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Quarta, 8 de julho de 2009, 07h47

Arroz com mogango, perada e laranjas de sobremesa

Amilcar Bettega
De Paris

Tão longe ficara aquele mundo de aula todos os dias, os colegas maiores, os professores, tão adiado para daqui a um mês que nem a chuva e o barro punham medo - o pai era bom no braço. A pick-up ziguezagueava na estradinha, o menino deixava o corpo solto entre a mãe e o pai, indo do ombro de um ao do outro. Passaram o mata-burro e, quando se aproximavam das casas, já os cachorros vieram latir à volta do carro, pulando, se arriscando nas rodas.

Na varanda a vó Chica esperava. Ela cobriu o menino de beijos enquanto ele sentia da cozinha o aroma do café com leite e pão torrado. Antes que tivesse frio, puseram-lhe um casaco de capuz forrado com lã. Sem pedir, recebeu um pedaço de queijo furado com rodelas de salame; o leite fumegava à sua frente.

O dia na fazenda recém começava. O pai foi sem demora para o campo, montado no rosilho a cada ano mais bonito. Seu Terêncio acompanhou, foram buscar umas vacas atrás do capão. Ficou o menino querendo ir com os homens, meio que choramingando; mas, homem chora? Além do mais, um leitão todo embarrado se enredava nas suas pernas, disparando para trás da casa. O menino o seguiu e achou gansos, galinhas, cachorros e um monte daqueles bichos que só via durante as férias na fazenda. O porco atiçou um ganso, meteu-se entre as galinhas e, à investida do cão, rebolcou-se no barro. O menino estava próximo do bicho quando a voz fininha da vó o chamou. Apanhariam laranjas. Depois, fariam perada.

A vó carregava uma vara comprida com um gancho de arame na ponta; o menino, um cesto de vime. Ela escolhia as melhores frutas com o gancho em torno do caule. Ao safanaço da vara, ele acompanhava, com as mãos juntas, o despencar da laranja por entre os galhos, aparando-a antes que caísse no chão, era um bom goleiro.

Ao regressarem do pomar, ele percebeu o movimento diferente no pátio. A Esmeralda carregava um chaleirão de água fervendo, a mãe, de avental, afiava uma faca enorme, e o Tonho, filho do seu Terêncio, empunhava um ferro comprido e pontudo, parecido com uma espada. Uma mesa de madeira com sulcos riscados à faca fora colocada sob os cinamomos. Tonho largou o ferro-parecido-com-uma-espada e em pouco voltou trazendo nos braços o leitão todo embarrado. O porco grunhia muito. Colocaram-no sobre a mesa, de barriga para cima, e dois homens o seguraram pelas patas bem abertas. O menino correu para a mãe, puxou-a pelo avental. Ela o afastou dizendo que fosse brincar pros lados do galpão. O porquinho guinchava feio, dava nervoso de escutar. Tonho mediu com o palmo o peito do animal e, onde bateu o dedo mínimo, levantou o ferro bem de pé, a ponta fininha pesando na pele. Os guinchos aumentaram. Tonho agarrou com as duas mãos o cabo de madeira e, num movimento seco, como quem atravessa uma melancia, enterrou um tanto da haste direto no coração. Largou o cabo e deu um passo pra trás. O ferro pulsava - cravado feito pau de bandeira - e pulsava, agora cada vez mais lento, até cessar de todo, junto com o último guincho. O menino fechou os olhos e engoliu com barulho. Esmeralda levantou a chaleira e despejou água fervente sobre o corpo do animal. Cobriram-no com sacos de estopa e em seguida várias lâminas de faca raspavam-lhe a pele. Ele ficou tão branco quanto o menino nu depois do banho. Aos poucos foram abrindo o leitão, retalhando a carne e esparramando na mesa tudo o que ele tinha dentro. A buchada soltava fumaça num cheiro quente, enquanto Tonho decepava a cabeça do animal com a ponta do facão separando as vértebras abaixo da nuca. O menino encostou-se na árvore, de mão no bolso. Nunca vira a mãe assim, com os braços sujos de sangue até o cotovelo. Nem queria falar com ela. Muito menos com o Tonho. Ficou à distância, observando as partes sendo dependuradas num caibro entre os cinamomos. Atiraram o bucho pros cachorros.

