Atualizada às 10h03 |
Imprensa da Presidência da Venezuela/Reprodução
Rodolfo Pastor, à esquerda, é responsável pela representação diplomática do governo de Zelaya nos EUA
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Pablo Calvi
De Nova Iorque
Na véspera da chegada das delegações da OEA a Tegucigalpa e enquanto conversa com o Departamento de Estados dos Estados Unidos, o embaixador de Honduras em Washington afirma: "O cenário é muito complicado".
A tensão aumenta e o prazo dado ao governo interino de Roberto Micheletti está acabando. Faltam poucas horas para o começo das sanções que a Organização dos Estados Americanos anunciou que tomaria caso o presidente Manuel Zelaya não fosse restituído nas suas funções nas primeiras horas deste sábado.
Na quinta-feira pela manhã, o Secretário Geral da OEA, Miguel Insulza, afirmou durante uma entrevista coletiva no Panamá, onde está desde ontem acompanhando a Zelaya, que no sábado a organização "não negociará" com o governo interino quando aterrizar em Tegucigalpa junto com vários líderes e diplomáticos da América Latina. "Primeiro queremos ver o presidente Zelaya voltar em plena segurança ao seu país para retomar as suas funções, depois podemos sentar e conversar sobre as diferenças internas", acrescentou.
Nas últimas horas, Zelaya destituiu dois dos seus embaixadores, o da Bélgica e o dos Estados Unidos. "Isto não é um golpe de estado, é um processo que está cumprindo uma ordem judicial", disse antes da sua partida para Tegucigalpa, o ex-embaixador de Honduras em Washington, Roberto Flores Bermúdez.
Após o anúncio da saída de Bermúdez, o Terra Magazine conseguiu conversar com Rodolfo Pastor, embaixador interino do governo de Zelaya em Washington, sobre como serão as próximas horas de negociações e quanto foi avançado graças a intervenção da ONU, da OEA e do governo dos Estados Unidos.
Leia a entrevista na íntegra:
Terra Magazine - A representação do governo eleito de Honduras nos Estados Unidos foi enfraquecida pela saída de Flores Bermúdez?
Rodolfo Pastor - Não, de nenhuma forma. Continuamos tendo um embaixador nas Nações Unidas, Jorge Arturo Reina, temos um embaixador na OEA e eu fiquei responsável interinamente pela representação diplomática do governo do presidente Zelaya nos Estados Unidos.
O senhor acredita que houve uma resposta positiva do governo interino ao ultimato da OEA em cessar as hostilidades e permitir a volta de Manuel Zelaya à presidência?
Em minha opinião o cenário continua muito complexo. Temos um governo em Honduras que foi constituído de uma forma considerada ilegítima pela comunidade institucional. Além disso, existe um apoio contundente e bastante unânime da esfera internacional em todos os organismos internacionais e também por parte dos diferentes países que os compõem, além do governo dos Estados Unidos, com relação ao governo no presidente Zelaya. Todos esses países e esses organismos tomaram sérias medidas de repúdio ao golpe dado ao presidente legítimo e reivindicam a sua restituição imediata. E não é só isso, agora também não reconhecem o governo de Micheletti. Uma série de instituições financeiras internacionais começou a retirar de Honduras os seus representantes e congelaram os fundos que enviam ao país, já os países centro-americanos fecharam as fronteiras, chamaram de volta os seus embaixadores e paralisaram o comércio. Existe, basicamente, uma pressão internacional bastante importante que está enviado uma mensagem ao governo de fato de Honduras para que reinstale a ordem constitucional. Isso fez com que o governo de Micheletti declarasse estado de emergência, o qual gerou uma série de manifestações da sociedade civil interna em apoio ao presidente Zelaya, essas pessoas têm sido sistematicamente reprimidas e feridas desde o início do golpe. Isso, claro, está desencadeando a falência do regime de fato.
Para a embaixada, então, as medidas da OEA e da ONU tiveram uma imediata repercussão em Honduras?
Veja, isso ninguém pode afirmar com certeza. É uma questão complexa. A poucas horas do fim do prazo de negociações, governo de fato tem a opção de resistir e continuar enfrente, mas é muito difícil que um país como Honduras possa continuar sem qualquer relação, nem reconhecimento internacional, nem financiamento. Evidente, é uma questão séria e que coloca os cidadãos hondurenhos que estão dentro do país diante de uma difícil conjuntura, cada vez mais violenta, o qual preocupa a todos. Eu tenho família em Honduras e nós representamos aqui o governo do presidente Zelaya, imagine você que todas as nossas contas foram congeladas, uma vez que quem nos financia é o governo da República. É uma situação difícil e entendemos que a pressão, por enquanto, seja diplomática. O intervencionismo é repudiado por todas as partes, inclusive por nós mesmos. Estamos realizando uma pressão diplomática para promover o diálogo. Mas, sem dúvida, com a restituição indiscutível do presidente Zelaya.
Neste momento as informações vindas de dentro do país são muito limitadas. Nas últimas horas, tiveram acesso ao número de mortos e feridos nas manifestações?
Não. Veja, a informação é muito escassa. Chega até nós em conta-gotas. Sabemos que há uma série de medidas de censura aos meios de comunicações internacionais, meios que favorecem ao presidente Zelaya. O ambiente é complexo, existe um amplo apoio ao presidente, e o governo Micheletti bloqueou a entrada à capital e às cidades importantes para impedir que as pessoas se manifestem publicamente em favor de Zelaya. Sabemos de uma repressão sistemática, e isso nos fala do clima vivenciado em Honduras.
Como pensam continuar as negociações com o governo Micheletti e com os Estados Unidos, que estão intercedendo no conflito?
Neste momento as delegações diplomáticas que respondemos pelo governo do presidente Zelaya estamos sendo facilitadoras do diálogo nas contínuas negociações - que se mantiveram de forma ininterrupta durante o domingo - entre o presidente Zelaya e o Departamento de Estado dos Estados Unidos.