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Quinta, 16 de julho de 2009, 10h39 Atualizada às 10h57

Farofa de tanajura

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Ivete ou Carla? Marlene ou Emilinha? Brahms ou Wagner? Perotinus ou Leoninus (conhece esses caras; acho que são metais...)? Jovem Guarda ou MPB? Rock ou Samba ou Reggae? Tonal ou Atonal? Ópera ou Sinfonia?

O amor da música. Escrevo no embalo de uma sempre inalcançável teoria das preferências musicais, que aponta para um vasto domínio - aquele que pode ser imaginado entre a fantasia intimista, a teoria da música, o sistema de decisões da mídia e do consumo, a psicologia, antropologia, sociologia, informática, política e, por que não, alguma metafísica...

Se alguém ama uma música (e alguém sempre ama uma música), então pensa que a tal tem determinados atributos, embora, evidentemente, não saiba muito bem quais são. Como se vê, o assunto é nebuloso mesmo. Mas também é muito prático, rolam milhões de dólares.

Diante da vasta capacidade de amor musical das comunidades humanas, não houve alternativa para a indústria cultural: controlar a oferta, moldando-a de acordo com as intenções de lucro. O resultado não é muito distinto da perda de biodiversidade com a queima das florestas.

A humanidade construiu em cada canto do planeta verdadeiras florestas sonoras, cheias de idéias musicais criativas. E além disso, desenvolveu no Ocidente o fenômeno da vanguarda que valoriza a criação de novos mundos sonoros. E embora tenha sido o século XX aquele que mapeou o mundo sonoro e que estimulou as vanguardas, foi também o século da implementação de um sistema globalizado de homogeneização da oferta.

Mas o jogo não está perdido. A maré das novas tecnologias parece introduzir uma saudável dissonância nisso tudo. Se o lucro caminhasse junto com a felicidade da diversidade, não precisaríamos de outra utopia ou aliteração, e nem de criticar o capitalismo.

Mas voltando ao amor musical - que é o tema mesmo da farofa - vale observar que ele tem sua cegueira, que é justamente não permitir que quem ama entenda porque ama, e nem se veja como parte ativa no ato. Você consegue explicar porque gosta das suas músicas mais amadas?

Pois é, a música também é vítima dessa síndrome do amor-objeto. E a música não é exatamente um objeto, ela é mais uma relação, um "estar-na-presença-de". Então, você não ama um objeto, você ama a si mesmo na presença de... Evidência de um narcisismo estrutural que opera com a audição.

Aliás, esse é o mecanismo que a indústria explora, através das celebridades. Ao estimular que o superego dos consumidores se alinhe com a celebridade, desencadeia um amor de identificação, e esse amor de identificação tem como veículo predileto a música.

Amar uma música é como entrar num chuveiro. A água que vai passando pelo seu corpo é a música que lhe envolve. Pense aí em quantas águas distintas você já se banhou.

O problema das preferências musicais é um problema fantástico. Desemboca diretamente na questão da educação da sensibilidade (ou da insensibilidade insensata).

Como será o amanhã? Entre vanguardas e celebridades como arrumaremos o mundo sonoro?

Espera-se que com o "fim da História", com a descoberta de milhares de perspectivas pelas quais se pode organizar o passado, as direcionalidades fabricadas possam explodir em milhares de fragmentos pós-modernos que, como uma espécie de farofa de tanajura, nos aparece para o jantar.

Bom apetite!


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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Aloisio Milani/Flickr/Divulgação
Paulo Costa Lima: "Amar uma música é como entrar num chuveiro"

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