
Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Nem todas as polêmicas e debates envolvendo a ficção científica começam na lista do Clube de Leitores de Ficção Científica, na comunidade Ficção Científica do orkut, ou nas páginas dos poucos fanzines sobreviventes. Uma das mais recentes e instigantes começou nas páginas de Rascunho: O Jornal de Literatura do Brasil, publicado a partir de Curitiba e considerado uma das principais publicações literárias brasileiras.
O autor da façanha é Luiz Bras, autor de FC e de livros para crianças que tem publicado contos de FC no Projeto Portal, de Nelson de Oliveira. Um desses contos em particular, "Aço contra Osso", em Portal Neuromancer, merece a atenção especial do leitor do gênero, lembrando alguns dos melhores contos de Braulio Tavares, em sua histórica coletânea A Espinha Dorsal da Memória (1989).
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Bras assina uma coluna no Rascunho, "Ruído Branco". Na coluna do mês de abril, ele publicou um ensaio com o título de "Convite ao Mainstream". Está disponível em http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=3&lista=1&subsecao=58&ordem=2959, e nele Bras ousa apontar certa repetição dos recursos da ficção contemporânea no Brasil: "Os heróis da prosa de ficção brasileira estão cansados. Entediados. Sem motivação. Eles não agüentam mais viver sempre as mesmas manjadas situações. Faz pelo menos vinte anos (ou mais) que sua rotina não muda. Não importa se esses heróis pertencem à fileira dos conservadores ou dos transgressores. Não importa se eles protagonizam narrativas urbanas ou rurais, sociais ou psicológicas, líricas ou fragmentárias, apolíneas ou dionisíacas. As situações que esses heróis estão vivendo hoje, nas mãos dos prosadores brasileiros contemporâneos, são praticamente as mesmas que eles já viveram nas mãos dos autores do modernismo, do pré-modernismo, do realismo ou do romantismo".
Em busca de uma solução possível para esse dilema, evoca o poema "À Espera dos Bárbaros" (1904; disponível em português em http://aesperadosbarbaros.blogspot.com/), do poeta Kostantínos Kaváfis (1863 - 1933), que, nas palavras de Bras, defende que "Os bárbaros são a solução para uma civilização cansada e decadente, cuja sobrevivência depende de uma urgente renovação genética". O extraordinário é que Bras acredita que é nos "temas da ficção científica são a semente desses guerreiros que, ao fecundarem a prosa cansada e decadente do mainstream, ajudarão a gerar contos, novelas e romances mais consistentes, menos artificiais".
Espantosa proposição, ainda mais considerando que Bras é pseudônimo de um dos autores mais destacados do mainstream brasileiro. Kaváfis era grego, o povo que, na antiguidade, dividiu a humanidade entre civilizados e bárbaros - e não obstante ele aparece, ironicamente, conclamando os bárbaros como solução. Bras, parte da alta literatura, aquela que tem dividido o mundo das letras entre mainstream e os "gêneros menores", faz conclamação semelhante. Admirando a pujança e a variedade do fandom de FC, defende que "O encontro amoroso desses procedimentos expressivos típicos do mainstream com as situações e os temas típicos do fandom, esse encontro necessário vai revigorar os heróis da corrente principal da literatura brasileira. O ânimo e a motivação voltarão".
É claro, os bárbaros aqui devem ser vistos como aqueles exteriores ao sistema de valores e às tradições do mainstream, que, por sua vez, sempre buscou a renovação dentro de uma chave de continuidade das suas preocupações tradicionais, sob forma de ruptura e de desenvolvimento da sua tradição. Olhar para os lados, para um gênero exterior à tradição, como é a FC, é suprema ousadia.
Entrevistado pelo escritor Lima Trindade, na revista eletrônica Verbo21 em abril de 2009 (veja em http://www.verbo21.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=387&Itemid=135), Bras estendeu sua reflexão, deixando um ponto de crítica à tendência corriqueira da FC: "A literatura brasileira contemporânea não é apenas o mainstream. Há inúmeras correntes secundárias fluindo subterraneamente. A minha predileta é a da ficção científica, pouco apreciada pelos cadernos literários e pela crítica acadêmica. Por quê? Certamente porque nos contos e romances de FC o conteúdo é muito mais importante do que a forma, que sempre deve estar a serviço do enredo, da trama, da história. Mas afirmar a importância do enredo sobre a linguagem, e não o contrário, é uma verdadeira heresia numa cultura ainda francamente modernista, que por mais de um século reduziu a pó os enredos, as tramas, as histórias.
Para o cânone modernista, antes de se preocupar com o enredo o prosador deve se preocupar com o tempo narrativo, o espaço, o mundo interior do narrador e das personagens, a linguagem. "Já o problema da grande maioria dos contos e romances de ficção científica é a excessiva preocupação apenas com o enredo, em prejuízo das outras categorias narrativas. Isso revela a total falta de cultura literária, a total falta de refinamento". Indo além, ele afirma em que "o melhor dos mundos, hoje, é a união das duas correntes: a preocupação da FC com o conteúdo somada à preocupação modernista com a forma", e dá exemplos, entre os quais: "Mestre-de-Armas", conto de Braulio Tavares, o romance de Fausto Fawcett, Santa Clara Poltergeist, e os contos "Em Camadas", de Fábio Fernandes, e "Meu Nome É Interno", de Jacques Barcia. Por fim, Bras exime os leitores ou o mercado editorial de responsabilidade pela mesmice.
Pensando em aprofundar a polêmica, Bras me pediu que escreve um texto a respeito, em sua coluna no Rascunho. O ensaio, "Um Bárbaro que se Preze não Vem para o Chá das Cinco", saiu na edição de maio (veja em http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=3&lista=1&subsecao=58&ordem=3002). Nele, eu recordo que já havia empregado a mesma metáfora e a mesma referência a Kaváfis, cerca de dez anos atrás, conclamando os bárbaros da FC aos portões do Império das Letras Tupiniquins, mas sem sucesso.
A situação de hoje é outra, com muito mais dinamismo entre os praticantes do gênero, mas lembrei que "a aproximação da FC com o mainstream já havia ocorrido na década de 1970, quando o gênero forneceu imagens e abordagens que resultaram num ciclo bem prolífico de narrativas distópicas de crítica ao regime militar, à tecnocracia, ao conservadorismo sexual, à degradação ambiental. Mas de tudo o que foi feito então, a história literária escolheu preservar O Fruto do Vosso Ventre (1976), de Herberto Sales, e Não Verás País Nenhum (1982), de Ignácio de Loyola Brandão, e pouco mais do que isso. Sobressaiu-se a nascente ficção urbana e o fantástico brasileiro de Murilo Rubião e José J. Veiga, de linhagem kafkiana mais prestigiosa. Terminada a ditadura, o casamento da FC com os autores mainstream logo acabou em desquite. Coube aos fãs, pouco interessados em sua utilização política mas com o DNA da FC no sangue, manter a chama acesa, retornando às suas raízes e às convenções literárias específicas".
A preocupação maior é a de que aconteça com a FC o que aconteceu com a ficção de crime no Brasil, que "do choque da FC com o mainstream surgirá uma nova nação literária, ou se o gênero será absorvido pela mesmice, como a ficção de crime que Rubem Fonseca introduziu na literatura brasileira e que hoje parece ter perdido a chance de se configurar como gênero livre para buscar seus próprios caminhos". Se o bárbaro vai deixar as estepes ou a floresta negra para atacar o império, ele deve ter suas próprias razões e objetivos.
Terra Magazine