
Atualizada às 08h33 Alberto Fonseca
Como qualquer um que abra a ferramenta do "Google Maps" poderá ver, vindo de minha casa na praça Bryanston Square, e descendo a Great Cumberland Street a pé, a partir do numero 51 (casa da Madonna, como explicado na coluna da semana passada), eu chegava ao cruzamento da rua Upper Berkeley. E, em seguida, a um curioso lugar chamado "Great Cumberland Crescent".
Curioso, por quê? Porque sede de duas instituições bastante dispares, eu diria.
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Uma delas, um hotel de nome bastante inglês, mas, de propriedade de um grupo japonês, e que praticamente só recebe executivos daquele país.
Trata-se do único hotel em Londres a servir o autêntico café da manhã japonês; com pratos quentes, sopas de peixe e coisas do tipo.
Se você, caro leitor, cara leitora, estiver passeando por Londres e tiver vontade de experimentar uma pitada de exotismo, entre ali no domingo de manhã e tome o café da manhã rodeado (ou rodeada) de nipônicos endinheirados. Depois me diga o que achou.
A outra instituição, uma belíssima e tradicional sinagoga, onde volta e meia realizam-se alegres casamentos judaicos.
Não por acaso, do outro lado da rua, em frente ao "Great Cumberland Crescent", no passeio que eu usava quando passava por ali de manhã, havia um prédio bem feio, provavelmente do fim dos anos 1940.
Os prédios levantados em Londres nessa época - substituindo construções derrubadas pelas bombas do 3º Reich na Segunda Guerra Mundial - obedecem, em geral, a uma linha arquitetônica que talvez se possa chamar de "funcionalista", de gosto bastante duvidoso. Em bom português, são prédios feios mesmo.
Voltando ao assunto. No passeio, pelo qual eu passava todos os dias, em frente a esse conjunto habitacional na Great Cumberland, achavam-se quatro árvores surradas, cuja espécie ou nome botânico ignoro.
Uma delas, tinha, na base do tronco, a seguinte placa afixada: "Plantada em 1998, em homenagem ao cinquentenário da criação do Estado de Israel".
Confesso que, todos os dias, eu parava em frente aquela incrível e inverossímil homenagem, e me inclinava à beleza daquele gesto.Aquela placa, discreta, pequena, no chão, carcomida pelo tempo e as intempéries, enegrecida pela fuligem, me emocionava.
Porque nunca vi nenhum passante prestar-lhe atenção. E porque aquela árvore era apenas uma, de um conjunto de quatro árvores, todas inexpressivas.
Então, ela ficava mais inexpressiva ainda.
No entanto, ela ali, anônima, esquecida, comemorava e homenageava a data de 14 de maio de 1948, quando ocorreu um dos mais significativos e gigantescos fatos da historia mundial no século XX, fato esse que influenciou - e até hoje influencia - a vida de milhões de judeus (e não-judeus) por todo o mundo conhecido.
Aquela árvore simplesmente existia, ponto final. Apos o fim do Mandato inglês na Palestina, datado de 1916, cria-se o Estado de Israel, imediatamente Egito, Iraque, Jordânia, Líbano e Síria atacam, os israelitas reagem, a guerra se estende por alguns meses, ao final os árabes são derrotados, 750 mil palestinos são exilados, começa um dos impasses mais importantes da historia contemporânea.
Esse, o filminho que passava na minha cabeça, por alguns segundos, toda vez que eu lia a singela plaquinha isolada no chão da rua Great Cumberland Street.
Talvez a árvore homenageadora nem soubesse de nada disso, mas aquela árvore, aquela plaquinha, não tem sua razão?
Bem, deixarei de filosofias e chegarei agora ao ultimo passo, a etapa final de meu caminho para o trabalho em Londres, como o fiz por todo o ano de 2008.
Descendo ainda um pouco mais a rua Great Cumberland, e quase chegando ao cruzamento com a avenida Park Lane, onde esta o famoso monumento chamado "Marble Arch", a estação de metrô que leva o mesmo nome, e já praticamente na vizinhança da Embaixada, eu chegava em frente ao moderníssimo (recém reformado) hotel, chamado "Cumberland Hotel".
Há uma mentirinha, contada para encantar turistas desavisados, de que Jimi Hendrix se suicidou jogando-se da janela do Cumberland. Várias vezes contei essa patacoada a amigos londrinos, para ver o que aconteceria... E muitos acreditaram!
Hendrix, na verdade, morreu na cama de sua casa em Notting Hill (sim, o mesmo bairro do charmoso filme que leva esse nome). Motivo: overdose de pílulas para dormir. Pílulas essas que o guitarrista surrupiou de uma estudante alemã que morava com ele na época.
É verdade, sim, que algumas vezes o guitarrista norte-americano se hospedou no hotel Cumberland em suas idas a Londres. Na época, o Cumberland era muito barato, e muito menos "respeitável". Mas, nada de suicídio.
No entanto...
Durante meu período em Londres, levei uma vez certo Ministro brasileiro (que não está mais na sua Pasta) para hospedar-se no Cumberland. Hoje, um hotel chique e bacana, diga-se.
No dia seguinte, a autoridade me comentou que havia passado calor a noite, e que tentara de todas as maneiras abrir as janelas do quarto. Só que elas não abriam, eram seladas em todo o prédio.
Não pude deixar de pensar, caro leitor, cara leitora, se a versão apócrifa do suicídio, o suposto "salto" de Jimi Hendrix por uma das janelas do hotel não teria algo a ver com o fato...
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