
Atualizada às 10h57 Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
Ivete ou Carla? Marlene ou Emilinha? Brahms ou Wagner? Perotinus ou Leoninus (conhece esses caras; acho que são metais...)? Jovem Guarda ou MPB? Rock ou Samba ou Reggae? Tonal ou Atonal? Ópera ou Sinfonia?
O amor da música. Escrevo no embalo de uma sempre inalcançável teoria das preferências musicais, que aponta para um vasto domínio - aquele que pode ser imaginado entre a fantasia intimista, a teoria da música, o sistema de decisões da mídia e do consumo, a psicologia, antropologia, sociologia, informática, política e, por que não, alguma metafísica...
Se alguém ama uma música (e alguém sempre ama uma música), então pensa que a tal tem determinados atributos, embora, evidentemente, não saiba muito bem quais são. Como se vê, o assunto é nebuloso mesmo. Mas também é muito prático, rolam milhões de dólares.
Diante da vasta capacidade de amor musical das comunidades humanas, não houve alternativa para a indústria cultural: controlar a oferta, moldando-a de acordo com as intenções de lucro. O resultado não é muito distinto da perda de biodiversidade com a queima das florestas.
A humanidade construiu em cada canto do planeta verdadeiras florestas sonoras, cheias de idéias musicais criativas. E além disso, desenvolveu no Ocidente o fenômeno da vanguarda que valoriza a criação de novos mundos sonoros. E embora tenha sido o século XX aquele que mapeou o mundo sonoro e que estimulou as vanguardas, foi também o século da implementação de um sistema globalizado de homogeneização da oferta.
Mas o jogo não está perdido. A maré das novas tecnologias parece introduzir uma saudável dissonância nisso tudo. Se o lucro caminhasse junto com a felicidade da diversidade, não precisaríamos de outra utopia ou aliteração, e nem de criticar o capitalismo.
Mas voltando ao amor musical - que é o tema mesmo da farofa - vale observar que ele tem sua cegueira, que é justamente não permitir que quem ama entenda porque ama, e nem se veja como parte ativa no ato. Você consegue explicar porque gosta das suas músicas mais amadas?
Pois é, a música também é vítima dessa síndrome do amor-objeto. E a música não é exatamente um objeto, ela é mais uma relação, um "estar-na-presença-de". Então, você não ama um objeto, você ama a si mesmo na presença de... Evidência de um narcisismo estrutural que opera com a audição.
Aliás, esse é o mecanismo que a indústria explora, através das celebridades. Ao estimular que o superego dos consumidores se alinhe com a celebridade, desencadeia um amor de identificação, e esse amor de identificação tem como veículo predileto a música.
Amar uma música é como entrar num chuveiro. A água que vai passando pelo seu corpo é a música que lhe envolve. Pense aí em quantas águas distintas você já se banhou.
O problema das preferências musicais é um problema fantástico. Desemboca diretamente na questão da educação da sensibilidade (ou da insensibilidade insensata).
Como será o amanhã? Entre vanguardas e celebridades como arrumaremos o mundo sonoro?
Espera-se que com o "fim da História", com a descoberta de milhares de perspectivas pelas quais se pode organizar o passado, as direcionalidades fabricadas possam explodir em milhares de fragmentos pós-modernos que, como uma espécie de farofa de tanajura, nos aparece para o jantar.
Bom apetite!
Terra Magazine
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Aloisio Milani/Flickr/Divulgação
Paulo Costa Lima: "Amar uma música é como entrar num chuveiro"
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