além, o governo militar resolveu restabelecer o serviço militar obrigatório, com o qual aumentou o descontentamento popular. Fazem isso porque temem não poder conter a massa que está se revoltando cada vez mais. Necessitam de mais soldados, e como não dispõem de gente, restabeleceram o sistema militar obrigatório que tinha sido eliminado, justamente, porque a população hondurenha não concordava com essa medida. Pensam que podem aumentar o número de soldados e de efetivos restabelecendo o serviço militar obrigatório, na verdade estão gerando ainda mais revolta.
Dá a impressão de que o governo interino está se preparando para um confronto armado. O senhor acredita que esse conflito pode acontecer?
Não queremos empregar a força. Não queremos empregar a força. O presidente Zelaya sabe que pode dispor de uma força avassaladora, mas não quer usar a força.
Mas, nas reuniões da OEA e da ONU foi cogitado o uso de uma força tarefa militar conjunta para agir sob o comando da OEA?
A resolução da OEA, ou seja, o ultimato para que os militares entreguem o poder, implica uma decisão que abrange sansões de todo tipo. Podem ser econômicas, podem ser de qualquer tipo. Não acatar as decisões do organismo que tem o nível mais alto na América, não dá ao golpe de estado perspectivas de sobrevivência. Isso só pioraria a situação de Honduras e do próprio grupo golpista. Não há qualquer perspectiva de continuar no poder, nem popular, nem nacional, nem regional, nem internacional, nem mundial.
Claro que ainda não falamos da conformação de uma força militar conjunta, pois esperamos que a sensatez dos que usurparam o poder, se é que eles ainda a têm, os faça entender o significado do ultimato da OEA respaldado pela ONU e pelos países vizinhos a Honduras.
Qual foi a reação dos hondurenhos no exterior?
Houve manifestações e vários grupos de hondurenhos já se reportaram à ONU para expressar a seu profundo desacordo com o golpe de estado. A sociedade hondurenha está de luto graças às ambições desmedidas de algumas pessoas e ao uso do exército para dar o poder a pessoas que foram rejeitadas pelas urnas.
O senhor sabe quando será o próximo contato do presidente Zelaya com a imprensa?
Na quarta-feira, ele foi para o Panamá para a posse do novo governo. Viajou de Washington. Primeiro esteve em Nova York e agora foi para o Panamá, e já conversou com todos os presidentes que chegaram para a posse. E nenhum desses presidentes reconhece o novo governo. O governo de fato não recebeu o reconhecimento de nenhum Estado do mundo. A ONU também não o reconhecerá, mais do que isso, o intimou a devolver o governo ao legítimo presidente eleito pelo povo de Honduras.
Houve novos contatos entre Zelaya e Chávez? Ele chegou a oferecer apoio militar ao presidente.
Por enquanto não sei. Só sei que o presidente Hugo Chávez condenou o golpe e ofereceu a sua colaboração, mas não sei de qualquer conversa especial com ele. Posso afirmar que os outros presidentes dos quais falei mostraram a sua intenção de acompanhar ao presidente Zelaya Rosales na volta às suas funções.
Até que ponto é possível que a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, e o subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon, façam parte da comitiva no sábado?
Existe uma clara possibilidade. Não sei os detalhes, mas sei que o presidente se reuniu com Shannon, não posso confirmar se chegou a se reunir com a Secretária de Estado, mas certamente acertaram algo. Como o presidente viajou para o Panamá, ainda não pude conversar a sós com ele, mas tudo isso é visto como uma possibilidade. Claro que os Estados Unidos tiveram amplo interesse em tornar evidente durante a sessão da ONU que respaldam a moção que eu apresentei na Assembleia Geral e que foi aprovada por aclamação, sem nenhuma abstenção, sem um único voto contrário, pela totalidade dos membros da ONU.
Terra Magazine
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