Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Roberto Souza Causo

Sábado, 4 de julho de 2009, 08h14

Colóquio "Convite ao Mainstream" - II

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Resumida a questão nestes termos, abro aqui a discussão para a comunidade de ficção científica. Convidei várias personalidades de dentro e de fora, fãs, autores, acadêmicos, para opinar. Cada um recebeu os dois artigos e a entrevista, e aqui segue uma primeira rodada de observações. Textos mais longos aparecerão na próxima coluna. Fica o convite para que nossos leitores opinem, mas sugiro que com a leitura dos artigos e da entrevista, a partir dos links fornecidos.

Rogers Silva, escritor: Parabéns pelo seu artigo publicado na edição de maio no jornal Rascunho. Gostei muito. Consistente e esclarecedor, com um pouquinho de polêmica, o que é sempre bom. Concordo com você quando diz: "Imperam ainda uma rejeição histórica do enredo e o desinteresse em representar a face multicultural de um país que não é apenas um continente, mas corte transversal de múltiplas eras: da idade da pedra à era do microchip". Você tocou num ponto crucial da literatura recente/contemporânea brasileira - muitos escritores subestimam o valor de uma boa história em detrimento de brincadeiras, às vezes vãs, com a linguagem.

Veja também:
» Colóquio "Convite ao mainstream" - I
» Mesa-redonda sobre literatura de horror 09
» DROPS

Sei que a literatura é a arte da linguagem, mas quando a literatura não diz nada, gira em torno de si mesma, privilegia os poucos entendedores e acadêmicos, é triste. A FC, pelo menos, na maioria das vezes é despretensiosa nesse sentido, como disse. Talvez o grande autor de FC será aquele que conseguir ser uma espécie de Guimarães Rosa do gênero, que é um gênio porque conseguiu escrever ótimas histórias, complexas-profundas-mas-instigantes-porque-humaníssimas, com um estilo orginalíssimo. Surgiu ou surgirá um?

Tibor Moricz, escritor: A ficção científica brasileira é um alienígena montado num jumento portando uma espada de pau. Ele a brande desvairado, desferindo golpes a torto e a direito, mas sem atingir mais do que o limitado fandom é capaz de proporcionar como alvo. Enquanto os escritores de FC não acordarem para o fato de que a forma é tão importante quanto o conteúdo, não deixarão de ser uma literatura de submundo. O alienígena não se verá montado num tetratóptero metamórfico antigravitacional e sua espada de pau jamais se tornará um sabre de luz.

O mainstream está logo ali, virando a esquina. Então por que é tão difícil chegar lá e dialogar com ele, sem obstáculos? Porque os escritores de ficção científica brasileira se veem, basicamente, como contadores de história. Esquecem-se de que são ESCRITORES e têm, com isso, uma pesada responsabilidade. "O mainstream e a FC configuram universos diferentes, que raramente se tocam". A interferência causada pelo cruzamento dos dois universos só será possível quando nós, autores de FC, conhecermos e utilizarmos os códigos necessários para isso. Não é o leitor refinado nem o acadêmico do mainstream que deve descer as escadas para o subterrâneo; somos sós que precisamos galgá-las. E rápido, para não tornarmos nossa extinção irreversível.

Alvaro Domingues, fã e blogueiro: Sempre li de tudo. Comecei por histórias em quadrinhos, passei para a literatura policial e livros de aventura e depois, a partir de um certo momento, muita ficção científica. Tomei contato com o que era chamado de mainstream apenas nas aulas de Literatura. Gostei de alguns autores, entre eles Machado de Assis (mas nunca consegui terminar de ler Memorial de Aires), os poetas românticos e simbolistas, Manuel Bandeira, a literatura medieval (descobri o Rei Arthur a partir da Demanda do Santo Graal). Detestei o parnasianismo, o romance Senhora, que me afastou de José de Alencar por um bom período, e a fase "romântica" de Machado de Assis.

Quanto escutei pela primeira vez o termo mainstream, numa das reuniões do CLFC, associei-o imediatamente à literatura oficial, àquela que um dia alguém iria cobrar no vestibular. Aquela que vira nas aulas de Literatura. Não era o que eu lia por prazer. As divisões e classificações sempre me pareceram artificiais e, mas mesmo assim, necessárias, porque o ser humano gosta disso, desde quando Platão começou a dividir tudo em dois grupos, que depois se subdividiam ad naseum... Sempre achei que algo me escapava nesta divisão. Inácio de Loyola Brandão, por exemplo. Escreveu Dentes ao Sol, que li com imenso prazer. Para mim era Literatura Fantástica, um dos subgêneros marginais ao mainstream. No entanto era um autor da corrente principal.

Uma das interrogações é Paulo Coelho. Para mim ele é um mau escritor. Eu penso que os livros deles não são muito diferentes de textos de pulp fiction que se compra em bancas de jornais, mas não são tão divertidos. E ele está lá, na Academia Brasileira de Letras... A mensagem dita em voz bem alta por Luiz Braz em seu artigo "Convite ao Mainstream" era bem simples e contundente: desçam de seus pedestais ou esperem que eles sejam quebrados por uma onda de ataque dos "bárbaros". Os bárbaros seriam os escritores das chamadas literaturas de gênero, em especial a ficção científica. No meu entender o que Braz exorta não é a simples concessão, mas acolher, assimilar e incorporar a ficção científica ao seu fazer literário, não simplesmente puxar um ou outro para seu pedestal (como fizeram com Paulo Coelho) ou escrever alguns textos com técnicas do gênero (como fez Inácio de Loyola Brandão fez em Não Verás País Nenhum).

Seria agora o momento de ruptura. Está é uma coisa que lembro bem das aulas de Literatura e História: momentos de ruptura não são tranqüilos. Isso remete á semana de 22 e à Questão Coimbrã. Ou à queda de Roma, como muito bem lembrado por Luiz Braz. Que seja então agora!

Ramiro Giroldo, acadêmico: Pretendo me deter em um ponto discutido por Luiz Bras em seu artigo "Convite ao Mainstream", a antítese entre a ênfase na forma em detrimento do conteúdo e a ênfase no conteúdo em detrimento da forma. Ora, embora a ficção científica seja categorizada por meio de traços temáticos ou, se preferirem, pelo seu conteúdo e não pela forma, sabemos que a obra literária capaz de proporcionar uma experiência plena ao fruidor deve articular forma e conteúdo de forma a impossibilitar uma distinção mecânica entre esses dois elementos.

Ou seja, o "conteúdo", para de fato produzir sentido na literatura, deve ser elaborado em uma "forma" que o ecoe. Isso é verificável na ficção científica, da sobrecarga informacional tipicamente cyberpunk à dicção lírica de um Bradbury. Assim, é bastante significativo o olhar que Luiz Bras volta à corrente principal da literatura brasileira. De acordo com seu ponto de vista, se ela não tem um conteúdo de proporcional relevância à sua forma, não pode nunca proporcionar uma experiência de leitura completa, antes desequilibrada e insuficiente. Que o mainstream possa aprender com a ficção científica a articular forma e conteúdo é a novidade que pode ser abstraída do texto de Bras.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 

Exibir mapa ampliado

Tags

O que Roberto de Sousa Causo vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela