
Márcio Alemão
De São Paulo
Recebi esse texto de Andréa Esteves quando escrevi sobre a morte de Farrah Fawcett e Michael Jackson. Por considerá-lo bom, sincero e inspirador, pedi licença à autora para dividir com vocês. E ela autorizou e aqui vai.
Marcio,
Compartilhamos dessa tristeza do dia 25 de junho. As Panteras também marcaram minha juventude. Quem não queria ser um anjo de Charlie? Sobre Michael: Meus amigos mais próximos sabem da admiração que eu tinha por Michael Jackson. Minha filha, aos dois anos, influenciada pelas tias, imitava seu jeito de cantar e não atendia quando era chamada pelo nome. Dizia: - Sou Michael. As brincadeiras da infância, o convívio com outras crianças fez com que ela o guardasse na caixa de sonhos e lembranças. Aquela que todo mundo traz na alma. Essa admiração não era maior, nem diferente, da que eu nutria por Renato Russo, Cazuza, Elis, Ayrton Senna e tantos outros ícones nacionais e internacionais. Em todos os casos a repercussão da morte repentina me abalou muito. Mas Michael tinha o dom do carisma incontestável. Podia-se não gostar da pessoa, mas todo mundo sabia alguma música ou já dançou em alguma festa com os amigos seus grandes hits.
Mas a questão hoje, não é esta. É que a perda do astro de tantas gerações me trouxe de novo o medo da vida. Ou melhor, do tempo em relação à vida. Há alguns anos perdi uma irmã no auge dos 39 anos! Era fã de Michael Jackson, usava uma camiseta com a foto dele na frente. Tinha fotos suas, inclusive, uma na parede do quarto. Ajudou nossa irmã caçula a ensaiar passos de um clip e nos surpreendeu num Natal, que talvez tenha sido o melhor de nossas vidas.
Agora penso: para onde vai todo esse dom que Deus deposita numa pessoa? No caso de Michael, talento. No caso de muitos de nós, dons que não valorizamos durante a vida: a capacidade de amar, de criar filhos, de trabalhar, de cozinhar, de ser importantíssimo na vida de alguém, de saber fazer rir ou chorar. Será que Deus colhe de volta as nossas habilidades aqui na terra para doá-las misericordiosamente aos próximos habitantes do planeta?
Hoje sinto medo da vida. Não tenho medo da morte, pois já sou madura o suficiente para entender que é parte do processo. É um destino certo, portanto a surpresa fica somente pelo desfecho. Acidente? Doença? Assassinato? Não importa. Vai acontecer e nessa hora nos veremos sozinhos assim como quando nascemos.
A questão é o que perdemos durante a vida. O que deixamos morrer ou matamos em nós. A distância dos amigos, da fé, os irmãos que se foram, os pais, os filhos... Tudo isso traz dor e agonia. É verdade que morremos um pouco a cada dia, pois o tempo implacável não volta e não para.
Me apavora a idéia de deixar que a vida assuma as rédeas da minha existência sem que eu consiga pelo menos educar e preparar bem minhas filhas. A cada dia sentimos uma violenta sensação de que não há tempo para mais nada. Como conciliar tudo diariamente e ainda aproveitar o que gostamos? Vivemos mecanicamente o dia-a-dia como um relógio contando horas e acumulando passado.
A poeira do que fomos é mais espessa do que o desejo do que queremos ser ou deixar de herança aos nossos filhos. Há uma névoa densa de conformação de que a vida é assim. Não é. Não pode ser. Deus não nos deu a vida para pequenas coisas. Nossos dons e habilidades devem ser multiplicados, como na parábola dos talentos. É um empréstimo, vamos acertar contas depois.
Queremos viver mais e melhor? Lutemos por isso! Mesmo que a vida nos arraste por correntezas de perdas e momentos de dor. Mesmo que ela nos tire a capacidade de lidar com nossas fraquezas, nossos temores, vamos a ela! Estejamos nela com garras de águia, olhos de coragem, mãos de misericórdia e coração de criança para que possamos deixar aos nossos mais do que lembranças. Como Michael. Como Regina, minha irmã.
Terra Magazine