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Quinta, 16 de julho de 2009, 08h08 Atualizada às 09h25

Roberto Carlos, 50 anos de reinado

AgNews
Paquito: Roberto Carlos, oficial da mais alta patente da canção popular
Paquito: Roberto Carlos, "oficial da mais alta patente da canção popular"

Paquito
De Salvador (BA)

Meu amigo João Reis me intimou muito simpaticamente a escrever esta coluna sobre os cinqüenta anos de carreira de Roberto Carlos. O meu primeiro artigo aqui em Terra Magazine foi sobre Roberto e eu já escrevi mais um sobre o livro Roberto Carlos em detalhes, de Paulo César de Araújo, infelizmente tirado de circulação.

Parece não haver muito mais de significante a dizer: o livro de Paulo César o faz, de maneira eloqüente e engrandecedora, por isso foi, no mínimo, estranha a ação movida na justiça pelo próprio Roberto. E o silêncio a respeito, agora, após a poeira assentada e nesse período de comemoração, é incômodo.

Os festejos oficiais, por outro lado, transmitidos pela Globo, deixam a desejar. O Globo repórter, por exemplo, parecia mais o Diário Oficial, de tão burocrático. Prometeram cenas inéditas, mas o que se viu, entre outras coisas, foi a filmagem doméstica de um aniversário do Rei entre amigos.

No canal Multishow passou um programa interessante, com a turma da música pop - Skank, Autoramas etc - mais bandas covers de Roberto como a Del Rey e Os tremendões - esta com o tecladista Lafayette, autor do som de órgão característico da Jovem Guarda - falando e provando a vitalidade da obra de Roberto Carlos, sem camisas de força. Uma pena é que, quando mostram imagens de arquivo, eles nunca deixam tocar a música inteira. Mas fica a conclusão: Roberto, há 50 anos cantando rock e música romântica (boleros e baladas), desmente a hegemonia do samba como gênero-símbolo da nacionalidade.

Quer cantar um "parabéns" bacana pro Rei? Vá ao YouTube, lá estão imagens de vários especiais da Globo - Roberto mais Orlando Silva, Carlos Galhardo, Aracy de Almeida, Dircinha Batista, Moreira da Silva, Sílvio Caldas, Caymmi, tudo de chorar -, Roberto na TV portuguesa, no começo dos anos 60, cantando Coimbra e O calhambeque num paletó herdado dos Beatles, além dele num especial de natal da TV Record, cantando Quero que vá tudo pro inferno e Lobo mau. Sóbrio, elegante, bossanovístico até, como no samba Maria, Carnaval e Cinzas, de Luís Carlos Paraná, interpretado magnificamente no Festival de 67 da Record.

Vaiado e aplaudido num festival considerado de música brasileira - o seu iê iê iê não era assim considerado - o Rei bota pra quebrar, sem se deixar incomodar pelo barulho em torno e som deficiente. Sem retorno, que não existia na época, o seu canto paira soberano e domina tudo.

A música que ganhou aquele festival foi Ponteio,de Edu Lobo e Capinam, seguida por Domingo no parque, de Gil, Roda viva, de Chico Buarque, e Alegria, alegria, de Caetano. Um período fértil quando, os baianos, provocados pelo iê iê iê, aboliram as fronteiras da chamada MPB. Após aquele festival, tudo seria diferente na música brasileira, e a imagem de Roberto Carlos, em movimentos discretos, em meio ao fogo cruzado entre tradicionalistas e modernos, demonstra o quão na dele ele estava: o tempo iria dizer, rapidamente, da sua brasilidade e força.

E, no final, uma historinha: ouço Roberto Carlos desde que nasci, em 1964. As minhas "cantigas de roda" eram o Lobo mau, versão de Di Giorgio para The wanderer,de Earnest Mareska, e Quero que vá tudo pro inferno, do disco Jovem Guarda, de 65. Ainda hoje considero aquele disco de um primor ímpar: a clareza do som, um combo de rock com órgão, baixo, bateria, guitarras e sax em todas as faixas como se fosse um show ao vivo. Só que o cantor não só grita, ele também sussurra, como em Eu te adoro, meu amor e Gosto do jeitinho dela. Tem a praieira e soturna O velho homem do mar, a releitura iê iê iê de Coimbra (Morotó, dos Retrofoguetes baianos, está espiritualmente nessa faixa) e Sorrindo para mim, de Helena dos Santos, nunca citada nos compêndios, mas uma das minhas preferidas.

Eu adorava a quase misógina Lobo Mau, sem nenhum grilo, quando dizia: "e tudo que eu faço ou falo é fingimento (...) eu sei que gosto de garota a me rodear/ gosto de beijar, depois então me mandar/ e quando estou rodando e não tenho onde ir/ fico até na dúvida com qual eu vou sair/ me chamam o lobo mau/ eu sou o tal tal tal". Parece até o manual do Dirty Harry, mas é Roberto que, na capa, entre as letras coloridas, está em quatro fotografias em preto e branco. Em três das fotos, e na contracapa, ele está de camisa e calça jeans, semelhantes a um uniforme.

Esse disco me acompanhou tanto que, quando comecei a ler, e via o título Jovem Guarda em margenta sobre aquelas fotos do cantor em suposto uniforme, pensava que ele era um militar jovem, um jovem guarda. E Roberto, a partir daquele dia, passou a ser, para mim, oficial da mais alta patente da canção popular.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

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