
Vera Gonçalves de Araújo
De Roma
Em 1997, quando o escritor e dramaturgo italiano Dario Fo ganhou o premio Nobel da literatura, muita gente pensou que - além de uma bela bolada de fama e dinheiro - o Nobel ia proteger o trabalho de Fo da censura, que sempre o perseguiu desde suas primeiras peças no teatro.
Lendo "Una vita all'improvvisa", a autobiografia de Franca Rame, companheira de Fo na vida e no palco, é divertido e triste seguir a gincana que os dois artistas foram obrigados a viver para defender cada show, cada texto, cada idéia que tiveram, da tesoura dos capas-pretas da censura italiana, ativados quase sempre por iniciativa do eterno senador vitalício Giulio Andreotti, que até hoje pode ser considerado um dos políticos mais poderosos da Itália.
Quem achou que os tempos da censura estavam terminados, errou. Na Itália de 2009 ainda há espaço para ela. Neste caso, a decisão de proibir a aprentação de Dario Fo foi do bispo de Assis, dom Domenico Sorrentino. O prêmio Nobel ia ler ontem e hoje à noite, na praça da basílica de São Francisco, o seu texto "Giotto ou não Giotto?", que questiona a atribuição dos afrescos da igreja ao pintor e arquiteto mais famoso do século XIV.
Em nome de uma polêmica que poderia ter atualidade uns setecentos anos atrás, mas que hoje em dia parece um pouco superada, o bispo não quis que a obra de Fo fosse representada na cidade e na praça de são Francisco. A peça é um monólogo de cinco horas (dividido piedosamente em duas partes), que sustenta que o Giotto não pode ter pintado os afrescos da basílica, inclusive porque na época era jovem demais para receber uma encomenda tão importante.
O bispo que chefia as 63 paróquias de Assis decidiu proibir o monólogo de Dario Fo diante da fachada da igreja "por motivos culturais". Motivos que - evidentemente - não valem para o show de música pop que se realizou no dia 12 passado, com espírito muito pouco franciscano.
Há vários anos, Dario Fo vem fazendo conferências sobre a história da arte em muitas cidades italianas. São verdadeiros shows, que revelam aspectos inéditos, engraçados, algumas vezes dramáticos, da realização de obras primas da arte medieval, da Renascença e do barroco na Itália. Cada monólogo é preparado com uma atividade de pesquisa minuciosa e detalhada. Fo não é o único que desconhece a Giotto a autoria dos afrescos que narram a vida de são Francisco. O restaurador Bruno Zanardi, que trabalhou durante anos na limpeza do maravilhoso afresco na basílica de Assis, afirma que a maioria dos 28 quadros que formam o ciclo franciscano é do pintor romano Pietro Cavallini. Sobre o tema publicou um livro, em 1996.
O comentário de Dario Fo foi especialmente amargurado. Trabalhou durante meses para preparar o show. Estudou os mínimos detalhes, sabe tudo sobre as técnicas de cores, sombras, veladuras usadas por Giotto. Mas não pôde contar ao seu público, ontem e hoje à noite, o resultado das suas pesquisas.
- Estou treinado para enfrentar a censura há 60 anos. Mas este é um sinal dos tempos. Uma expressão do conservadorismo cultural atrasado que considera qualquer mudança de tradição e de convicção como uma blasfêmia - reflete Dario Fo, do alto dos seus 83 anos.
Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br
Terra Magazine
|
Michael Edwards/ Wikipédia/Reprodução
Dario Fo - "Giotto ou não Giotto?", eis a questão
|