Foi quando a vó convidou para mexer o doce que então se deu conta do cheiro da perada que borbulhava no tacho. A vó segurava a pá de madeira na altura do peito e mexia a massa vermelha em cima da trempe de ferro. Vez em quando ela atiçava o fogo com mais lenha, e o aroma doce que se desprendia apagava o odor de sangue do ar.

A manhã correu ligeiro: o menino passeou na horta, sujou-se na mangueira, tocou tropa de osso, e o leitãozinho ficou perdido na lembrança como a vaga idéia de um sonho ruim. Quando uma ponta de sol apareceu entre as nuvens, ele avistou os homens voltando do campo. Antes que desencilhassem os cavalos, deu uma voltita na garupa do rosilho. O fogo estalou na lareira e ele encheu mate para todos. Com a vó Chica, tomou mate-doce numa cuia prateada que ficava em pé sozinha. Tudo muito rápido, não sobrava tempo para pensar em outras coisas. Só quando percebeu um vazio grande no estômago, se deu conta de que era quase meio-dia. Tinha fome, uma fome urgente, que de um momento para outro pareceu-lhe insaciável. Desejava abocanhar o que estivesse ao alcance dos olhos e das mãos. Tinha a fome do mundo - aquela que mata. Era, sim, questão de vida ou morte.

Foi com alívio que sentiu o cheiro do almoço penetrar-lhe fundo. Sentaram à mesa, Esmeralda trouxe os pratos. Primeiro a travessa do arroz, um fumego só, depois o feijão, a mandioca frita, o mogango e, por último, como a grande atração de um circo, lá estavam, rodeadas por folhas de alface e rodelas de tomate, as mesmas bochechas gordas e focinho chato que vira pela manhã. A cara ainda guardava um ar risonho, porém faltavam-lhe o corpo e o movimento. Não trazia a pele suja, mas dourada e reluzente; as orelhas estaqueadas. O menino olhou para a vó Chica e deu com os olhos dela brilhando para o prato, os dedinhos roçando os talheres. O pai desfraldava o guardanapo e o levava ao peito. A mãe ergueu a faca que luziu sobre a cabeça do porco. - Não - gritou o menino. - Não quero. - E levantou, não tinha mais fome, estava enjoado. Uma bola foi crescendo por dentro dele. Queria dormir. A vó fez cafuné, o que estava acontecendo? Ele bem que desejava dar-lhe um sorriso, mas não conseguia. Escondeu o rosto, com uma vontade de correr ao banheiro e chorar sozinho. Chorar porque não conseguia rir pra vó, porque a maldita bola não explodia de uma vez, porque de repente deu aquilo. Por que?

O pai e a mãe levantaram, fizeram carinho; a vó iniciou a história do monstro que pegava criança chorona. Insistiram que ele tinha de comer para ficar forte como o pai e casar com uma mulher bonita, igualzinha à mãe. Um dia cuidaria da fazenda, mas precisava crescer bem alimentado. O porquinho não era gente, disseram. O menino deveria comê-lo para tornar-se homem de verdade. Assim eram as coisas no mundo, tudo com sua função. E a dele era comer, bem bonito como gente grande. Nada de choro que é feio. Pronto. Já passou. Vamos comer feito homenzinho. E a mãe enxugou-lhe o rosto, beijou-lhe a testa. O pai batia palmas avisando que a comida esfriava. Tudo bem, tudo certo.

O menino almoçou, mastigando devagar, engolindo as lágrimas que de uma vez por todas lhe salgaram a boca. Vieram laranjas de sobremesa. E veio a tarde trazendo o sol, depois a chuva de novo, e o dia morreu triste como todo entardecer no campo. De vez em quando um mugido apartado varava as coxilhas como um grande lamento a anunciar mais uma noite fria de julho.

Então o menino já sentia fome outra vez.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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