
Atualizada às 10h24 |
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Fafá Valença e Carlinhos Thiré
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Deolinda Vilhena
De Santos (SP)
As infindáveis discussões sobre os caminhos e descaminhos da Lei Rouanet vão se transformar na fita banana da minha coluna, tô me sentindo Artur Xexéo, e ando prosa demais com o número de mensagens recebidas e, mais do que isso, pelo tempo gasto por algumas pessoas em responder e comentar os pontos por mim abordados.
Por isso a coluna de hoje, e a próxima, serão usadas para agradecer as mensagens recebidas, responder as perguntas feitas e tentar esclarecer algumas dúvidas colocadas. Na de hoje transcrevo algumas das mensagens recebidas e, nas próximas semanas, prometo responder a pergunta do Charles de Bragança sobre o affaire Caetano Veloso e a autorização para a captação de dois milhões de reais via Lei Rouanet para a turnê do Zii e Zie, sobre a situação do livro respondendo ao Paulo Roberto Fogaça, livreiro - profissão em extinção - e também ao Rômulo Duque de Belo Horizonte, a Débora Alencar e ao José Mattos, porque por mais que eu quisesse não há espaço para todo mundo. Vou até trabalhar em ordem alfabética para não me perder!
Adriana Cravo diz que fiz "uma brilhante explanação sobre a sociedade hiper realista que vivemos, onde o consumo e seus ideais corromperam todo o tecido social e a cultura mais do que nunca entrou para o quesito do 'vendável'. Em muitos momentos você disse exatamente o que penso da atual conjuntura brasileira. É incompreensível a falta de noção sobre a importância da educação artística na vida de TODOS assim como o sentimento de que a arte é uma necessidade e um dever conjunto, que constrói não somente a imagem, mas também os rumos de uma Nação. Ainda me surpreendo com os 'fomentadores' da cultura no nosso país e suas falácias, pois no fundo é claro e sabido que tudo só esta acontecendo pelo amor...ao dinheiro. Que (sobre)VIVA a ARTE!". E com a arte, a nossa emoção Adriana. O importante é que nossa emoção sobreviva, já dizia o Poeta Paulo César Pinheiro.
Em seguida, uma mensagem de Ana Lúcia Vieira de Andrade, companheira de batalha no mundo acadêmico-teatral, concordando comigo quando digo que "hoje existem duas categorias de artistas: os que têm acesso às pessoas que importam nas empresas e as que não têm acesso a elas e, portanto, estão fora do mercado de patrocínios. Sou muito a favor das mudanças na lei Rouanet (...) Agora, precisamos realmente nos unir para impedir que o pistolão seja também a regra do MinC. Não podemos deixar, por exemplo, que as comissões julgadoras sejam formadas só pelos artistas e pelos produtores. (...) Se o MinC conseguir dar o mínimo de dignidade ao processo, aí sim, as coisas vão mudar."
Concordo com você Ana Lúcia é preciso estar atento e forte, dizia o Caetano dos velhos tempos, mas lembre-se o que disse antes: prefiro correr o risco do dirigismo estatal e da "panelinha" teatral do que ver a cultura brasileira sucumbir ao marketing coorporativo.
Arnaldo Massari mandou recado dizendo "o Tempo dirá, não! O tempo já disse. Somente cego ou despeitado assim não enxerga. Quanto as leis, estão nas mãos dessas assembléias de meios-homens; talvez, sequer, nem isso...". De acordo, companheiro, legislar em causa própria é sempre mais fácil.
Já a Cândida Botelho publicou o Basta de lero lero no blog dela e não satisfeita fez comentários no blog do MinC.
Ela que se identifica como uma pessoa com "alma de artista e escritora, formada em arquitetura e sempre consciente de seu papel de cidadã" diz que "a Lei Rouanet até a posse do PT, sempre foi muito boa, permitiu a realização de inúmeros projetos, grandes e pequenos... cuja burocracia, até o governo do PT entrar, e mudar todo o pessoal, estava afinada e funcionava muito bem. (...) Política cultural é apenas uma questão de organização física do setore formas de financiar honestamente as atividades. Utopia é Claro. (...) Portanto essa palhaçada, esse lero lero, como você diz , levado a efeito muito mais pelo atual Juca Ferreira e sua equipe, do que por outros personagens da cultura, e talvez até que ingenuamente com alguma possível vontade de acertar, piorou e muito. Eu por exemplo não trabalho mais com a lei. Trabalho sim e faço cultura todos os dias da minha vida, pois é o que sei fazer..."
Meu amigo de berçário - ele estava no berçário e eu era enfermeira! - Carlinhos Thiré, diz que a coluna estava tão boa "que merecia um pedaço de torta de chocolate em frente ao Gláucio Gil para comemorar". A mensagem está em código, vamos à tradução.
