
Tony Monti
De São Paulo
No domínio estrito da matemática quase tudo pode se resumir graficamente a um somatório de oscilações. No entanto, como maneira de olhar as coisas, tenho a impressão de que oscilações dizem mais sobre a história da minha vida adulta do que dizem sobre as histórias dos amigos mais próximos.
Minhas oscilações têm períodos diferentes que se sobrepõem. É a soma dessas oscilações que eu vejo quando olho para trás. Por anos, passei por ciclos semanais nítidos. Minha semana era dividida mais ou menos ao meio por fragmentos de ordem e desordem. Assim também, nem sempre com muita nitidez, os dias, os meses e os anos.
Tenho tentado entender há bastante tempo o motor desses ciclos, algum padrão ou alguma relação com outros fatos da vida. Além das felicidades e das catástrofes emocionais que conduzem em algum grau o ritmo, parece haver uma lógica entre os ciclos e os momentos em que estou mais disposto à ação ou à reflexão. A disposição à ação, quando acumulada me coloca em um lugar de desordem. Perco o chão, para o bem e para o mal. A vontade é de não parar, ou parar apenas na exaustão, fazer festas de quarenta horas, seguidas de vinte horas de sono.
Do outro lado, a reflexão deixa a vida mais morna. Neste período, a geladeira fica mais cheia porque eu consigo planejar o futuro. Também chamo o encanador para consertar a torneira e troco a lâmpada queimada do quarto. Deixo o tempo passar enquanto me preparo para o combate.
Escrever
Na desordem, meus textos ficam mais sujos, eu esqueço letras e uso palavras com pouco critério. Escrevo em espasmos. Na ordem, o que digo fica à vezes tão perfeito e calmo quanto sem vida. A vida discreta ali escondida em potência pode às vezes configurar alguma beleza, mas é usualmente na desordem que, entre textos ilegíveis, aparece alguma dúvida aguda, algum momento humano mais significativo que certezas ou fatos.
O esforço é o de inserir a dúvida na intensidade invisível do texto que parece mais limpo, algum embrião de desordem na estrutura organizada dos parágrafos, uma novidade qualquer, a expressão de uma liberdade diferente. É a tentativa absurda de unir os extremos eufórico e reflexivo no mesmo texto, ainda que no dia-a-dia eu esteja sempre em um ponto intermediário.
Inércia
Tenho muitos amigos jornalistas. Eu não sou jornalista. Os textos que circulam por aí me parecem informação desnecessária, repetição do mesmo, ordem desgastada. Na pressa, e com pouco dinheiro para pagar um pensamento, as pautas são copiadas. A escolha de um livro a ser resenhado é feita antes de o livro ser lido. Não é possível ler para escolher, por falta de tempo e de dinheiro.
Perde-se assim a dúvida, não é preciso pensar, é preciso fazer afirmações. A notícia de hoje é a mesma de ontem, até a exaustão ou a morte do Michael Jackson. Eu me questiono sobre a necessidade de existir tanto texto igual, desconfio inclusive do valor de existir esta coluna. Não consigo identificar vida na repetição de um texto já escrito. O jornalismo, como o que em geral se faz, é mais uma máquina de fazer circular informação repetida e pensamentos viciados do que é uma condição para pensar, em texto, o mundo.
Parece que minha conhecida relutância em parar o pensamento por um instante, para agir, é o contrário do que se pede. Há urgência, consome-se informação automática. As pessoas ficam obesas de informação inútil. Há excesso de jornais, excesso de papel impresso com nada, cresce a inércia do mundo. Neste padrão, não é mesmo preciso estar informado (não há nada acontecendo a não ser que se pense sobre isso).
Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br
Terra Magazine