
Paulo Nassar
De São Paulo
Nos dias apressados, urbanos e interesseiros em que vivemos, comunicar a morte é ainda mais difícil e incômodo. Porque nos lembra a nossa própria mortalidade inescapável e porque sempre causa algum tipo de dor. Nas cidades, especialmente nas grandes, não há espaço e tempo para os mortos. Os moribundos definham e seus gemidos alcançam apenas parentes dedicados, médicos apressados e paramédicos pobres. Talvez, no extremo, os religiosos, policiais e jornalistas sejam lembrados, por conta de suas funções de liberar mitos e encerrar histórias. Mas o que dizer de quem foi?
Agora em junho, entre as muitas mortes de sempre, ainda dentro da ordem natural das coisas, algumas foram noticiadas com grande estardalhaço: os quase anônimos passageiros do vôo 447 do avião da Air France; as vítimas da chamada "gripe suína"; o ator David Carradine; a alemã Pina Bausch, uma das maiores coreógrafas contemporâneas e revolucionária da dança; a atriz norte-americana e símbolo sexual de uma época, uma das "Panteras", a bela Farrah Fawcett, e o cantor e dançarino norte-americano Michael Jackson. Estas notícias procuraram esgotar ao máximo o fascínio que celebridades, sobretudo mortas, ainda podem despertar nos incautos e fragilizados cidadãos comuns, e renderam uma prolongada espetacularização do privado no âmbito público. Venderam muito jornal.
Para o jornalista e escritor norte-americano Gay Talese, em entrevista para a Folha de S.Paulo, de 2 de julho, "Michael Jackson é bom exemplo do que pior tem acontecido. A imprensa deve desculpas a ele pela forma horrível como o tratou. Ele começou a morrer quando as acusações ganharam as manchetes. Em conluio com os acusadores, estava a mídia americana. Agora que está morto, seja qual for a razão que o legista der, não vai fazer diferença. Todos se lamentam, como se fosse uma tragédia nacional. Mas ele já era uma tragédia nacional todos esses anos e ninguém o ajudou. Viveu em infâmia. Morreu difamado antes de ter morrido". O tratamento midiático da morte de Jackson é arquetípico, uma repetição de outros artistas como Marilyn Monroe, Jimmy Hendrix, Elvis Presley, Cazuza, Cássia Eller e outros.
Metonímia e Mercado
A revista Veja, na edição de 27 de junho, deu um tratamento metonímico à morte de Jackson. A capa em negro, vista como lápide, trazia seu nome, data de nascimento e morte e sua luva cravejada de brilhantes, na exibição da parte pelo todo. Cássio Loredano, em sua coluna no "O Estado de S. Paulo", de 27 de junho, também utilizou a metonímia. Despediu-se poeticamente do artista ao mostrar um par de sapatos de dança, igual ao usado por Jackson. A capa da revista Época, de 27 de junho, quis mostrar a transcendência, a leveza e a poesia por meio de uma representação do artista a transitar entre humano e o angelical. A corporação Sony publicou nos principais jornais um anúncio em que se despedia de Jackson, sem esquecer-se de estampar capas de CDs e DVDs do artista, comercializados por ela.
O relato metonímico da morte e do morto, quando bem feito, pode resumir instantaneamente uma vida; o risco é transformar a metonímia em um fragmento. Michael Jackson era mais do que um par de sapatos ou uma luva. O mito é metahumano.
O jornal "New York Times" dá espaço às mortes ao publicar pequenas e bem contadas histórias de pessoas comuns, de maneira que nos faz sentir, mesmo sem tê-las conhecido. Uma coleção dessas narrativas está no "O Livro das Vidas - Obituários do New York Times", vários autores, editado no Brasil pela Companhia das Letras.
Diante da dificuldade de tratar a morte com a dignidade devida, cabe-nos lembrar a necessidade de nos educarmos diariamente para ela. Afinal, como bem lembrou o sociólogo Norbert Elias, "a morte é um problema dos vivos".
Fale com Paulo Nassar: paulo_nassar@terra.com.br
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