Em 1979, no século passado, antes do advento do metrô e da desgraça de Copacabana, durante as temporadas de O Fado e a Sina de Mateus e Catirina e de A Resistência, no velho e bom teatro Gláucio Gil na Praça Cardeal Arcoverde, levava Carlinhos e Luisinha, netos de Dame Tônia Carrero e filhos de Cecil e Norma Thiré, as crianças mais lindas que até então havia visto na vida - depois vieram os netos de Beyla Genauer e Nahum Sirotsky, imbatíveis! - para comer torta de chocolate na loja Bolos de Lisboa, em frente ao teatro, a proprietária, D.Lourdes, tinha mãos de fada. As crianças cresceram, mas não esqueceram, nem da torta nem de mim...
De Santa Catarina chega a mensagem de Cláudia de Siervi, me parabenizando dizendo que meu "artigo está impecável. Divulgamos aos nossos amigos do setor cultural catarinense e pedimos permissão para divulgá-lo em nosso blog www.centauro.art.br". Visitei o blog e fiquei honradíssima com a solicitação e daqui envio meu abraço aos catarinenses.
O Dutervil Magalhães é outro leitor que parabeniza a colunista e garante que o que digo "um dia vão escutar, pois surdo de todo e todos, não é possível" . Deus te ouça Dutervil, confesso que por vezes desanimo.
Já a Joana Melo diz que ao abrir o seu provedor, Terra, encontrou um artigo que a deixou encantada, o meu simples 'Basta de lero, lero' e diz mais, que gente como eu faz com que "as pessoas possam entender um pouco dessa insuportável falta de atitude".
Mas se teve um comentário que acarinhou meu ego foi o José Eduardo Vendramini. Talvez, porque o Vendra seja um dos meus modelos, e ele arrasou ao dizer: "Parabéns pela coluna de hoje. Lembra quando falamos, aqui em casa, da comparação dos sistemas francês e brasileiro como base do projeto Fapesp? Pois é exatamente o que você está fazendo, e pedindo um passo à frente, peloamordedeus. Achei a melhor coluna de todas." Depois disso passei uma semana me achando...
Já estava voltando ao normal, quando veio a mensagem do José Luiz Ribeiro, do Grupo Divulgação - tá rolando o maior bas-fond por lá, mas vai ficar para uma coluna especial - que dizia assim: "Quanta verdade e lucidez. Num tempo em que o senado despenca, o governo nos ameaça com uma prorrogação de mais um ano ou um terceiro mandato você refrigera nossa alma. Numa 'espiral do silêncio' nosso povo não percebe o que está acontecendo. Você é importante porque é a voz que clama no deserto." . Era a mensagem que faltava para alimentar meu ego por mais uma semana, afinal o Zé sabe das coisas. E não é que a Maluh, esposa, amiga e parceira dele também escreve e me cobre de elogios?
Parece uma conspiração para que eu me torne insuportável, quem sabe um "ser nocivo" - explicação no final da coluna. Diz a Maluh: "Como sempre, parabéns pelo extremo poder de argumentação e a ironia cortante. Continuo enviando em frente." E eu continuo me achando enquanto meu texto, tal e qual a Lusitana, roda...
A Nicole - Algranti, cineasta, corajosa com quem estreei como atriz na vida - se deixou inspirar pela coluna e disse que tinha escrito "um texto crítico, porém necessário nos dias de hoje. Acredito que a Lei tende a melhorar, mas não para mim, que no dia a dia de projetos, vivo como num circo com leões. Mas esses leões me lembram aqueles pobres coitados sem dentes, criados em cativeiro. Sem o ar da graça dos selvagens. Assim comparo Brasília, e sua conjuntura política, ao leão sem dentes, no país de contos de fadas do Brasil." . Depois dessa me senti Chapeuzinho Vermelho cercada não por leões desdentados, mas por lobos maus famintos...
Todas as muitas mensagens recebidas de uma maneira ou de outra me tocaram, nenhuma como essa que transcrevo quase na íntegra, escrita pela atriz, jornalista, escritora, pesquisadora, bom caráter, cidadã, o escambau, Fátima Valença, Fafá para os amigos, entre os quais me incluo apesar de não vê-la há trocentos anos. Fafá arrasou, confiram:
"Tirando a parte do Lula, em quem votei e confio, apesar dos descaminhos de todo o governo, concordo com muito do que você diz. Por exemplo: também sou a favor da iniciativa privada continuar a patrocinar cultura, desde que com o dinheiro dela.
Também sei de casos de gente que vive da renda dos patrocínios. Conhecem todas as datas, os nomes, os prazos, os projetos, os formatos, as leis, os quesitos, as pendências, os responsáveis e, depois que conseguem a verba, ficam em cartaz por um tempo e, findo esse pequeno prazo, lá se vão em busca de novos patrocínios.
No meu caso particular, como autora, isso dói. Não vivo desse tipo de verba. Quem me paga é o publico. Quanto mais tempo em cartaz, melhor para nos, autores. Melhor para essa dramaturga que vos fala, que só tem de seu um nome que vem construindo a duras penas e com muito, mas muito trabalho.
Um ator, um diretor, um figurinista e muitos outros criadores da ficha técnica têm como fazer diversas peças num ano. Eu, quando consigo escrever um texto em quatro meses, dou graças a Deus. Em geral, levo cerca de um ano - entre pesquisa, concepção, roteiro, cenas, diálogos. Um trabalho de mouro, pelo volume, e de ourives, pelos detalhes. Ficar três meses, seis meses em cartaz é muito pouco, principalmente quando as peças são sucesso de público, que, graças a Deus, tem sido fiel aos espetáculos dos quais participo. Dele não posso me queixar, nunca.
