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Sábado, 4 de julho de 2009, 08h14 Atualizada às 14h57

Mesa-redonda sobre literatura de horror 09

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

A Oficina de Produção & Estudos de Literatura Fantástica (http://opelf.org/) realizou, como parte do Segundo Ciclo de Debates sobre Literatura Fantástica, a mesa-redonda sobre horror, no dia 20 de junho de 2009. O bate-papo aconteceu no Shopping Center Bourbon, em São Paulo, e contou com a participação dos escritores André Vianco, Alexandre Heredia, Nelson Mgrini e Martha Argel, com mediação de Janaina Azevedo Corral (http://janazevedo.grupoceos.com.br/), da OPELF.

Antes da fala dos autores, porém, houve uma homenagem a Silvio Alexandre, ubíquo editor e agitador cultural da área de FC e fantasia em São Paulo, criador e organizador da FantastiCon, o principal evento do campo no Brasil desde 2008. Além de receber uma placa em reconhecimento por seus anos de atuação editorial e organização de eventos, Silvio Alexandre recebeu de Janaina e Horacio Corral a doação da marca e do domínio "FantastiCon", que havia sido registrado por uma outra pessoa. Sem dúvida, um dos gestos de maior generosidade que eu já testemunhei dentro da comunidade de FC e fantasia no Brasil. Silvio ficou justificadamente emocionado.

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Inquirida por Janaina quanto ao que o público quer, em termos de ficção de horror, e como desenvolver o gênero no Brasil, Martha Argel (as damas primeiro!) disse que não enxerga o horror como o centro da sua produção pessoal, e afirmou que o gênero ainda não é um campo estabelecido no Brasil, e que nossos autores de horror escrevem outros gêneros. Tratando da avassaladora corrente de ficção sobre vampiros, Argel afirmou que muito disso não se encaixa no horror, mas na aventura ou na fantasia.

André Vianco se afirmou um escritor de "fantasia sombria" (ou dark fantasy, como dizem os americanos e ingleses, eu suponho), e mencionou seu último livro, O Caminho do Poço das Lágrimas (Novo Século, 2008), que apresenta uma personificação da morte, mas que está mais para a fantasia do que para o horror.

Alexandre Heredia, autor do romance O Legado de Bathory (Alaúde, 2005), afirmou que literatura é arte e portanto se sustenta na dupla necessidade de ser revolucionária e de refletir ou capturar o espírito do seu tempo. Como vivemos a revolução da informação, a literatura de horror deveria refletir isso, saindo do calabouço e absorvendo essa perspectiva. Muito interessante, e eu gostaria de ter visto uma discussão mais profunda sobre essa idéia. Enfim, Heredia disse que o gênero permite a reflexão em torno de temas tabus como a morte.

Nelson Magrini, que escreveu os romances Anjo: A Face do Ma (Novo Século, 2004) e Relâmpagos de Sangue (Novo Século, 2006), se enxerga como um escritor de suspense e de mistério, que deseja causar medo, embora não tenha escolhido ser um autor de horror visando atingir um segmento do mercado. O gênero para ele é uma inclinação natural.

O debate orbitou esses conceitos, com os debatedores se esquivando dos rótulos - o que é a postura básica do escritor brasileiro, e por isso mesmo pouco reveladora. O que ficou claro é que, sob a expressão "literatura de horror" se abrigam tendências diversas, boa parte pendendo para a ficção romântica e juvenil, como ilustra o mega-sucesso Crepúsculo, de Stephenie Meier - situação que os observadores americanos da literatura especulativa resolveram chamando essa tendência de "fantasia urbana" (urban fantasy), como o fizeram os editores da Locus - The Magazine of the Science Fiction and Fantasy Field, na edição de maio de 2009. Muitos gêneros, é claro, são na verdade clusters de gêneros ou subgêneros, como ocorre com a ficção científica e até mesmo a ficção de crime (que engloba a ficção de detetive, o mistério, o "épico de gangsters", o thriller noir, e assim por diante).

Especialmente interessante, na noite da mesa-redonda, foi observar o sucesso de André Vianco, best-seller absoluto dentro do campo do horror no Brasil. Seus fãs eram os mais entusiásticos, atirando-se no pequeno tablado do auditório, quando Vianco sorteou livros, e mais tarde fazendo uma fila enorme no mezanino da Livraria Cultura do Bourbon, para ganhar um autógrafo. Muitos tinham sete ou oito dos tijolões de Vianco, numa pilha mal equilibrada.