Vivo de escrever há pouco mais de trinta anos. Tenho cerca de trinta peças montadas - todas reconhecidas pelo público. Além do respeito da classe e do carinho dos espectadores, que são tudo pra mim, tenho meu violão, meus livros e um apartamento que herdei de minha mãe, que infelizmente já partiu.
Quando um sucesso acontece num teatro de 400 lugares que pode cobrar 50 reais; quando esse sucesso permanece em cartaz um, dois anos - ufa, que alegria e que alívio! Aproveito e faço melhorias no velho apê que herdei (pintura, sinteco, reformar estofados, etc), mas nunca posso me dar ao luxo de sair torrando, a não ser nos livros (que são meu vício e meu instrumento de trabalho), porque sei que preciso guardar para os períodos de entressafra (como agora), que sempre voltam.
Trinta e seis anos de trabalho e nunca comprei um carro, muito menos um apê. Trinta e seis anos de trabalho e nunca comprei um automóvel, nem mesmo usado.
Trinta e seis anos de trabalho e nunca fiz uma viagem internacional. E quer saber? Nem faço mais questão. Uma turnê por todo o norte e nordeste do país já me faria a mais feliz das mulheres. (...) Contudo, já vi gente que, depois de ganhar um patrocínio, passa o ano novo em Nova Iorque, dia dos namorados em Veneza, passeios em Paris. Sinceramente? Não os invejo.
Sou do tempo em que as gentes do teatro tinham orgulho em citar Shakespeare quando falavam de seu amor pelo palco - "duas tábuas e uma paixão". Sou do tempo e da espécie em que verba conquistada era toda pra levantar a peça, abrir o pano e entregar o sonho das noites de verão nos braços do publico.
Sou do tempo em que fazer teatro era essencialmente fruto de uma idéia (expressa num tempo ou em movimentos), de um grupo de atores (que davam vida a essas idéias e aos seus personagens) e da platéia (a quem, afinal, se destina tudo o que fazemos). Em geral, no próprio grupo estavam aqueles que acumulavam funções, exercendo as tarefas de direção, cenografia, figurinos, luz, etc.
Hoje, quando tento reunir uma turma e faço esse pequeno discurso, dizem que sou uma sonhadora, que os tempos são outros, não é mais possível fazer teatro sem patrocínio. "Tem que ter grana pra pagar divulgador, anúncio, senão como é que vão saber que estamos em cartaz?"
Então eu lembro da minha primeira peça, quando eu, bacharel em comunicação, escrevia os releases. Cada um contribuía de acordo com seus talentos, suas prendas. Todo mundo botava literalmente a mão na massa. Pintar, bordar e representar. Mas será que eles têm razão? Hoje, sem o divulgador certo, e bem relacionado com a imprensa, você mal consegue um tijolinho!
Mas como é que, de vez em quando, um pequeno grupo, ou mesmo um indivíduo em cruzada solitária, consegue furar todo o cerco, ultrapassar todos os obstáculos, e chegar lá? Sem patrocínio, sem divulgador, sem fazer novela? Essa pergunta não consegue calar.
Bem, tinha muito mais pra compartilhar, mas essa operária das letras precisa trabalhar. Mal tenho tempo de fazer um copydesk pra ver se escrevi tudo direitinho. Por isso, minha amiga, releve os meus prováveis erros."
Que erros Fafá? Você fez a minha coluna de hoje mais bonita, tô contigo e não abro, e se o Lula nos separa, o amor pelo teatro nos une. Não por acaso vem de você a deixa perfeita para fechar a coluna de hoje, falando de diferenças.
Deixo aqui um recado para o "escultor" Paulo Taddeo, presidente do IDATE , membro do conselho da Academia Latino-americana de Artes, que deixou um comentário azedo no blog do MinC dizendo que esta doce criatura que vos escreve - e quem me conhece sabe que estou mais para agridoce do que qualquer outra coisa - é um "ser nocivo" - http://blogs.cultura.gov.br/blogdarouanet/2009/06/12/basta-de-lero-lero/.
Sr. Paulo Taddeo, não sei o Sr. conhece a máxima de Montaigne, que transformei em divisa dessa coluna, e que diz assim: "dou a minha opinião não como boa, mas como minha". Essa coluna é uma tribuna livre, possível porque vivemos numa democracia, ainda que a influência de Chávez e companhia espalhe, por vezes, um cheiro de terceiro mandato. Pé de pato, mangalô, três vezes. E, numa democracia opiniões diversas convivem lado a lado. Ter opinião diferente não faz de mim "um ser nocivo". Como pode alguém que já passou dos sessenta, arrotando cultura e berço, não ter aprendido ainda a respeitar quem pensa diferente? Perdeu o bonde da história? Tô doidinha para saber a sua opinião sobre o que escrevi, manda para deolindavilhena@terra.com.br prometo que publico sem problemas...
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
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