Incomodado com a situação do escritor assinando em pé, com o prospecto de horas ali dando autógrafos, fui pedir a duas moças da livraria que improvisassem uma mesa-e-cadeira para ele assinar os livros sentados. Com típico zelo burocrático, elas disseram que normalmente as sessões de autógrafos aconteciam lá embaixo. Tive de explicar que a sessão "oficial" acontecia de fato lá embaixo, e que aquela a que eu me referia era a "não-oficial".

Quem fazia a sessão oficial era Martha Argel, em outro pré-lançamento do seu romance O Vampiro da Mata Atlântica (Idea Editora, 2009), e enquanto migramos lá para baixo para estar com ela, vimos que Vianco finalmente estava sentado (ainda que tivesse que se levantar com freqüência, para aparecer numa foto com um fã), não sei se resultado da minha intervenção ou não.

Um fenômeno. Muitos dos escritores presentes - alguns, como eu, veteranos que sonhavam em testemunhar algo semelhante há cinco ou dez anos atrás, mas sem realmente acreditar na possibilidade - partilharam a sua "inveja do Vianco", o que na verdade deve soar muito mais positivo do que negativo. Enfim, o campo da "literatura fantástica" (eu prefiro a expressão "ficção especulativa" para designar o conjunto FC, fantasia e horror) produziu um best-seller e um autor cult de milhares de leitores. Antes, nossa inveja era de uma personalidade remota, habitante dos Estados Unidos ou Inglaterra, e com quem raramente poderíamos conviver ou trocar idéias.

E fiquei feliz com a participação de Vianco na mesa-redonda, especialmente porque desta vez ele não expressou algo que vinha se tornando hábito testemunhado em outras participações dele em eventos - a tendência de se desculpar veladamente pelo seu sucesso. Não precisa. A minha convicção é a de que o sucesso de André Vianco honra a ficção especulativa brasileira, e repercute no mercado como um todo, abrindo portas para muita gente.

Alguns dos escritores que estiveram no evento do dia 20, na mesa ou na audiência, estão a caminho de alcançarem a medida de sucesso que lhes cabe, mas no momento eu acredito que todos estão satisfeito com a constatação de que André Vianco é nosso!

*

Uma escritora que certamente está a caminho do sucesso no campo do horror ou da fantasia urbana nacional é Martha Argel, e no dia 30 de junho minha esposa e eu fomos até a Megastore da Saraiva no Shopping Pátio Paulista para o lançamento oficial de O Vampiro da Mata Atlântica. Martha Argel, a autora, deu uma palestra muito interessante sobre sua vida como bióloga e escritora, apresentada pelo sempre educado e profissional editor Rodrigo Coube, da Idea Editora, que em anos recentes vem investindo também na carreira da escritora de fantasia Helena Gomes. Na platéia, que entupiu o pequeno auditório da Saraiva, Silvio Alexandre, Giulia Moon, Humberto Moura Neto, Billy Argel (irmão de Martha e autor da ótima capa do livro), Eric Novello, Kizzy Ysatis, e muitas outras figuras do fandom de horror e de ficção científica. Silvio Alexandre foi um dos responsáveis pela existência do livro, ao sugerir que Martha ampliasse uma noveleta de vampiro ambientada no Alto Ribeira, e que utiliza muito da experiência da autora como bióloga e pesquisadora nessa região do Estado de São Paulo. Muitos colegas de Martha da biologia e da preservação ambiental também estavam presentes.

No romance, dois biólogos pesquisam a região do Alto Ribeira, de Mata Atlântica ainda em boa forma, quando se percebem espreitados pela criatura revelada no título. Sem dúvida, premissa e ambientação muito originais.

A palestra foi fascinante, e deveria ser levada às escolas do ensino fundamental e médio. O livro, que tem uma seção final tratando das questões científicas presentes na história, está sendo dirigido ao público jovem. Então certifique-se de procurá-lo na seção de juvenis das livrarias, embora o livro deva interessar ao leitor adulto também. O Vampiro da Mata Atlântica terá parte dos direitos autorais revertidos a uma organização preservacionista internacional do qual ela faz parte: a Wildlife Conservation Society (http://www.wcs.org).

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Reprodução
Imagem do livro O Vampiro da Mata Atlântica

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